Lista de Poemas

Ele e o voto

Demonstrando tranquilidade, olhar astuto, silencioso, ele caminhou para participar de um momento muito importante para a nação. Naquela afável manhã de primavera ia votar para presidente da República na sua amada pátria. Tentava não recobrar dos momentos angustiantes que havia passado, ao demonstrar insatisfação diante do candidato que tinha na intenção de votos mais da metade da população segundo redes sociais, pesquisas de opinião obtidas de fontes seguras, ou não, e invenções que a população obstinava em propagar.

Ele não estava conformado com o andamento das eleições, jazia no seu coração o sentimento de alienação, sensação de culpa que poderia ter sido evitada caso tivesse participado com mais veemência das campanhas que ocorreram em uma das redes sociais das quais fazia parte. Mas era tarde demais. Cabia-lhe seguir em frente, confiante que o seu voto poderia contribuir para um resultado que fosse favorável à sua ideologia partidária. Pairava na atmosfera o medo. De um lado, bradavam os cidadãos que acreditavam nos chamados partidos de direita, do outro, rebatiam os de esquerda com os seus ideais. Ele era de esquerda.

Nas ruas daquela cidade já não se via a panfletagem de outrora exibindo em papéis coloridos a imagem dos candidatos, tratava-se de um segundo turno, tudo corria com mais leveza, apenas nos locais destinados à votação ainda ocorria o mesmo entra e sai presente no turno anterior. Ele antes de chegar ao seu propósito, percebeu-se refletindo sobre o mundo que o cercava, questionando sobre qual era o verdadeiro sentido do voto para aquela nação. Ficava sem entender o que levou uma população a cair nas garras de um candidato que a desrespeitou, a partir do momento que se recusou a participar de um debate com seu opositor, algo considerado de extrema importância para o desenrolar de uma eleição. Não era justo que alguém, que se predispõe a governar um país, tenha conseguido hipnotizar uma grande quantidade de eleitores, sabendo-se que esse alguém fazia questão de propagar uma série de preconceitos sociais, além do aniquilamento de projetos que trouxeram benefícios para a população carente simplesmente por ter sido herança do Governo anterior. Para ele, na condição de cidadão participativo, era difícil, até confuso, entender o que se passava no raciocínio da população. Seguir em frente e agir de modo consciente, foi a determinação do momento.

Ele, ao chegar no ginásio onde ocorreria a votação, subitamente dirigiu-se para a seção indicada no título de eleitor e após a entrega do documento confirmando seus dados, caminhou cautelosamente até a urna eletrônica, mas no exato momento de colocar o dedo indicador na tecla para confirmar o voto, veio à memória o assassinato brutal de uma vereadora que se recusou a aceitar uma sociedade injusta, excludente. Com o dedo trêmulo, apertou a tecla confirmando o voto. Missão exercida, assim ajuizou, sorriu, foi embora.
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Domingo Adolescente

Quando o sol aparecia lá no horizonte, o domingo ficava mais bonito. O bairro onde eu morava ficava muito distante do centro da cidade, isto não nos impedia de vivermos momentos intensos, domingos cheios de passeios e de muitas idas e vindas à praia. Logo cedo, Manuel Antônio, amigo de todas as horas, batia à porta da minha casa para irmos jogar futebol. Minha mãe, Dona Mariana, e meu pai Senhor Miguel apoiavam aquelas minhas saídas. Sabiam que eu estava bem acompanhado.

      Debaixo daquele sol de verão, a bola rolava velozmente num campo de barro, nos primeiros minutos de jogo, a poeira subia, depois tudo se acalmava, o jogo seguia com seus altos e baixos. Era incrível, assim pensava eu, mas ninguém me queria no time, só me aceitavam quando não havia outro jogador... Eu jogava mal. Já Manuel era um grande jogador! Todos, lá no bairro, achavam que ia até fazer carreira; ele não dava tanta importância aos elogios, nem sonhava em ter algum destaque como jogador de futebol, queria mesmo era casar-se com Matilde.

       Embora tivéssemos apenas catorze anos de idade, tínhamos nossas namoradinhas. Matilde achava Manuel o máximo, antes mesmo de o jogo começar, lá estava ela, acompanhada de Maria Antônia, sua irmã e minha namorada, sentadas em um daqueles troncos de coqueiro que usávamos, na função de assento, uma arquibancada improvisada.

       Quase sempre, nos domingos de verão, o futebol começava cedo para também acabar cedo. Após o jogo, pegávamos nossas namoradas, íamos à praia. Nunca soube o que Matilde e Maria diziam para os seus pais, sei apenas que sempre davam um jeito de nos acompanhar, sem que eles soubessem. Espertas, por baixo do vestido já tinham a roupa de banho e, um detalhe que eu e Manuel observávamos: elas nunca tomavam banho de mar! Às vezes eu acho que os pais das garotas sabiam de tudo, porém, confiavam nos adolescentes, aparentemente rebeldes, afinal, éramos bons meninos, tirávamos boas notas na escola e sempre antes do pôr do sol, voltávamos para casa. No caminho as meninas iam inventando alguma desculpa para acalmar os pais. Acabava dando tudo certo. E assim o domingo ia nos dando adeus! O dia passava velozmente, os ponteiros do relógio pareciam estar sempre acelerados. 

