Lista de Poemas

Debaixo do nariz

Como se
emaranhado em entranhas
entre um mar de sangue
tripas, órgãos e ossos
lá no fundo, desacordado
estivesse ele

o sentimento que tanto procuro
e procurei
finalmente, quando desisti
o achei.
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Página Amarelada

Delicioso é o sentimento
multifacetado no momento
No rosto bate o vento
frio e quente, meio relento

Vejo a casa que não é lar
sou a brisa que não vem do mar
Vim da terra e não do ar
porém, disposto a me encontrar

Amena é a temperatura
o raio de sol que bate e cura
Felicidade melancólica e dura
como belo o quadro, sem moldura

Paralisado e inquieto
vendo a parede encontrar o teto
Desfigura a planta do arquiteto
varando a noite, discreto

Não como a mosca que se debate na janela
mas a incrível linha entreu e ela
Se espalha e retrai, tipo aquarela
vida é triste sim, no entanto bela

Despedaça aquilo, que come a traça
com milhões de cores que vem de graça
No ardor gostoso dessa fumaça
liberto, enfim, adeus, carcaça.
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UMA DÁDIVA À AZALEIA

Àquela, de quem o cheiro ficou gravado
O toque ficou marcado
A voz entranhada
e as cores, tão radiantes, que jamais esquecerei

Àquela, que é genial e geniosa
Que suspirou e arrancou suspiros
Que deu afeto, e recebeu de volta
e de um gargalhar, tão inspirador, que jamais esquecerei

Àquela, que por um descuido
Reguei demais, alimentei demais
Com a intensidade do último dia de vida
e de uma leveza, tão reconfortante, que jamais esquecerei

Àquela, que se atreveu
E como já soubesse quem era
Deixei em meu livro se debruçar
e de uma pele, tão macia, que jamais esquecerei

À ti, bela flor que brilhou,
Agraciou durante as trevas,
Encharcou o solo rachado,
Fez florescer campos alegres,
Adoçou cafés amargos,
Inundou de tons o monocromático,
Destilou labaredas no polo antártico,
Entrego-me, mais uma vez

Completo, talvez
De repente faltando
O que ainda não veio
Ou o que não vejo agora
Que verei em outrora
Mas assim saiba
Que de mim não faltou
E não falta

Redundante serei
Pois assim sou
Exagerado e intenso
Demasiado e ingênuo
Afetuoso e leal
Companheiro e honesto
Palhaço e poeta
Cantor e escritor

E assim como,
Em cada célula,
Cada poro e pelo,
Sentido por sentido,
Até a ponta da unha,
Por ti,
Transborda amor,
Tigresa, também sinto dor

Não há ser no universo
Que não erre
Que não tropece
Que não chore
Que não arda
Que não caia

E entenda, eu entendo
Ciclos acabam
Eternidade é ilusão
Perfeição é utopia
E assim como o amor
A dor se atenua
Com uma pitada de tempo

Derramo aqui
Por ti
Pra ti
Uma última gota
Que apesar de pequena
Transborda em multiversos
Dos tantos versos
Que me inspirou

Amanhã, não sei
Hoje dói
Pela escolha
Que eu não tive
Ou não lutei
Mas foi cruel
Ser descartado
Colocado na geladeira
Do tanto que abriu mão

E nessa última carta
Nessa última estrofe
Apesar do peito que pesa
Eu agradeço por seu amor
Pelo carinho, por tudo
Tudo que vivemos e vimos
Todas as piadas que rimos
Todos os prazeres que sentimos
Aqui de fato, me despeço
Genuinamente te amo
E não se preocupe
Não me tornarei uma pedra
Nem entrarei em seu caminho
Pelo amor, pelo respeito
Guardarei com carinho
Obrigado por existir
E fazer parte de minha existência
Nesse sopro frágil que é o viver
Sigo feliz por ter tido você.


