Lista de Poemas

Dentro da noite insone

A noite desvencilha-se do seu manto de estrelas
E eu, poeta exausto, abraço a superfície do sono
Equilibrando-me entre palavras e desejos ermos.
O corpo nu da amada range no sonho seu instinto
E despeja no branco dos lençóis o vinho feminal
Exibindo-me os mamilos doces túrgidos em brasa 
Como pétalas incendiadas de uma orquídea rara.

Eu me transbordo lívido de libido pelos limites da pele 
E como um grifo cravo em seu corpo meu arpão de âmbar
E me comprazo de humano desvario em sua greta nua 
Fustigando, ferindo, perfumando seu corpo enlouquecido
Que súbito mergulha no inconsciente e entrelaça-se em algas
De aflições escuras, como se assomasse ao cimo da loucura. 

Até que após a luta o corpo exausto enfim entrega-se cansado
E como pássaro após a tempestade é puro canto, só ternura.
E a noite segue seu curso como anzóis jogados ao acaso:
Na cama uma borboleta de pelúcia agoniza dessangrada
No sexo ainda molhado, dolorido, transido de prazer.

Ai, momento irisado que anuncia a claridade
Deposita meu silêncio na mansidão das carnes 
Como o quarto adormecido de um hospício!
Ai, brisa que navega sobre as tetas mornas
Sopra o rocio da manhã nos seios doloridos
E arrefece a chama dessa língua irrequieta!
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A mulher que não tive

Por jamais tê-la, refugiei-me na solidão branca do sal, resguardando-me no silêncio mineral das pedras. Mas mesmo ali, onde a matéria se depura e a vida se renega, nunca a esqueci. Noite após noite, engravidei jardins com flores, sorrisos, esperanças e copos de cerveja. Até que, um dia, beija-flores se embriagavam ao luar e eu te imaginei assim, esquiva e linda, como turmalina ou, no verso, rima.

Tu me olhavas no fundo da alma com os olhos de um lago imerso em infinita dor. E nos teus olhos eu sonhei a luz púrpura do desejo, fogo que em si só consome e cria – o teu olhar eram taças de absinto que me inebriavam a alma e me assomavam memórias antigas, coreografias esquálidas de uma valsa que jamais dancei.

No limbo da minha poesia colho palavras inauditas que sobreviveram a ti, meu amor – e elas me falam de um tempo de trêmulas gotas de volúpia, como pássaros atordoados que caíssem às seis horas de todas as tardes no passeio público. São restos de naufrágio, coisas destruídas, lembranças de amigos mortos, ferimentos que ainda sangram na memória.

E no meu sonho eu me fiz bálsamo para a memória, prazer para o corpo e silêncio para a alma. E no sono da noite sonhei teus seios – momento entre dois desejos, onde após amar-te depositaria mil beijos, esperanças e anseios. Eram teus seios dunas solitárias que apaziguavam minha vontade, minha sede de prazer.

No instante que nunca houve, eu te apanhei nos braços e sonhei loucuras e calmas de pétalas e oceanos distantes, repletos de viagens e amores desfeitos - e tua pele, dourada pétala de crepom, hoje me soa apenas como salitre triste que renega o mar. 

Talvez por nunca tê-la, querida, nunca me saciei e tantas vezes ainda sonho teu colo como um poema, o mesmo poema que um dia vi nascer desesperado em meus lábios, sangrando de dor e prazer, e que nunca consumou-se – tal qual nunca pude acarinhar o latifúndio vazio de tuas costas nuas.

O teu sexo, amada minha, o teu sexo também sonhei. E era ele, de início, doce fruto de pêlos umedecidos suspenso no cio da noite e, depois, gruta incendiada prenhe de manhãs ensolaradas. Ah, teu sexo que jamais tive e tanto desejei – imaginava-o leito de rios que cortam aldeias distantes onde os poetas costumam ir colher rimas e romãs para poemas que nunca escreverão.

Teus próprios sonhos, minha querida, eu sonhei um dia, e no meu vão delírio os vi reais em mim se recriando – ora como filhos correndo pela sala, ora vagas promessas como traças devorando minha triste alma. 

Tuas pernas, ah, tuas pernas, tão lindas, como não sonhá-las? 

Torres morenas de desejo, meneando sisudas e austeras na rua dos meus vinte anos, como se me dissessem meio sim, meio não – como quem deseja, mas não sabe como. Eram lindas e longas utopias – nasciam fartas nas ancas e quase inconscientes escorriam aos joelhos e se precipitavam delirantes aos pés que, eu sonhava, as trariam a mim. Quanta ingenuidade!

Oh, amada que não tive e jamais terei, vendo-te hoje assim tão longe, e no entanto tão perto, ainda sinto como se uma sombra calma me acalentasse o sono e me enfeitiçasse a alma, como se de repente todas as estrelas acendessem e tu finalmente se me oferecesses o amor que jamais tive.

