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ademir domingos zanotelli
2025-08-02
Certamente ... um dos maiores poetas Espanhóis.... fuzilado pela ditadura da época. aos 38 anos de sua vida, uma dor imensa para os amantes da dramaturgia e poesias.
...O arquivo velho, enferrujado se abre com um som estridente. Lentamente, retiro uma pasta amarelada pelo tempo, que outrora, via-se, teria sido branca, ironicamente a cor da paz...A pasta cai de minhas mãos, espalhando suas folhas pelo chão. Minha atenção fica presa na fotografia caída. Num impulso apanho e, rasgando-a em pedaços pequenos, vou em direção á janela grande, de grades grossas, jogando os pedaços amassados como uma última homenagem. Observo o vento carregar cada pedaço, como as cinzas da tristeza que ficou, recordando como tudo aconteceu...
O dia estava muito quente, o suor descia-lhe pela testa, e as pingas da cabeça contribuíam muito para aumentar o calor, a feijoada requentada ardia na barriga, como a pimenta na garganta, dando-lhe uma sensação de azia.
Ele se despede dos amigos, caminha devagar com uma garrafa embrulhada num papel, debaixo do braço, pensando na vida dura que levava em São Paulo... Bem diferente do que imaginara!
Ao chegar em casa, um barraco na favela Nova Esperança, Lazinha, sua mulher, dorme.
A filha chora. Ele olha em volta, a pobreza sempre fora constante em sua vida.
Era pior quando vivia em Pernambuco, num pequeno sítio na cidade de Garanhus. Foi lá, na roça acabada e ressequida, que conhecera Lazinha, morena alta, magra, de cabelos longos e pretos, olhos grandes cor de mel. Ele se apaixonou por Lazinha logo na primeira vez que a viu.
A seca destruíra toda a esperança de colheita naquele ano. Foi quando Jesus, desesperado, resolveu vir para São Paulo. Sem dinheiro decide vender o jumento Adamastor, único animal que sobrevivera á seca.
Lazinha sempre quisera conhecer a cidade grande. Os dois resolveram juntar os trapos; casamento é caro, basta a benção do padre Cícero, que Deus ajuda... Assim pensou Jesus.
Tentam arrumar carona na estrada. Um caminhoneiro que passava se compadece e leva os dois até Sergipe. Que sorte, pensa ele, achando que São Paulo já estaria pertinho, sem saber que seriam dias de fome, saudades da família que ficara. O pai falecera depois de beber água barrenta, na lagoa, restando a mãe e dois irmãos.
Sua mãe, Dona Sebastiana, já não conseguia enxergar como nos tempos de mocidade devido á catarata, por isso preferiu ficar.
Achava-se cansada e desejava morrer na terra natal, como costumava dizer aos filhos, ao lado dela cova do marido morto. Chorava e rezava todos os dias, não conseguindo viver sem quebrar esse ritual.
Jesus aceita, o dinheiro mal dava para ele e Lazinha se alimentarem na estrada, mas jura silenciosamente voltar para buscar a mãe e os dois irmãos.
Ele recorda de tudo como se fosse ontem, esquecendo que fora há cinco anos. Escuta a filha chorar. Pedreiro dos bons, mas desempregado não tem serventia, queixa-se caminhando até a cama, deita ao lado da filha tentando acalmá-la.
Lazinha acorda, tem de lavar roupa na casa de dona Adelaide, no prédio perto da casa. A filha continua chorando. Ela sai aliviada, Jesus tinha chegado em casa. “ Ele cuida da menina”, pensa ela, sossegada.
Ana Carolina era a maior alegria de Jesus. Quando menino sempre sonhara ter uma filha. Ao nascer Ana Carolina, sua felicidade foi tanta que chorou como uma criança. Sempre ajudava Lazinha a cuidar de Ana Carolina: trocar fraldas, dar banho, depois, ficava horas com ela no colo, acariciando a cabecinha e cantando. Lazinha até sentia ciúme algumas vezes.
