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A Liberdade só existe no limite

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O Risco do Viver

A vida começa no instante em que escolhemos. Às vezes, sem saber. Outras, com medo. Mas sempre com a certeza silenciosa de que o tempo vai transformar tudo em memória. É curioso como a lembrança tem o poder de moldar os contornos do que fomos, como se o passado se tornasse um quadro pintado a várias mãos: as nossas e as de quem amamos.

O amor, aliás, é um desses traços firmes. Ele cria vínculos, desenha mapas invisíveis entre os corações. Mas não é feito só de afeto calmo. É também experiência, é atrito. É nas imperfeições do convívio que aprendemos a esculpir a paciência e a esboçar a empatia. O calor humano não vem da ausência de conflitos, mas da disposição de continuar perto, mesmo quando tudo parece distante.

Família é esse lugar estranho onde pertencemos antes de entender o que isso significa. É o primeiro desenho que fazemos da vida, com traços tortos, mas sinceros. Crescer é colorir esse desenho com poesia: ver beleza no banal, encontrar arte no gesto simples de ser.

Intenção é o esboço do pensamento. Fazer é cuidar do traço. Reconhecer é olhar com atenção para o que já existe e desenhar com mais clareza o que ainda falta. Pintar é expressar com coragem, mesmo quando a cor não sai como o esperado.

Ensinar é doação. Aprender é humildade. Ambos se confundem quando estamos dispostos a viver com o olhar aberto. A vida, afinal, é um grande caderno de rascunhos — cheio de tentativas, manchas, borrões. Mas também de traços únicos, que só existem porque tivemos coragem de riscar o papel.

Viver é isso: um exercício contínuo entre olhar e fazer, entre cuidar e criar. E talvez, só talvez, a verdadeira arte da vida esteja em aceitar que o desenho nunca estará terminado — e ainda assim continuar desenhando.

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Herói de Si Mesmo

Tem gente que acha que força é não sentir. Que ser herói é nunca chorar, nunca tremer, nunca cair. Mas os verdadeiros heróis — os de carne, os que vivem aqui, fora das telas — sabem que a coragem mora justamente na vulnerabilidade.

Chorar não é fraqueza. É processo. É cura. É quando a alma escorre pelos olhos pra aliviar o que o peito já não consegue carregar. E quem já chorou no silêncio, quem já se refez de lágrimas, sabe: isso alimenta. Alimenta como água no deserto, como sol depois de um longo inverno.

O caminho do herói, às vezes, passa por um deserto interno. Solidão, dor, traumas que ninguém vê. Mas também passa por encontros transformadores. Pela beleza que existe no outro — e que revela o que temos de mais bonito em nós.

Há algo profundamente restaurador em reconhecer no feminino — em qualquer forma de acolhimento, suavidade, sensibilidade — um porto seguro. Um espaço onde não é preciso fingir dureza. Onde ser leve é permitido. Onde a alma azul do outro reflete na nossa pele e nos lembra que nunca estamos realmente sós.

E quando a gente encontra esse lugar, essa pessoa, essa sensação... ela vira tatuagem. Fica marcada no tempo, na memória, no corpo. Como um símbolo de que sobrevivemos. De que nos salvamos. De que não precisamos ser invencíveis — apenas reais.

Você pode ser o seu próprio herói, sim. Não aquele perfeito, inalcançável. Mas o que sente tudo, cai, levanta, ama, e se reconstrói. O que encontra beleza até na dor que passou. E que, em meio à tempestade, ainda consegue enxergar o céu limpo — leve, azul, silenciosamente inteiro.

É isso que nos salva: reconhecer que a força não está em não sofrer. Está em continuar amando mesmo depois de sofrer. E seguir — mais inteiro, mais leve, mais verdadeiro.

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