Mas, qual nada, querida, teu amor é hoje apenas poesia. E se no silêncio da rua te imagino nua, Lady Godiva cavalgando a lua, e grito teu nome na solidão do quarto, meu grito soa como clarim barroco de um querubim, vazio e oco – eco silencioso de mim.

Hoje acordo só, sem ti, sem mim, sem ninguém, poeta febril, exausto como um fauno nu – e, lentamente, enxugo as lágrimas em meu leito vazio, recolho o que de ti em mim ainda é fome e novamente adormeço, sem sequer saber-lhe o nome. 
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Saudade

Teus beijos ainda agonizam nos meus lábios,
como violetas afogadas em um lago de ironias.
A cada esperança desatino:
em parte sou poeta, em parte sou menino.
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Insônia à la Poe

As horas passam no silêncio do meu quarto.
Pouco mais existe além de mim, além da noite.
Apenas, à luz de pixels, a silhueta do teu corpo,
Tuas costas nuas na cadeira do computador
E o crocitar aziago de um corvo na estante,
Jazigo negro onde descansa o poeta morto
Em cujo epitáfio a ave necrófaga me repete:
Nunca mais terás amor, nunca mais amor.
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Reflexo

Fruta que se desintegra
Tem tudo de poema:
Pequenos pêlos, inúmeros cheiros
E uma noite muda
Em muda decomposição.
Fruta-bicho desarquitetando a vida
Silenciosa dilaceração
Saliva, susto, sublimação.
Será de bicho ou fruta esse cadáver em solidão?

É tanta melancolia em seu corpo
Tanta ausência em seus odores
Que me confundo no espelho.
Em vez de fruta é a mim que vejo:
Catedral vazia de amores
Turva simetria do desejo
Sem rastro, sem porta ou fecho.

Ela e eu apodrecemos no soneto
Fruta-abcesso, bicho-obsessão:
Loucas rimas da mesma solidão.
Bicho da noite/mulher
Fada fruta deflorada
Que tempo esse te transfigura?
Que mecanismo te empurra?
Será o avesso do cheiro
Ou apenas tua doçura?
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Retrato do poeta quando jovem

Não sei se sou poeta.
Apenas sei que de repente a minha têmpora arde
e, mesmo sem vontade, as mãos explodem
como trovões no infinito da memória,
buscando o trigo, a cevada que alimentam
a fome das palavras.

Ah, esta vontade de gritar a todas as terras,
a todos os povos, em todas as línguas,
este meu canto brasileiro, nordestino,
nutrido de cactos e mandacarus.
Sou selvagem e rasgo meus pés nesta caatinga,
onde se misturam homem e boi no mesmo pasto.

Que eu seja o mais puro dejeto desta terra,
a semente que sacia a fome, a carne escassa.
Que eu seja a mochila sedenta de bagagem,
o jagunço na caatinga, o desespero!
Que eu seja o facão no cipoal,
conversa de chicotes e costados, suor, sangue!

Não sei se sou poeta.
Mas é desta pele rota como a palha do milhal,
deste sangue desgovernado herdado de meu pai,
destes braços, destes olhos,
destas mãos caladas, desta mixórdia,
que componho o meu canto.

Eu, somente eu, começo e acabo minha estirpe!
Que se danem os nomes, as famílias,
o passado, o presente e o futuro.
Que se danem! Serei total!
Avalanche de raízes e pedras,
eletricidade de ossos e ideias!

Sou o grito resvalado pela serra,
o eco obstinado.
Sou a mão armada sobre as ondas,
sem governos, sem nada!

Porque é pelo fio do meu cabelo que começo.
E só termino na unha encravada do meu dedo mínimo!
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Perfil da Primavera

Marinheiro das estrelas absolutas,
eu me afogava no crepúsculo invisível das estátuas,
sonâmbulo tronco, como o ventre da última colmeia,
onde meninos inventavam o mundo,
entre o doce pânico do mel e o violino das abelhas.

Na paisagem de minha solidão lunar,

apenas o arco distendido das angústias.
Mas, entre os corpos e a dança silenciosa,
o relâmpago de teus olhos serpenteou no infinito dos meus,
acordando as pálpebras assustadas do desejo
que brincavam na cereja púrpura do Campari,
como duas abelhas embriagadas.

Eras uma fogueira de jasmins incendiados,
como as espumas comovidas do oceano,
onde eu colhia o vinho, o trigo,
a rosa marítima de teus beijos.

Mas que anjo mágico ou pássaro planetário
esculpiu teus seios como quem inventa a febre,
o fogo, o lírio, a asa nua do prazer?
QueE mecanismo fez teus lábios flor de açúcar,
gota de aurora, brisa vertiginosa das salivas?

