Lista de Poemas
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O whatsapp do coveiro
Estava à toa na vida e fui conversar com um senhor está sempre naquela calçada ali, vendo a vida passar. Ele me contou essa história aqui:
Olha, não é porque trago a cadeira pra calçada e fico aqui a tarde toda que não faço nada. Eu olho tudo, sei do que acontece. Semana passada, olha só, teve um evento nessa associação aqui da frente. Acho que era teatro. Tinha criança, adulto, casal, tudo. Já fazia uns meses que eles vinham todo sábado, ficavam a tarde inteira lá dentro e saíam suados e falando alto que iam pro bar. Ah, que saudade do tempo que eu tinha joelho que não doía e estômago que digeria... Bom, devia ser um dia especial pra eles, alguma apresentação. Estavam maquiados e andavam pra lá e pra cá. Deu até fila na calçada, de gente que ia assistir. Quando todos entraram, tudo ficou quieto aqui fora. Aquele marasmo. Mas aí aconteceu um negócio que não vou mais esquecer. Veio um carro e estacionou com tudo ali na calçada e quase levou o ponto de ônibus, de tão afoito. Desceu um sujeito que eu já conhecia de vista, mas não sei o nome, e foi correndo lá pra dentro. Acho que nem trancou o carro. Ficou lá uns dois minutos, nem isso, e saiu. Estava todo esbaforido, suado. Parecia que procurava alguém. Ele atravessou a rua e veio até aqui me perguntar se eu tinha visto o cara da associação, o presidente. Falei que não e perguntei se podia ajudar. Ele disse que a mãe tinha acabado de morrer e que precisava enterrá-la, mas não tinha ninguém lá no cemitério pra fazer a sepultura. Deu pena dele. Precisando enterrar a mãe!! Nem perguntei do que morreu a velha. Ele disse que precisava achar o cara da associação porque só ele tinha o whatsapp do coveiro. Olha que situação, meu Deus. O whatsapp do coveiro!!! Ele pegou o carro e foi lá pra direção do cemitério.
Como falei, isso foi semana passada e até agora não sei como a história terminou. Se ele mesmo enterrou a velha, ou se acabou conseguindo um coveiro, eu não sei. Só sei que, depois que aquele sujeito aflito desapareceu na esquina, aquela gente toda do teatro saiu rindo e abraçada lá de dentro.
Olha, não é porque trago a cadeira pra calçada e fico aqui a tarde toda que não faço nada. Eu olho tudo, sei do que acontece. Semana passada, olha só, teve um evento nessa associação aqui da frente. Acho que era teatro. Tinha criança, adulto, casal, tudo. Já fazia uns meses que eles vinham todo sábado, ficavam a tarde inteira lá dentro e saíam suados e falando alto que iam pro bar. Ah, que saudade do tempo que eu tinha joelho que não doía e estômago que digeria... Bom, devia ser um dia especial pra eles, alguma apresentação. Estavam maquiados e andavam pra lá e pra cá. Deu até fila na calçada, de gente que ia assistir. Quando todos entraram, tudo ficou quieto aqui fora. Aquele marasmo. Mas aí aconteceu um negócio que não vou mais esquecer. Veio um carro e estacionou com tudo ali na calçada e quase levou o ponto de ônibus, de tão afoito. Desceu um sujeito que eu já conhecia de vista, mas não sei o nome, e foi correndo lá pra dentro. Acho que nem trancou o carro. Ficou lá uns dois minutos, nem isso, e saiu. Estava todo esbaforido, suado. Parecia que procurava alguém. Ele atravessou a rua e veio até aqui me perguntar se eu tinha visto o cara da associação, o presidente. Falei que não e perguntei se podia ajudar. Ele disse que a mãe tinha acabado de morrer e que precisava enterrá-la, mas não tinha ninguém lá no cemitério pra fazer a sepultura. Deu pena dele. Precisando enterrar a mãe!! Nem perguntei do que morreu a velha. Ele disse que precisava achar o cara da associação porque só ele tinha o whatsapp do coveiro. Olha que situação, meu Deus. O whatsapp do coveiro!!! Ele pegou o carro e foi lá pra direção do cemitério.
Como falei, isso foi semana passada e até agora não sei como a história terminou. Se ele mesmo enterrou a velha, ou se acabou conseguindo um coveiro, eu não sei. Só sei que, depois que aquele sujeito aflito desapareceu na esquina, aquela gente toda do teatro saiu rindo e abraçada lá de dentro.
