João Soares Coelho
1210–1278
· viveu 68 anos
PT
João Soares Coelho foi um poeta português do século XVII, autor de uma obra notável pela sua religiosidade e pela sua vertente moralizante. A sua poesia, inserida no contexto do Barroco português, reflete uma profunda preocupação com a transitoriedade da vida e a busca pela salvação divina. Embora não seja tão amplamente conhecido como outros poetas da sua época, Coelho deixou um legado significativo pela sua expressão lírica e pelo seu misticismo.
n. 1210, Cinfães · m. 1278
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Biografia
Identificação e contexto básico
João Soares Coelho foi um poeta português, cujas obras se inserem no período do Barroco. Pouco se sabe sobre a sua data de nascimento e morte, mas a sua produção literária é datada do século XVII. Era um autor de temática religiosa e moralizante. A sua nacionalidade era portuguesa e a sua língua de escrita o português. O contexto histórico em que viveu foi o de uma sociedade profundamente marcada pela Contrarreforma, pela instabilidade política e pela influência da Igreja Católica.Infância e formação
As informações sobre a infância e formação de João Soares Coelho são escassas. Presume-se que tenha tido acesso a uma educação formal, dada a qualidade e a erudição da sua escrita. É provável que tenha sido formado no seio de uma família com inclinações religiosas ou intelectuais, o que o teria predisposto à escrita de poesia de cariz espiritual e moral. As influências iniciais na sua obra, como em muitos autores barrocos, teriam sido a literatura religiosa, a Bíblia e os textos dos místicos cristãos.Percurso literário
O percurso literário de João Soares Coelho está essencialmente ligado à sua única obra conhecida, "O Encoberto", publicado em 1659. Esta obra reúne poemas de caráter religioso, devocional e moralizante, dedicados à figura de Cristo e a temas como a fé, a penitência e a vida após a morte. Não se conhecem outras publicações ou colaborações significativas em revistas ou antologias da época.Obra, estilo e características literárias
Obra, estilo e características literárias A obra de João Soares Coelho resume-se a "O Encoberto". Os temas dominantes são a espiritualidade, a religiosidade, a moralidade e a efemeridade da vida terrena em contraste com a eternidade divina. O seu estilo é característico do Barroco português, com um uso marcado de figuras de estilo como a metáfora, a antítese e o hipérbato, visando criar um efeito de complexidade e dramaticidade. A sua linguagem é erudita e por vezes densa, refletindo a sua preocupação em transmitir mensagens profundas. A voz poética é predominantemente lírica e devocional.Obra, estilo e características literárias
Contexto cultural e histórico João Soares Coelho viveu no século XVII, um período de declínio do Império Português e de forte influência da Companhia de Jesus na vida cultural e religiosa. A sua obra reflete o espírito da Contrarreforma, com uma ênfase na devoção, na penitência e na busca pela salvação. A sua produção literária insere-se no contexto do Barroco, um estilo artístico que se caracterizava pelo contraste, pelo movimento e pela exuberância ornamental, aplicados aqui a temas espirituais.Obra, estilo e características literárias
Vida pessoal As informações sobre a vida pessoal de João Soares Coelho são muito limitadas. Não se conhecem detalhes sobre a sua família, relações afetivas ou profissão. É possível que tenha sido um clérigo ou alguém intimamente ligado à vida religiosa, dada a natureza da sua obra. A sua dedicação à escrita de poesia religiosa sugere uma vida voltada para a introspeção e a espiritualidade.Obra, estilo e características literárias
Reconhecimento e receção O reconhecimento de João Soares Coelho como poeta foi modesto em vida. A sua obra "O Encoberto" não alcançou grande difusão ou notoriedade, e ele não é frequentemente citado entre os grandes vultos da poesia barroca portuguesa. No entanto, a sua obra tem sido objeto de estudo por parte de especialistas em literatura portuguesa, que reconhecem o seu valor dentro do contexto da poesia religiosa do século XVII.Obra, estilo e características literárias
Influências e legado É provável que tenha sido influenciado por autores religiosos e místicos anteriores, tanto portugueses como espanhóis. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia religiosa portuguesa do século XVII, oferecendo uma perspetiva individual sobre os temas espirituais caros à época. A sua obra, embora específica, representa uma faceta do pensamento e da sensibilidade barroca.Obra, estilo e características literárias
Interpretação e análise crítica A obra de João Soares Coelho pode ser interpretada como um testemunho da fé e das angústias espirituais de um homem do século XVII, num período de incerteza existencial e religiosa. A análise crítica foca-se na sua linguagem barroca, na sua expressividade religiosa e na sua capacidade de transmitir um sentimento de devoção profunda.Obra, estilo e características literárias
Curiosidades e aspetos menos conhecidos Dado o parco conhecimento sobre a sua vida, não há curiosidades amplamente conhecidas sobre João Soares Coelho. A sua dedicação a uma obra singular e de teor religioso sugere um perfil discreto e voltado para o interior.Obra, estilo e características literárias
Morte e memória Não existem registos fidedignos sobre as circunstâncias da morte de João Soares Coelho. A sua memória literária está preservada pela sua obra "O Encoberto", que, apesar de não ter tido grande repercussão na sua época, constitui um documento importante para o estudo da poesia religiosa barroca em Portugal.Poemas
54A158 Em grave dia
Em grave dia, senhor, que vos vi,
por mi e por quantos me querem bem!