O dia passa, a tarde chega trazendo Lazinha um pouco mais atrasada que o de costume. “Tomara que Jesus não tenha deixado a coitadinha sozinha e ido para o bar ajudar o compadre Joaquim, que quebrou a perna, atender os fregueses”, preocupa-se.
Um cheiro forte de fezes paira no ar. Lazinha pega a menina, nervosa, e vê que Jesus dorme. No colo, uma garrafa vazia. Nem estranhou a menina estar gelada, pensando que era a falta de roupas. No canto da cabeceira da cama, a mamadeira já azeda contribuía para o mau cheiro. Lazinha faz um gesto para apanhá-la. Percebendo o sangue no lençol, abraça, assustada, a menina. Sente o bumbum e a coxa suja com sangue seco, a frieza no corpo... Grita, cai desmaiada. Os vizinhos acodem sem entender o que acontece.
Ao ver a menina caída e Lazinha chorando desesperada, deduzem.
Já vira muitas vezes a violência e conhecem suas marcas. Jesus é espancado até perder os sentidos, sem saber ao menos o que se passava até acordar no distrito policial.
A CELEBRIDADE
A televisão, que servia para a diversão, hoje exibe uma programação em que o Ibope sobe de acordo com o tamanho da tragédia.
Não se perde tal cena que, com certeza, delicia os telespectadores, que sadicamente se sentem melhor ao ver pessoas em situações piores que as suas.
Hoje o delegado titular será o autor principal. Grita, bate na mesa, o repórter incentiva.
—O que o senhor acha que acontecerá com ele?
—Bom, nossos homens farão tudo para protegê-lo, mas como estuprador é odiado até pelos presos, só Deus sabe-responde irônico.
—Este tipo de crime hediondo é comum aqui na região? Segue o repórter com a entrevista.
—Em todos os cinco anos em que sou policial, nunca vi tal barbaridade. Devo confessar que eu estou chocado.
Jesus, em pé, com o rosto encostado na parede, os olhos perdidos, dando um ar de enlouquecido, em estado de choque, pelo quase linchamento e por tudo que estava vivendo, parecia até estar em outro mundo. O câmeraman gravava a imagem já pensando na manchete: “Jesus cai em tentação e peca”.
Quatro metros quadrados é o espaço destinado a seis pessoas, que anualmente recebe sessenta, devido á superlotação. Cada preso tem sua história. Cada história! Sua lembrança!
Uma amargura... E todos têm duas coisas em comum: o desejo de liberdade e o ódio pelos estupradores.
Ás seis horas, o jornal policial começa. É a atração favorita, e os presos disputam os melhores lugares. Jesus aparece na tela num flash ao vivo, todos olham em silêncio, já sabem do caso, não se falava noutra coisa o dia inteiro. Entram os comerciais e o silêncio continua...
Dez horas. Geralmente tudo está calmo, alguns dormem, outros vão jogar dominó, baralho, escrevem cartas. Hoje está diferente: o silêncio é total. Os presos lembram uma alcatéia de lobos á espreita de uma caça.
Jesus adentra a carceragem. O inquérito foi lavrado e será encaminhado ao Juiz para marcar a audiência dentro de 21 dias, disse o delegado.
CARA JUSTIÇA, COROA INJUSTIÇA
Silêncio...“Jesus caminha entre os impuros”, grita alguém. Todos riem, risos de maldade, de ameaças. O carcereiro conhece, mas concorda que estuprador tem que ser punido. Pensa na filha pequena e, num acesso de raiva e exibicionismo, agride Jesus violentamente na barriga.
O espancamento silencia os presos. Lembram de sua chegada...
Por incrível que pareça, Jesus é posto numa cela comum e não na destinada aos estupradores. Os protestos dos moradores são combatidos com a desculpa de que é pelo excesso de população, e que no dia seguinte ele seria transferido.
