Lista de Poemas

Matsuo Basho estava certo

invento uma letra
que se ausenta
de alfabeto.
Uma letra que existe
no coração de um ilhado.
(perdida letra
de uma busca sem dicionário)
letra sem nome nem traçado:
apenas espaço aberto
de uma lua cheia
que me mantém acordado.
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Fraturas


Há decerto uma oportunidade mais própria,

Uma porta do nosso tamanho

Com um tapete limpo a frente.

 

Por sobre as sombras de arvores-mães

O vento já desfolha

Os sentidos do amanhã.

 

Hoje a possibilidade mais próxima

É recolher-se ao sereno

De praças enfeitadas de crianças.
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Ossos e músculos
Revestem
A amargura
De uma gaveta
Que só queria
Ser pássaro.
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o ato se inaugura na chance de um porvir.
Há uma cachoeira onde uma mulher
Discorre sobre o curso natural
Dos movimentos humanos.
Derrete-se o hímen,
O castelo já fora ofertado:
Surreais reis batem à minha porta
E não os recebo –
Somente ao verme
É que enfatizo o meu desenlaço.
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Estufa


E ninguém deixa a vida
Dar conta de sua nutrição.
Abafam constantemente
O paradoxo.
Como se há de ser livre
Sem a contradição
De tua essência ?

Só , em meio as odisseias
De um tempo,
Aguardo um lugar para morrer.
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No pós mundo o mundo quer ser


No pós
o perene resiste
e o desejo de permanecer
conflita com o melancólico chiste.


No pós
o espaço dilata
para chuvas de marfim
mas o caminho balizado
ainda não fora caminhado:
e é ele todo
vespeiro e jasmin.


No pós
há  tensão de passado,
de futuro
existindo no ponto refratário
de um anacoluto


no pós
o mundo mente
e sorri
e fala a verdade
e não diz
o que seu dizer
deseja cumprir

no pós-tempo
no vasto fora do vasto
existe o rastro
de um ponto sem dimensão:


a obra perfeita
de humana reconciliação
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Semáforo do Relevo


Primeiro de tudo: Um futuro
aberto por dois pontos,
cifras de um eu
que se quer ser.

Depois... O absurdo,
caminho aberto a qualquer passo
em tensão de reticências...
braile de sublevação.

 Ainda mais. O ponto.
Circuncisão maculadora do irreal.
Necessária ascenção ao lote.

 
Por fim a oração falada -
Na minha língua
o travessão me convida
o dizer que se consome
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Areia no olho


coloquei minhas abstrações pra dormir.
Vou tomar um porre de presenças
vou me entregar a este limite
quue se exala em saudades.
vou ser isso e aquilo
cotidiano e imanente.

um cara passou na minha rua me oferecendo películas de celular.
ele existia como andarilho
de toda a matéria circundante.
ele vende películas de celular
e tem 2 filhos em algum lugar
no lima verde.

vende películas para proteger celulares indefesos
contra o iminente descuido de seus mestres.
películas que resistem contra o chiste da gravidade.
películas que adornam
este desejo incolúme
de se tornar esquina de si
em alguma resenha.

 

o menino do dutra retalha queijos
como retalho tramas
e o que existe lá
é a mundaneidade
de esbarros
que invejo por serem
mais tangíveis
que os meus acenos
à condição de ser homem escrito
por mim.


a mão fica pesada quando se pontua
os cantos de nossas bocas.
o que ecoa
é o pesado silêncio
de um eterno stand-by


e esse verso dedico
a toda chita
que desperdicei
para sentir na pele
o frio de uma solidão simbólica.
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São Luís.


Lilás ilha alopática
Berço de sonhos corcundas
E cobras cegas:

espelho de mim
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o verso que não cabe


ai são luis.

a ti dedicaria sonetos,

mas que importam os origamis verbais

para teu covil de solidão?

 

que importa são luís,

o lastro de minhas letras

sendo que eu só te acesso

pelo avesso de ti?

 

me digam,

qual é o meu problema

de me imaginar

amigo do verme que consome

todos os víveres aqui vivendo,

facultando o passamento

para olbivios terminais,

existindo:

e esquecendo atrás da porta que somos

o desejo de dizer eu te amo são luís...

 

eu te amo são luís,

mas é complicado amar-te

visto que não te amamos

nem tu nos ama.

mas somos um só,

um ponto energético

que elide nosso sangue

nos  nossos nomes

para sempre gravados

na tua pele e no teu veneno

de serpente circular

que nos conduz ao rebolado

de nossa essencia fractal -

ao propagar de um ilhado

ao florescimento das coisas mesmas.

 

são lúis,

teus casarões andam pelos bloquetes de perdão

os bloquetes andam pelos casarões.

carruagens andam por entre

as viaturas baculejantes.

o bonde, que não mais existe nesse recorte,

anda muito, muito mesmo,

sai lá da rua são pantaleão

como o rei do único trafego possível

entre azulejos

negros

tupinambás

caixeiros-viajantes

sorveteiros de bacuri

os engraxates, impávidos e agora inuteis

e o silêncio operacional de vida

que existe porque reside

em um solipsismo insular....

 

são luís,

uma mera crase ao eterno,

uma eterna revolta

que se incendeia de si,

fagulha de migalha

que nos atrai porque nos repele

que nos mostra porque se oculta

que fala porque cala

e calada,

trama nosso destino

nossa chancela de real

pela cicuta que nos alicia.

 

são luís, a ti e só a ti

escrevo o verso que aqui não cabe.
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