        Não morávamos tão próximos, após a contemplação de um dia de praia, seguíamos eu e Manuel por um caminho, Matilde e sua irmã seguiam um caminho mais longo. Por aquela época não havia violência lá no bairro, todos se conheciam, tudo ficava mais tranquilo. E assim o domingo ia se despedindo!

         O mundo girava em nossas mentes. Domingos, invernos, verões, primaveras, outonos, passavam, passaram, passarão. Ainda me lembro até hoje dos domingos, ao lado dos amigos de infância. Lembro-me também que Matilde, Manuel, Maria e eu, não formávamos um grupo fechado, tínhamos outros amigos, apenas tirávamos o domingo para fazer algo que achávamos diferente, talvez todos os nossos amigos fizessem a mesma coisa. O que nos assemelhava era justamente o gosto de apreciar o mar, éramos apaixonados por aquela imensidão de água. Não importava o período do ano, íamos os quatro, sempre aos domingos, contemplar o mar; esse era o dia escolhido, chovendo ou não, lá estávamos nós.

           O tempo passou rapidamente, o adeus à adolescência foi inevitável. Maria aos vinte anos casou-se com o seu professor de música. Matilde foi ser freira. Tornei-me artista de teatro, enquanto Manuel faleceu em um acidente de carro aos dezoito anos de idade... Lembro-me de Matilde, carregando nas mãos flores violetas no dia do sepultamento... Naquele dia, vimos um céu violeta tentando consolar nossa dor, enquanto molhávamos as flores de Matilde com as nossas lágrimas.

            Aquelas tardes de domingo foram marcantes na minha vida. Meus companheiros de infância nunca ficaram sabendo que nas tardes de verão, depois que eles iam para suas casas, eu voltava correndo para a praia e, lá, contemplava a despedida do sol, tendo por companhia as flores violetas que ficavam no caminho. Naquele momento, o alaranjado que se via no céu coloria a minha mente, sentia-me feliz por estar ali, contemplando aquela paisagem ao lado das flores.

 

                                                                                                                           

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Agregação

Que nos acolham vivos

Seres não indolentes

Unidos por intensa luz divina

Sem mordaças rubras

Avançando nas estradas plenas

No orbe gerador

Que move nosso eixo de união.
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No Tempo, no meu tempo

Penso no impossível,

Para chegar ao possível,

Então,

Recorro ao Senhor Tempo,

E aguardo a resposta.
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Negras, negros

Corpo negro,

Fascínio e encanto,

No solo da pátria Brasil

Que ajudaste a construir,

Salve, salve,

Humanos corações,

Que apesar das atrocidades,

E descaso lhes concedidos,

Continuam erguendo esta Nação,

Com coragem,

Determinação e resistência.

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Sim, liberdade sim

Grito liberdade

Sim, grito de justiça e de respeito

Cobiço liberdade

Sim, cobiço conquistas com afetos

Aplaudo liberdade

Sim, aplauso das certezas e dos sonhos

Reverencio liberdade

Sim, reverencio a coragem e os corajosos

Busco liberdade

Sim, busco na alma e no coração

Canto liberdade

Sim, canto de amor e de paz.
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Adeus outono

Noite escura

Estrelas escondidas

Céu nublado

Poucas nuvens vagueiam

Sonhos adormecidos

Na atmosfera sobrevoam pirilampos coloridos

Pingos d’água tentam cair

O úmido chão anuncia sombras humanas

Madrugada friorenta

O outono diz adeus.
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Tocante visita

O verde estava imperceptível

Jazia orvalhado na manhã

Outrora viçoso

Ainda cintilava com as estrelas sob o luar

 

Nos acalantos noturnos

Recordava o verde de outrora

Que naquela passagem

Vestiram o teu corpo

 

Muitas estações se passaram

No chão pranteado

Viam-se pétalas petrificadas

 

Silenciosamente fostes

Pungente no meio do caminho

Sereno no final

 

 

 

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Filhos do Tempo

Sou filho do Tempo

Nasci com o sopro do vento

Na calada de um dia

No pingo de uma chuva

Em mãos humanas

Pés na terra, solo, solo

E mãos pujantes

Caminhos de lua, sol, estrelas

Tempestades de afetos

Água branda que molha

E fogo que queima iniquidades

Bem-aventurança

Que venha Tempo

Sua força comanda

Determina desígnio

Sigamos em paz contigo

Protegidos, protegidos

Venha tempo com toda a sua força

Conduza-nos.

 

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