Adeus, ****.
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Cá ou lá

O quase bom, o quase ruim
o chove, não molha
a moita ocupada
o coito interrompido
o em cima do muro
a indecisão

Nem quente nem frio
nem alto nem baixo
nem longe nem perto
o pão pela metade
o café morno

O inacabado
o recém começado
a cerveja choca
o empate
o final que não chega
o começo sem fim
o meio eterno

A quarta-feira
o úmido gelado
o tanto faz
a caneta sem tinta
o entre-coisas
o meio termo. . .
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Pouco

Quero, pouco
Sinto, muito
Feito, louco
Sonho, fluido

Texto, raso
Novo, trato
Vejo, travo
Bebo, apago

Penso, tosco
Quebro, rasgo
Colo, rosto
Acendo, trago

Deixo, calo
Mexo, fraco
Volto, falo
Fico, trapo

Pano, tronxo
Traço, lavro
Ouço, frouxo
Laço, raro

Outro, lado
Cheiro, afago
Auto, baixo
Chego, amparo

Curto, tudo
Longo, prazo
Paro, estudo
Evito, atraso

Tenso, duro
Tenro, cravo
Esperto, burro
Calmo, bravo

Vivo, morto
Sigo, cresço
Todo, torto
Fino, espesso
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Antropelado

Eu ia, tava indo
Até que o mundo parou
Se aproveitando do silêncio
E da quietude
Os vermes floresceram
Sanguinários e pútridos
Camuflados pelo caos crescente
Rastejaram por debaixo
Como sanguessugas invisíveis
Vão roendo lentamente
As bases de todas as estruturas

Até que tudo,
tudo que se viu construir
Todo suor, sangue e lágrima
Pedra, Concreto e tábua
Argila, metal e víscera
cai, quebra e desaba

Mas nem tudo se acaba
Pois uma hora
A poeira abaixa
E a carcaça miserável,
dos vermes perde a camuflagem

Agora firmes e adiante,
sobreviventes se unem
A consciência coletiva,
novamente surge
Cientes dos fatos,
dos inimigos imediatos
Se organizam, intactos

A luta se expande
O sangue se mistura
O sol, se esconde

Mas apesar do cheiro,
da murrinha de morte

Com o fim da batalha,
e dos vermes escrotos

Se inicia o futuro,
no presente de sorte

E que nunca falte,
daqui em diante

O querer de igualdade

O querer de equidade

O querer de empatia

O querer de humildade
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setecentas (ton)

A mão invisível, engraçada
manipula, corrói, maltrata
É a mesma que dá a facada
privilégios? Nem sei do que trata

Cego, surdo, mudo
desenho dos fatos em caricatura
Banalização do absurdo
estupidez bate, até que fura
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(DESCOM) PASSADO

que sonho passa?
qual peça falta?
por que a pressa?

na enchente do pensamento
maremoto de sentimentos,
cicatrizes são momentos

anarquia da criatividade
leis que constroem a cidade
tempestades que cabem num balde

que pressa passa?
qual sonho falta?
por que a peça?

batimentos da percussão no peito
piscadas arrítmicas sem efeito
descompassado, tropeçando sem jeito

sabores do amargo e do doce
gigante universo que trouxe
delicia, massageia e dá coice

que peça passa?
qual pressa falta?
por que o sonho?
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Janela dos sonhos

Quando o dia incomoda,
e a janela há tanto tempo fechada

Tanto,
que não se sabe o quanto

Trancado por dentro e por fora,
apenas enxerga a fachada

Nem mesmo a brisa que passa,
nem mesmo o canto dos pássaros

Somente a vida,
lentamente, escapa

Até que um feixe de luz surgiu,
coração parou, ar faltou

De um, foi a mil
e a janela dos sonhos, se abriu
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Letargia

Escrevi,
e numa erupção de raiva
puxei a faca
e encravei na palavra

Mal eu sabia
que a palavra me traía

Olhando o papel rasgado
e aquela sobra esfacelada
sinto, serei julgado
por matar a desalmada

Tanto queria
e faltava harmonia

Mesmo as mais belas cores
ou a lua na sacada
nem o aroma das flores
dava sentido à coitada

Já sem graça e vazia
e que nada trazia

No momento decisivo
da caminhada torta
o poeta cresce vivo
e a palavra nasce morta
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Comentários (1)

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Shavila
Shavila
2020-10-29

Uau??