Lista de Poemas
voz reflexiva
o gesto repartido dos segundos e minutos
findos
em prenúncios evidentes de
vazio
dedilho o inesperado
a filologia do momento, refervo louros e cascas de alhos
em tons de prata no concavo bronze do caldeirão
de duas patas.
soam as castanholas
um passo doble, um tango argentino, uma sonata…
da parte medial do segmento melódico a voz já tomba
em forma átona
- pronuncio-me in acto póstumo:
belatriz
ninfa duvidosa “seda carmim, botão de rosa”
caminhante sem fim, borboleta errática,
de um estado de alma que se deseja ser
plena existência.
ágape serei da incerteza…
na hora (in)certa, no limiar do gesto
auspicioso gesto
em que tomo minha a fera pela ponta pontiaguda dos cornos
em que me encaixo na embocadura da testa alta da própria besta
e aperto braços por sobre queixada e mandíbula
e a espuma enraivecida escorre os cantos da boca
balanceio quadris ao vento forte
olho a arena num derradeiro vislumbre
exalto a fé
das multidões aficionadas “olé, olé..."
que de pé me aplaudem em palmas
em brados
em interjeições de aplauso: "bis, bis…"
a meus pés agora
a terra envinagrada na tentativa vã de não coalhar o sangue do futuro
o pouco que, incontaminado, me resta da virginal candura
do que fui. do que era…
anátema criatura sou, nesta manhã engano, se não me vejo reflexiva em mim!
em mim própria, toureira e fera...
a lareira crepita ainda.
acordo. que faço afinal aqui?...
hoje vou editar silêncio
o soalho range sob(re) os pés.
a madeira dói. geme a casa antiga. a casa da língua.
o soalho ainda, tábua a tábua, justaposto paralelo
ressoa nos passos
e nos silêncios.
o teu silêncio. o meu silêncio. e a palavra
retraída na casa da língua. a carne viva, a viva voz...
alegoria neandertal de homem das cavernas.
...
hoje vou editar o silêncio. rasgo-o, desabitado:
- os dedos no teclado
e um barco num porto de mar. e a buza prenúncio de partida.
como uma pálpebra
uma pestana
caída
no seio da madrugada polar
qual flor
acéfala
que cresceu em sítio errado.
hoje
em cada pingo de chuva a respingar caleiras e beirados
poderia decantar
a hemodiálise diurética dum ácido corrosivo que abocanha
estulto
o malmequer perene do teu riso
se, em si maior, ainda, um nome, uma brisa, uma melodia, se eleva
resgatando silêncios do teu peito.
hoje,
talvez ainda te fale de amor ...
por hoje, ainda.
amanhã, quiçá, a geada da noite tenha
definitivamente toldado, um a um, todos os bagos de romã ...
da hermenêutica do sujeito
apenas o musgo em frinchas irregulares de calçada gasta
no raspar contíguo de cascos puídos
de milhões de pés
passados
...e as folhas,
calendarizadas, uma a uma,
ora murchas, ora acendidas viventes p’la fúria vitalícia do vento
que longo e longe, sopra,
amareladas já,
se desenham a si, hermenêuticas, em queda lenta.
[redemoinham velas, chamas pálidas, lampadários acesos
no azeite de oliva efervescente, comungam-se sacros. isentos de pecado
seguem. o Inverno purga a alma….
... depois, o cheiro da lenha em lareira, dentro;
o calendário pacifica a vida, na hermenêutica sacra, samaritana… ]
paladina a forma
o desenho e o contorno do corpo do poema
onde epigramas amorosos se entretecem em lábios carnudos de fonemas.
pendular se faz o verbo
d’ética estóica, de simbólico acto de ser afago, de ser centelha breve d’erotismo
- o desejo de dar forma à crueza do voo da águia
do abutre por sobre a carne seca dos mamíferos
na medula da serra,
à libertinagem das asas da antiguidade clássica. o pêndulo de Foulcault…
apenas o musgo entalha a pedra alva em efervescências ferretes
d’incidências pagãs e operância cartesianas.
opulento, o vento, eleva a folha. pousa serena no campanário renascentista da igreja.
aqui em frente!
na hora em que pássaros se levantam
na hora em que pássaros se levantam
[dos barros já desgastados
e encetam monótonos, monocórdicos acordes,
em gargantas verticais aos planaltos …
na hora somática de todas as horas antes
em que pedras sem asas são silhuetas íngremes
lâminas entalhadas no dorso de auroras boreais,
lágrimas
punhais de fogo e aço a rumorejar as entranhas
ainda ai, a ética esbarra o verbo e,
amantes loucos voam mais e mais alto
no azul-fogo, no azul-cobalto do céu
contornando ínvios a tempestade…
depois,
depois resta a hora incerta em que pedras desviadas
das pedreiras a jusante
sibilam em minha nuca dores reconhecidas de parto,
tufões
ventanias
dubiedades mareantes de velas ao abandono,
que turvam, salgando, o meu olhar enverdecido…
e as maças policromáticas de meu rosto
são apenas e tão só resquícios de outonais Outonos
em que o sangue das colheitas e serôdias papoilas
se escorria livre na boca ávida de jograis,
… na hora incerta em que pássaros se alteavam
voando acantos na forma breve de uma eclética guitarra.
epístola do acordar
acordo sempre
com as pálpebras cerzidas ainda no bornal das trovoadas
em que se ocultam os morcegos da luz do vida,
acordo
com as pontas dos dedos avermelhadas
e ânsias embrulhadas em pele de cobra ou de molusco
tenro.
pouco importa.
não sou do mar
nem d’água tão-pouco.