O BAGULHO É LÔCO
Os moradores da cela em que colocam Jesus ficam indignados, acham-se ofendidos, sabem que para manter o respeito terão que dar uma lição em Jesus. Alguns são contra, mas a voz da maioria é que prevalece. E a maioria quer crucificar Jesus. O bagulho é lôco...
Dez horas sai a ‘subidinha’, o café noturno. A água esquenta, Jesus observa. Alguém pergunta se ele está encarando, a água cai...
Jesus grita, começa o castigo, um fio é esticado e ligado na tomada.
—você vai ficar chocado com que vai acontecer- diz um com sorriso, tocando Jesus com um fio. Gritos são ouvidos. O distrito está em silêncio. Grito de estuprador não conta, pensa o delegado, fumando um charuto cubano, presente do repórter que o entrevistara...
Na manhã seguinte, o delegado está irritado, não dormira como de costume. Gritos de estuprador não conta... mas incomodam. Resolve transferir Jesus.
CIDADE CARCERÁRIA
Era dia de prova na escola. Novos alunos seriam aceitos. Eu estava meio apressado. O dia seria longo. Havia 130 candidatos para entrevistar. Achei muito engraçado saber que um deles se chamava Jesus. Ele conversava timidamente, via-se nos seus olhos um sofrimento profundo, o que é comum aqui. Disse estar preso há dois meses. Queria estudar, se possível á tarde, porque estava freqüentando a igreja e tinha culto todas as manhãs. Brinquei, dizendo que Jesus não poderia faltar ao culto. Ele não riu.
Eu sabia de sua situação processual, mas na escola todos sãos alunos iguais, independente de seus crimes. Este é o motivo de ela funcionar. Mesmo sendo executada por professores, encarregados de escolas e coordenadores presos. Não pode haver discriminação aos demais reeducandos.
Jesus foi classificado para o curso de alfa um, ou seja, o início da alfabetização, e por coincidência veio estudar em minha turma.
Pouco a pouco ele foi se soltando e participando mais da aula. Ele tinha um interesse muito grande que me incentivava a preparar sempre coisas novas. Logo acabamos ficando amigos e ele sempre me procurava fora do horário de aula para pedir que eu escrevesse algumas cartas. Foi assim que me interei de toda sua situação.
Havia seis meses que Jesus chegara á Casa de Detenção quando foi convocado para sua primeira audiência. No dia seguinte não compareceu á aula e durante a semana não apareceu. Eu decidi ir, á tarde, ao xadrez dele, pois, não morávamos no mesmo pavilhão. Mas recebi uma carta sua, dizendo-me que estava livre e que viria me visitar semana seguinte.
Estranhei, mas fiquei contente em saber da novidade.
Na visita seguinte, ele estava entre os primeiros a entrar, e foi logo me abraçando e dizendo, com sua timidez de costume:
—Professor, eu sempre senti muita vergonha de estar preso, acusado de machucar minha princesinha; e o senhor foi a primeira pessoa que acreditou em minha inocência.
Disse que o Juiz havia pedido a autópsia do corpo da filha, mas o IML estava em greve, por isso não foi possível fazê-la nos primeiros dias de sua prisão. A greve provocara um acúmulo de trabalho.
Quando tudo se normalizou e el conseguiu a primeira audiência já havia se passado oito meses. Na autópsia constara que sua filha havia morrido de diarréia crônica e desidratação. Foi com os olhos marejados que completou:- “E... era virgem como Maria, a mãe de Jesus”.
—Ou a filha- brinquei, para amenizar a emoção. Jesus sorriu tristemente.
Durante dois anos seguidos, Jesus me visitou quinzenalmente.
Foi meu amigo e confidente nos momentos mais difíceis. Até que começou espaçar suas visitas, andava sempre doente e resolveu procurar um médico. Ficou sabendo estar contaminado com o vírus HIV. No dia de sua prisão, fora estuprado e contaminado no distrito policial....