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Os três ex
"É engraçado ter saudade de onde nunca se esteve", disse Benedito enquanto sentava de meia-bunda no braço do sofá, ao lado de Joaquim, a quem conhecia havia dois minutos. Estavam no saguão de um pequeno hotel.
Joaquim, além de bom ouvinte, era leitor de bíblias de hotéis duas estrelas, como esse. Não era religioso, mas sentia aguçar sua imaginação ao folhear essas páginas finas que ficam à disposição dos aflitos, sozinhas na gaveta de pequenas cômodas. Eram mais ricas essas bíblias, dizia ele, pois além dos textos continham marcas de dedos, rasguinhos e fios de cabelos (longos e curtos)... Pistas que davam cores à imaginação com cenas e histórias diversas. Uma vez, achou em Apocalipse o cartão de visitas de um médium, e adorou inventar uma história com disso.
Mas eram só pequenas histórias, que deixava guardadas. Não escrevia mais profissionalmente. Joaquim era um ex-autor.
Benedito se aconchegou de bunda inteira no sofá, reparou no quadro da Ponte Hercílio Luz pendurado na grande parede atrás do caixa, e desatou a contar de suas vidas passadas.
"Preciso te dizer, amigo, que já estive muitas vezes neste lugar e com muitas personalidades diferentes.
Já beijei muito aqui. Fui confiável e desleal, bispo e gângster. Bonito e feio no mesmo ano.
Fui de jovem revolucionário a velho capitalista em apenas 3 anos.
Em 1978, eu tinha 45 anos. Em 1981, 38.
Em 1961, era órfão, e no ano seguinte meus pais me levaram pra Acapulco.
Em 1974, ergui um arranha-céu, e dois anos depois eu mesmo fui ao espaço como astronauta.
Em 1977, eu morava havia cinco anos no Mato Grosso, e em 1979 eu nunca tinha saído da Colômbia.
Em 1980, arrasei como drag queen, e quatro anos depois era um inglês contido e pontual.
Hoje tenho só uma vida, e fisicamente é minha primeira vez neste lugar. Mas em alguma dessas paredes, imagino que naquela ali do quadro pendurado, eu já estive muitas vezes. Sou um ex-ator, hoje hóspede neste ex-cinema".
Joaquim, além de bom ouvinte, era leitor de bíblias de hotéis duas estrelas, como esse. Não era religioso, mas sentia aguçar sua imaginação ao folhear essas páginas finas que ficam à disposição dos aflitos, sozinhas na gaveta de pequenas cômodas. Eram mais ricas essas bíblias, dizia ele, pois além dos textos continham marcas de dedos, rasguinhos e fios de cabelos (longos e curtos)... Pistas que davam cores à imaginação com cenas e histórias diversas. Uma vez, achou em Apocalipse o cartão de visitas de um médium, e adorou inventar uma história com disso.
Mas eram só pequenas histórias, que deixava guardadas. Não escrevia mais profissionalmente. Joaquim era um ex-autor.
Benedito se aconchegou de bunda inteira no sofá, reparou no quadro da Ponte Hercílio Luz pendurado na grande parede atrás do caixa, e desatou a contar de suas vidas passadas.
"Preciso te dizer, amigo, que já estive muitas vezes neste lugar e com muitas personalidades diferentes.
Já beijei muito aqui. Fui confiável e desleal, bispo e gângster. Bonito e feio no mesmo ano.
Fui de jovem revolucionário a velho capitalista em apenas 3 anos.
Em 1978, eu tinha 45 anos. Em 1981, 38.
Em 1961, era órfão, e no ano seguinte meus pais me levaram pra Acapulco.
Em 1974, ergui um arranha-céu, e dois anos depois eu mesmo fui ao espaço como astronauta.
Em 1977, eu morava havia cinco anos no Mato Grosso, e em 1979 eu nunca tinha saído da Colômbia.
Em 1980, arrasei como drag queen, e quatro anos depois era um inglês contido e pontual.
Hoje tenho só uma vida, e fisicamente é minha primeira vez neste lugar. Mas em alguma dessas paredes, imagino que naquela ali do quadro pendurado, eu já estive muitas vezes. Sou um ex-ator, hoje hóspede neste ex-cinema".
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