não sou, que saiba, sequer dalgum lugar,
e, se pó for sendo, serei fuligem incendiada de cauda d’astro
esparsa à deriva do vento.
epistolar
retorno ao umbigo de Java, ao eufemismo de ser não sendo, absoluto zero elevado ao expoente do nada,
se
entre o ontem que se foi e o dia d’amanhã,
em calcanhar de tua errática jornada
sou e serei, ermitério, teu afã, o risco mais profundo do teu verbo
e, ouso dizer, vaticinando, que, na pele esfolada ad eternum da linha dum imaginário firmamento
deste pó de estrela minguada antes do tempo, abortada luz-ferrete, a ferros, a êmbolo,
se fará júbilo ou, quiçá, assombro
de renúncia imprevidente;
reafirmo:
- acordo sempre
com harpas eléctricas no olhar e a boca a saber a pautas derrotadas de música
se de mim regurgitas nos socalcos da madrugada, raiz e folha,
nenúfar em lagos de mulher,
se em mim és singelo pente de dentes pontiagudos de platina e de marfim
que me desliza a alma em fio e fogo
e que fuzila soldadesca de chumbo na raiz de primevos medos… na candura d'inocência. de era ida.
na hora certa,
dou corda ao relógio dos dias de hastes desmembradas,
visto o sorriso de te ser “escrava de Córdoba”
submeto-me ao sarcástico da minha própria derrota
quando, sem público, sem palmas,
subo o pano do palco
exalto a democracia, e te exulto em elixir e júbilo, no panteão profano dos deuses
e confundo o sacro e o dissoluto
se te não sei “Senhor de mim“, in pólis-reino.
… e, em passinhos (de)mente desperta,
ora lépidos
ora dengosos
definho e fio a roca dos dias luminosos
em epitáfios jacobinos de mesuras, vénias, plumas e enigmas. aplaudo-te de pé!
resta-me o nimbo
o resplendor do sol d’ Inverno, e esta rouquidão d'alma enferma que muda se não cala
e, a forma dis_formada de me re_fundir carta epistolar.
beijo de Crisfal
são duros agora o tempo embaciou
o espelho
onde me via
formosa e bela
e as searas há muito apodrecidas
nas raízes
na borda-d’água
aprumam-se distâncias
a linha corre
maquiavélica
esmaecendo o cinza da fuselagem.
de norte a sul
e seu inverso
inverto-me, ampulheta
de areia cauterizada
não existe tensão
nem o sal se inquieta em pousio de pele
apenas
sarças insistem num perecível rasgão …
são duros agora,
os meus olhos que atentam na baba calcinada
p’lo congelo - em baba de caracol
o beijo de Crisfal
e o momento exacto em pêndulo:
o longe
e o perto.
solto
uma valente gargalhada. pérfida, é de mim que rio,
e de mais nada.
um corvo sobe
e, num lapso em que a memória acorda d’amnésia branca,
recito aos sete ventos
um extracto excelso de poema
“Parado, o relógio mudo/Repete a imensa charada/– Sempre viva e já safada –
De que tudo é nada-nada,/Se o Nada não tem o Tudo.” (1)
(1)José Régio, «Cântico Suspenso»
que farei?
quando tudo arde
e os restolhos gemem
e são lama densa
chão que me não és?
que farei das rosas
das ínfimas flores desta floresta
dos regaços
dos verbos
e desta trança
que, dia a dia,
me cobre resguardando
a carne púrpura da minha nudez
que farei de mim
que responderei de mim
aos olhos inquisitivos dos abetos
e dos ovos que descubro nossos
a pulsar de vida e canto
no coração dos pântanos?
que farei
da minha túnica de musselina branca
e do meu sonho de esvoaçar vagarosa e branda
ao som da banda sonora
de nossas ancas?
que farei a esta insistente palpitação
febril da terra
das bacias de águas férteis
das seivas coralinas do meu espanto?
que farei se
a minha entrega não te basta
e não te traz?
e me és vaga, verbo, canto, no mar de meu olhar?
e se
do amor não sei mais que o silêncio
a estrangular-me a aorta,
a atarracar-me abdominal, as costas,
e destas, vértebras de sílex, espadas de fogo, espinhos,
artefactos de pedra e osso,
a infligir-me verdades cruas de sal?
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Licenciada em Sociologia do Trabalho pela Universidade Técnica de Lisboa, em 2007 inicia Doutoramento na Universidade Nova de Lisboa em Ciências da Educação.
A par da actividade profissional na área social e educativa, publica pela primeira vez os seus trabalhos (da poesia aos contos…) na Internet em 2006.
Em 2007 dá à estampa o seu 1º livro, "Sibilam Pedras na Encosta", Corpos Editora.
Em 2008 lança o seu 2º livro, "No Princípio era o Sol", Edium Editores
Do seu curriculum literário fazem parte várias participações em Colectâneas/Antologias, nomeadamente:
- Antologia de Poesia e Prosa Poética Portuguesa Contemporânea, Vol. XVI, "Poiesis", Ed. Minerva, 2008;
- Antologia Escritores Brasileiros - e Autores de países em Língua Portuguesa , 8ª Edição, 2008;
- Antologia Escritartes, 2008;
- Antologia Luso-Poema, 2008;
- II Antologia de Poetas Lusófonos, 2009;
- Antologia "Quem acrescenta um ponto ....", 2009.
- Colectânea "A arte pela escrita", 2009;
- Colectânea "Contos Cardeais", 2010.
- Colectânea de Prosa e Poesia "A arte pela escrita, Três", 2010.
Para além dos seus blogs, colabora com diversos sites de escrita, jornais e revistas. Prefaciou e apresentou várias obras.
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