DE VOLTA AO ARQUIVO X
Olhando os pedaços da fotografia serem levados pelo vento, deixo cair uma lágrima. No bolso, um telegrama de Lazinha queima minhas mãos quando o toco e releio novamente, sem querer acreditar no que diz:
“Caro professor, sinto informá-lo: morreu ontem á tarde seu amigo Jesus. Suas últimas palavras foram em agradecimento por ensiná-lo a ler e que Deus o abençoe.”
Marcio Marcelo do Nascimento Sena
O dia estava muito quente, o suor descia-lhe pela testa, e as pingas da cabeça contribuíam muito para aumentar o calor, a feijoada requentada ardia na barriga, como a pimenta na garganta, dando-lhe uma sensação de azia.
Ele se despede dos amigos, caminha devagar com uma garrafa embrulhada num papel, debaixo do braço, pensando na vida dura que levava em São Paulo... Bem diferente do que imaginara!
Ao chegar em casa, um barraco na favela Nova Esperança, Lazinha, sua mulher, dorme.
A filha chora. Ele olha em volta, a pobreza sempre fora constante em sua vida.
Era pior quando vivia em Pernambuco, num pequeno sítio na cidade de Garanhus. Foi lá, na roça acabada e ressequida, que conhecera Lazinha, morena alta, magra, de cabelos longos e pretos, olhos grandes cor de mel. Ele se apaixonou por Lazinha logo na primeira vez que a viu.
A seca destruíra toda a esperança de colheita naquele ano. Foi quando Jesus, desesperado, resolveu vir para São Paulo. Sem dinheiro decide vender o jumento Adamastor, único animal que sobrevivera á seca.
Lazinha sempre quisera conhecer a cidade grande. Os dois resolveram juntar os trapos; casamento é caro, basta a benção do padre Cícero, que Deus ajuda... Assim pensou Jesus.
Tentam arrumar carona na estrada. Um caminhoneiro que passava se compadece e leva os dois até Sergipe. Que sorte, pensa ele, achando que São Paulo já estaria pertinho, sem saber que seriam dias de fome, saudades da família que ficara. O pai falecera depois de beber água barrenta, na lagoa, restando a mãe e dois irmãos.
Sua mãe, Dona Sebastiana, já não conseguia enxergar como nos tempos de mocidade devido á catarata, por isso preferiu ficar.
Achava-se cansada e desejava morrer na terra natal, como costumava dizer aos filhos, ao lado dela cova do marido morto. Chorava e rezava todos os dias, não conseguindo viver sem quebrar esse ritual.
Jesus aceita, o dinheiro mal dava para ele e Lazinha se alimentarem na estrada, mas jura silenciosamente voltar para buscar a mãe e os dois irmãos.
Ele recorda de tudo como se fosse ontem, esquecendo que fora há cinco anos. Escuta a filha chorar. Pedreiro dos bons, mas desempregado não tem serventia, queixa-se caminhando até a cama, deita ao lado da filha tentando acalmá-la.
Lazinha acorda, tem de lavar roupa na casa de dona Adelaide, no prédio perto da casa. A filha continua chorando. Ela sai aliviada, Jesus tinha chegado em casa. “ Ele cuida da menina”, pensa ela, sossegada.
Ana Carolina era a maior alegria de Jesus. Quando menino sempre sonhara ter uma filha. Ao nascer Ana Carolina, sua felicidade foi tanta que chorou como uma criança. Sempre ajudava Lazinha a cuidar de Ana Carolina: trocar fraldas, dar banho, depois, ficava horas com ela no colo, acariciando a cabecinha e cantando. Lazinha até sentia ciúme algumas vezes.
O dia passa, a tarde chega trazendo Lazinha um pouco mais atrasada que o de costume. “Tomara que Jesus não tenha deixado a coitadinha sozinha e ido para o bar ajudar o compadre Joaquim, que quebrou a perna, atender os fregueses”, preocupa-se.
