Escritas

Os três ex

julespfz
"É engraçado ter saudade de onde nunca se esteve", disse Benedito enquanto sentava de meia-bunda no braço do sofá, ao lado de Joaquim, a quem conhecia havia dois minutos. Estavam no saguão de um pequeno hotel.

Joaquim, além de bom ouvinte, era leitor de bíblias de hotéis duas estrelas, como esse. Não era religioso, mas sentia aguçar sua imaginação ao folhear essas páginas finas que ficam à disposição dos aflitos, sozinhas na gaveta de pequenas cômodas. Eram mais ricas essas bíblias, dizia ele, pois além dos textos continham marcas de dedos, rasguinhos e fios de cabelos (longos e curtos)... Pistas que davam cores à imaginação com cenas e histórias diversas. Uma vez, achou em Apocalipse o cartão de visitas de um médium, e adorou inventar uma história com disso.

Mas eram só pequenas histórias, que deixava guardadas. Não escrevia mais profissionalmente. Joaquim era um ex-autor.

Benedito se aconchegou de bunda inteira no sofá, reparou no quadro da Ponte Hercílio Luz pendurado na grande parede atrás do caixa, e desatou a contar de suas vidas passadas.

"Preciso te dizer, amigo, que já estive muitas vezes neste lugar e com muitas personalidades diferentes.
Já beijei muito aqui. Fui confiável e desleal, bispo e gângster. Bonito e feio no mesmo ano.
Fui de jovem revolucionário a velho capitalista em apenas 3 anos.
Em 1978, eu tinha 45 anos. Em 1981, 38.
Em 1961, era órfão, e no ano seguinte meus pais me levaram pra Acapulco.
Em 1974, ergui um arranha-céu, e dois anos depois eu mesmo fui ao espaço como astronauta.
Em 1977, eu morava havia cinco anos no Mato Grosso, e em 1979 eu nunca tinha saído da Colômbia.
Em 1980, arrasei como drag queen, e quatro anos depois era um inglês contido e pontual.
Hoje tenho só uma vida, e fisicamente é minha primeira vez neste lugar. Mas em alguma dessas paredes, imagino que naquela ali do quadro pendurado, eu já estive muitas vezes. Sou um ex-ator, hoje hóspede neste ex-cinema".