Abraço teu corpo como quem abraça a primavera!
Recebo teus beijos como quem desfruta estrelas!
Estranha geografia a do teu corpo,
em cuja pele habitam borboletas incendiadas
e onde os anjos açucarados das maçãs
fabricam a saudade a cada ausência,
como quem recolhe o perfume amarelo das laranjas:
entre a solene poesia e a infância transitória do silêncio!

Ah, amor!
O meu desejo é como um lírio acorrentado à lua,
à espera da bailarina ninfa do teu corpo.
Como um pássaro enamorado pelas nuvens
que descobre no infinito das manhãs
a pele macia da aurora nua.
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Transmudação

Houve um tempo em mim
em que a solidão, de tão vertiginosa,
submergia na espuma votiva do silêncio.
Tempo em que me cabiam a imobilidade das pedras
e o choro comburente dos jasmins.

É preciso hoje te falar daquele tempo,
quando o que me incandescia, antes do fogo,
era o deserto, como o bico feroz do esquecimento,
que, de tanta ausência, fabricava na espera o antitempo.
Mas, como a dor é sempre um parto em movimento,
um dia floresceu em mim o corpo nu da esperança,
como se um adocicado cacho de abelhas
reinventasse, na tristeza, a alegria,
no amor, o alimento.

Foi quando descobri o gosto de tua boca,
tua viçosa luz, essa transmudação!
Só então percebi que as línguas tinham sinos
e que os beijos, além de tudo,
eram crianças trapezistas,
como pequenos anjos bêbados
equilibrados ao som de violinos.

Obrigado, amor, pela doce desordem de tua língua.
Obrigado pela loucura justa dos teus seios.
Por teus beijos - poemas em desespero.
Por tua respiração arfando - terno murmúrio de esperança.
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Severino

Severino era gente. Tinha nome.
Tinha boca. Tinha fome. Tinha orelhas.
Tinha nariz. Tinha olhos. Tinha mãos.
Tinha amor. Tinha raiva e ódio.
Tinha tudo de gente.
Severino era gente.

O seu corpo torvo
Turvo estorvo
Como qualquer corpo
Estendido na calçada às 11 horas da noite
Sob as marquises de néon das lâmpadas
Acusava as cicatrizes do couro
E a engenharia dos ossos tiritando sob a pele
Sugeria a grotesca forma de um

S

Seu nome não era Marco
nem era Antônio nem Manoel
Seu nome era apenas homem
Nome sem significado aparente
Ferreiro das noites forjava sua fome
Sete dias na semana
Se alimentando de nada
Em sua marmita de lata
arroz feijão e loucura

Severino é bonito?
Talvez nem apenas...
Certamente é nordestino

Obreiro?
Porteiro de edifício?
Roceiro?
Ninguém soube ou saberia:
Mulher grávida
9 filhos 9 insônias 9 choros 9 fomes
E uma só agonia...
De não ser ferreiro ou marceneiro
De não ser porteiro nem tampouco roceiro
De nem saber-se mais Severino
Maranhense
Operário em desespero
Quase nada

Nordestino!

Severino Severino
Com suas mãos calejadas
Pelo gesto e pelo ato sem sequer um desacato
Só a camisa barata
E os olhos embotados
(de sonhos)
Apenas o tempo a morte
(a fábrica)
E esta vida provisória
Que de vida talvez só reste
A expectativa da morte

Severino Severino
Dormemorre na calçada
Com mil falas esculpidas
Nas cáries do que foi dente
Com rugas dúvidas martírios
Na cara que já foi rosto
E no peito tanta dor
Pra tão pouco Severino
Que em resumo o que soma?
Soma o preço de sua vida
Ao preço do desencanto de Severino José
E o preço das injustiças
Ao preço que vale ser um Severino qualquer

Severino era gente. Tinha nome.
Tinha boca. Tinha fome. Tinha orelhas.
Tinha nariz. Tinha olhos. Tinha mãos.
Tinha amor. Tinha raiva e ódio.
Tinha tudo de gente.
Só não tinha trabalho.
Severino era gente?
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Gaivotas

Bailarinas que sobre
as águas planam
em si verso e reverso
da fixidez das pedras
que atiramos ao mar

Estáticas, mudas
a perfurarem os ventos
rasgando curvas oceânicas
existentes no espaço
de um voo e um imprevisto pouso

Em compasso lento as suas asas
traçam na vastidão dos (m)ares
poemas de imprecisas vidas
ponto qualquer no universo da dúvida:
- será o que está no ar?
- ou o que no mar adentra?

O desafio que em voo escrevem
em si prolonga distâncias
como lenços brancos em conveses
e como lentas ondas que das espumas surgem
entregam-se cansadas ao conforto
de um cais abandonado... e morrem.
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