Um cheiro forte de fezes paira no ar. Lazinha pega a menina, nervosa, e vê que Jesus dorme. No colo, uma garrafa vazia. Nem estranhou a menina estar gelada, pensando que era a falta de roupas. No canto da cabeceira da cama, a mamadeira já azeda contribuía para o mau cheiro. Lazinha faz um gesto para apanhá-la. Percebendo o sangue no lençol, abraça, assustada, a menina. Sente o bumbum e a coxa suja com sangue seco, a frieza no corpo... Grita, cai desmaiada. Os vizinhos acodem sem entender o que acontece.
Ao ver a menina caída e Lazinha chorando desesperada, deduzem.
Já vira muitas vezes a violência e conhecem suas marcas. Jesus é espancado até perder os sentidos, sem saber ao menos o que se passava até acordar no distrito policial.
A CELEBRIDADE
A televisão, que servia para a diversão, hoje exibe uma programação em que o Ibope sobe de acordo com o tamanho da tragédia.
Não se perde tal cena que, com certeza, delicia os telespectadores, que sadicamente se sentem melhor ao ver pessoas em situações piores que as suas.
Hoje o delegado titular será o autor principal. Grita, bate na mesa, o repórter incentiva.
—O que o senhor acha que acontecerá com ele?
—Bom, nossos homens farão tudo para protegê-lo, mas como estuprador é odiado até pelos presos, só Deus sabe-responde irônico.
—Este tipo de crime hediondo é comum aqui na região? Segue o repórter com a entrevista.
—Em todos os cinco anos em que sou policial, nunca vi tal barbaridade. Devo confessar que eu estou chocado.
Jesus, em pé, com o rosto encostado na parede, os olhos perdidos, dando um ar de enlouquecido, em estado de choque, pelo quase linchamento e por tudo que estava vivendo, parecia até estar em outro mundo. O câmeraman gravava a imagem já pensando na manchete: “Jesus cai em tentação e peca”.
Quatro metros quadrados é o espaço destinado a seis pessoas, que anualmente recebe sessenta, devido á superlotação. Cada preso tem sua história. Cada história! Sua lembrança!
Uma amargura... E todos têm duas coisas em comum: o desejo de liberdade e o ódio pelos estupradores.
Ás seis horas, o jornal policial começa. É a atração favorita, e os presos disputam os melhores lugares. Jesus aparece na tela num flash ao vivo, todos olham em silêncio, já sabem do caso, não se falava noutra coisa o dia inteiro. Entram os comerciais e o silêncio continua...
Dez horas. Geralmente tudo está calmo, alguns dormem, outros vão jogar dominó, baralho, escrevem cartas. Hoje está diferente: o silêncio é total. Os presos lembram uma alcatéia de lobos á espreita de uma caça.
Jesus adentra a carceragem. O inquérito foi lavrado e será encaminhado ao Juiz para marcar a audiência dentro de 21 dias, disse o delegado.
CARA JUSTIÇA, COROA INJUSTIÇA
Silêncio...“Jesus caminha entre os impuros”, grita alguém. Todos riem, risos de maldade, de ameaças. O carcereiro conhece, mas concorda que estuprador tem que ser punido. Pensa na filha pequena e, num acesso de raiva e exibicionismo, agride Jesus violentamente na barriga.
O espancamento silencia os presos. Lembram de sua chegada...
Por incrível que pareça, Jesus é posto numa cela comum e não na destinada aos estupradores. Os protestos dos moradores são combatidos com a desculpa de que é pelo excesso de população, e que no dia seguinte ele seria transferido.
O BAGULHO É LÔCO
Os moradores da cela em que colocam Jesus ficam indignados, acham-se ofendidos, sabem que para manter o respeito terão que dar uma lição em Jesus. Alguns são contra, mas a voz da maioria é que prevalece. E a maioria quer crucificar Jesus. O bagulho é lôco...
Dez horas sai a ‘subidinha’, o café noturno. A água esquenta, Jesus observa. Alguém pergunta se ele está encarando, a água cai...
