Escritas

Biografia

Residente em Ponte de Lima, Maria Manuela Ferreira é uma apaixonada pelas palavras e pelos seus múltiplos sentidos. Encontra na escrita uma forma de transformar o quotidiano, codificando emoções, pensamentos e experiências em linguagem poética e criativa. A sua escrita é, sem dúvida, uma busca constante por significados, onde cada termo ganha uma nova vida. A autora continua a trilhar um caminho onde a escrita é, acima de tudo, uma forma de revelação e uma alavanca para continuar a partilhar com o mundo o seu olhar singular sobre os dias.

Lista de Poemas

Total de poemas: 6 Página 1 de 1

Enches o peito de vento

Enches o peito de vento

e a boca, da cidade.

Andas sem rosa dos ventos,

tão cheia de majestade!

 

E vais tão vazia de gente

no teu palácio fluído,

 que as portas só são detalhe

de arquiteto distraído.

 

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Quando eu morrer, Cecília.

Quando eu morrer, Cecília,

talvez os galos não cantem mais à minha volta,

talvez não haja brisa, nem mãos delicadas,

que já não é moderno,

só pilares de cimento e frases largadas

de valas, pedras, pó, pás

e larvas na boca.

 

Quando eu morrer, Cecília,

não quero as mãos cruzadas no peito,

um sorriso de seda

e um vestido de roda bordado inglês,

antes uma tigela de marmelada na boca

a desafiar as formigas,

um pregão nos olhos

e as mãos soltas

para coçar os pés.

 

 

Quando eu morrer, Cecília,

diz-lhes que não precisam de me medir os quadris

para ajustar o tecido.

Lembra-lhes ainda, Cecília,

(talvez eles não tenham dado por isso)

que eu morri tanta vez

dentro do mesmo vestido.

 

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Às vezes, com medo de deixar cair o poema

Às vezes, com medo de deixar cair o poema

fora do mapa,

cerro os dentes,

levo-o até casa na boca.

 

E enquanto ele se escoa lentamente

junto à porta de entrada,

abre ecos pelos degraus

e ganha formas ao fundo,

eu sonho em arrastá-lo

como um gato até

ao resto do mundo.

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Artesão de sonhos

Era um homem velho, artesão de sonhos,

Aquele que eu via no largo da aldeia.

Como eu gostava de o ver chegar

Envolto em trapos feitos de memórias.

Um corpo esguio, esculpido pela fome,

Um saco vazio, tão cheio de histórias.

 

Eu sentava ali, bem perto do chão,

Enquanto ele olhava tão sofregamente.

Tirava do bolso um naco de pão,

Depois, só depois, voava no céu.

Sem pasta, sem livros, que bem ele lia

Os meus olhos negros trazidos de casa.

 

Então, eu subia, subia, subia 

Ao cimo das nuvens, tal anjo da guarda.

Um grande cordel, e o velho guiava,

Do pico das pedras, o sonho no céu.

E o velho sabia, mas nunca me disse,

Que o sonho que tinha ele é que mo deu.

 

 

Se o sol aquecia as asas de mais,

O velho puxava com força brutal.

O fio cedia àquela vontade,

Eu voava ilesa por entre os pardais.

Depois, mais um voo, pousava no chão,

O velho ali estava à espera de mim.

 

 

Eu olhava-o triste, de regresso a casa,

E ele sabia que estava no fim.

Mas nunca me disse para onde ele ia,

Talvez não quisesse que o sonho partisse.

Eu esperei, esperei, sentada no chão.

Nunca mais voei desde aquele dia.

 

 

 

Então eu dormi tão ansiosamente,

Enrolada nas pedras, tão triste, tão só.

Sonhei que fiquei com o fio na mão.

Minha mãe apontou-me uma estrela cadente.

Eu puxei, puxei, o velho não veio.

Chamei-o tão alto, disseram-me não.

 

 

E logo eu gritei de novo outra vez:

-Trago para ti um naco de pão.

Vem cá, quero ver-te, levar-te comigo,

Guardar-te bem dentro do meu coração.

O velho não veio, olhei aturdida,

Do cimo do sonho, o fundo da vida.

E os meus olhos negros, prostrados no chão,

Viram tantos velhos caídos em vão.

Manuela Ferreira

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Há saudades que ali ficam

Há saudades que ali ficam,

presas às tintas do muro.

São beijos cheios de frio

que anoitecem como bússolas

e moram dentro de tudo.

Há saudades que nos chamam

e nos param de repente,

que chegam como um combate

sem contornos definidos

e nos moldam lentamente.

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Sacudo o vento das mãos, limpo

Sacudo o vento das mãos, limpo

as sombras dos pés, alago

os olhos de artérias

e o coração de marés.

E que haja mar à minha frente e

um barco que o desmonte, que eu

tenho sonhos e mãos

que agarrem o horizonte!

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