Jesus grita, começa o castigo, um fio é esticado e ligado na tomada.
—você vai ficar chocado com que vai acontecer- diz um com sorriso, tocando Jesus com um fio. Gritos são ouvidos. O distrito está em silêncio. Grito de estuprador não conta, pensa o delegado, fumando um charuto cubano, presente do repórter que o entrevistara...
Na manhã seguinte, o delegado está irritado, não dormira como de costume. Gritos de estuprador não conta... mas incomodam. Resolve transferir Jesus.
CIDADE CARCERÁRIA
Era dia de prova na escola. Novos alunos seriam aceitos. Eu estava meio apressado. O dia seria longo. Havia 130 candidatos para entrevistar. Achei muito engraçado saber que um deles se chamava Jesus. Ele conversava timidamente, via-se nos seus olhos um sofrimento profundo, o que é comum aqui. Disse estar preso há dois meses. Queria estudar, se possível á tarde, porque estava freqüentando a igreja e tinha culto todas as manhãs. Brinquei, dizendo que Jesus não poderia faltar ao culto. Ele não riu.
Eu sabia de sua situação processual, mas na escola todos sãos alunos iguais, independente de seus crimes. Este é o motivo de ela funcionar. Mesmo sendo executada por professores, encarregados de escolas e coordenadores presos. Não pode haver discriminação aos demais reeducandos.
Jesus foi classificado para o curso de alfa um, ou seja, o início da alfabetização, e por coincidência veio estudar em minha turma.
Pouco a pouco ele foi se soltando e participando mais da aula. Ele tinha um interesse muito grande que me incentivava a preparar sempre coisas novas. Logo acabamos ficando amigos e ele sempre me procurava fora do horário de aula para pedir que eu escrevesse algumas cartas. Foi assim que me interei de toda sua situação.
Havia seis meses que Jesus chegara á Casa de Detenção quando foi convocado para sua primeira audiência. No dia seguinte não compareceu á aula e durante a semana não apareceu. Eu decidi ir, á tarde, ao xadrez dele, pois, não morávamos no mesmo pavilhão. Mas recebi uma carta sua, dizendo-me que estava livre e que viria me visitar semana seguinte.
Estranhei, mas fiquei contente em saber da novidade.
Na visita seguinte, ele estava entre os primeiros a entrar, e foi logo me abraçando e dizendo, com sua timidez de costume:
—Professor, eu sempre senti muita vergonha de estar preso, acusado de machucar minha princesinha; e o senhor foi a primeira pessoa que acreditou em minha inocência.
Disse que o Juiz havia pedido a autópsia do corpo da filha, mas o IML estava em greve, por isso não foi possível fazê-la nos primeiros dias de sua prisão. A greve provocara um acúmulo de trabalho.
Quando tudo se normalizou e el conseguiu a primeira audiência já havia se passado oito meses. Na autópsia constara que sua filha havia morrido de diarréia crônica e desidratação. Foi com os olhos marejados que completou:- “E... era virgem como Maria, a mãe de Jesus”.
—Ou a filha- brinquei, para amenizar a emoção. Jesus sorriu tristemente.
Durante dois anos seguidos, Jesus me visitou quinzenalmente.
Foi meu amigo e confidente nos momentos mais difíceis. Até que começou espaçar suas visitas, andava sempre doente e resolveu procurar um médico. Ficou sabendo estar contaminado com o vírus HIV. No dia de sua prisão, fora estuprado e contaminado no distrito policial....
DE VOLTA AO ARQUIVO X
Olhando os pedaços da fotografia serem levados pelo vento, deixo cair uma lágrima. No bolso, um telegrama de Lazinha queima minhas mãos quando o toco e releio novamente, sem querer acreditar no que diz:
“Caro professor, sinto informá-lo: morreu ontem á tarde seu amigo Jesus. Suas últimas palavras foram em agradecimento por ensiná-lo a ler e que Deus o abençoe.”
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