E por Deus, senhor, que vos nom pês en!
E direi-vos quanto per vós perdi:
perdi o mund'e perdi-me com Deus,
e perdi-me com estes olhos meus,
e meus amigos perdem, senhor, mim.
E, mia senhor, mal dia eu naci
por tod'este mal que me por vós vem!
Ca per vós perdi tod'est'e o sem
e quisera morrer e nom morri;
ca me nom quiso Deus leixar morrer
por me fazer maior coita sofrer,
por muito mal que me lh'eu mereci.
Ena mia coita, pero vos pesar
seja, senhor, já quê vos falarei,
ca nom sei se me vos ar veerei:
tanto me vej'em mui gram coit'andar
que morrerei por vós, u nom jaz al.
Catade, senhor, nom vos éste mal,
ca polo meu nom vos venh'eu rogar.
E ar quero-vos ora conselhar,
per bõa fé, o melhor que eu sei
- metede mentes no que vos direi:
quem me vos assi vir desamparar
e morrer por vós, pois eu morto for,
tam bem vos dirá por mi "traedor"
come a mim por vós, se vos matar.
E de tal preço guarde-vos vós Deus,
senhor e lume destes olhos meus,
se vos vós en nom quiserdes guardar!
por mi e por quantos me querem bem!
E por Deus, senhor, que vos nom pês en!
E direi-vos quanto per vós perdi:
perdi o mund'e perdi-me com Deus,
e perdi-me com estes olhos meus,
e meus amigos perdem, senhor, mim.
E, mia senhor, mal dia eu naci
por tod'este mal que me por vós vem!
Ca per vós perdi tod'est'e o sem
e quisera morrer e nom morri;
ca me nom quiso Deus leixar morrer
por me fazer maior coita sofrer,
por muito mal que me lh'eu mereci.
Ena mia coita, pero vos pesar
seja, senhor, já quê vos falarei,
ca nom sei se me vos ar veerei:
tanto me vej'em mui gram coit'andar
que morrerei por vós, u nom jaz al.
Catade, senhor, nom vos éste mal,
ca polo meu nom vos venh'eu rogar.
E ar quero-vos ora conselhar,
per bõa fé, o melhor que eu sei
- metede mentes no que vos direi:
quem me vos assi vir desamparar
e morrer por vós, pois eu morto for,
tam bem vos dirá por mi "traedor"
come a mim por vós, se vos matar.
E de tal preço guarde-vos vós Deus,
senhor e lume destes olhos meus,
se vos vós en nom quiserdes guardar!
725
Em Grave Dia, Senhor, Que Vos Vi
Em grave dia, senhor, que vos vi,
por mi e por quantos me querem bem!
E por Deus, senhor, que vos nom pês en!
E direi-vos quanto per vós perdi:
perdi o mund'e perdi-me com Deus,
e perdi-me com estes olhos meus,
e meus amigos perdem, senhor, mim.
E, mia senhor, mal dia eu naci
por tod'este mal que me por vós vem!
Ca per vós perdi tod'est'e o sem
e quisera morrer e nom morri;
ca me nom quiso Deus leixar morrer
por me fazer maior coita sofrer,
por muito mal que me lh'eu mereci.
Ena mia coita, pero vos pesar
seja, senhor, já quê vos falarei,
ca nom sei se me vos ar veerei:
tanto me vej'em mui gram coit'andar
que morrerei por vós, u nom jaz al.
Catade, senhor, nom vos éste mal,
ca polo meu nom vos venh'eu rogar.
E ar quero-vos ora conselhar,
per bõa fé, o melhor que eu sei
- metede mentes no que vos direi:
quem me vos assi vir desamparar
e morrer por vós, pois eu morto for,
tam bem vos dirá por mi "traedor"
come a mim por vós, se vos matar.
E de tal preço guarde-vos vós Deus,
senhor e lume destes olhos meus,
se vos vós en nom quiserdes guardar!
por mi e por quantos me querem bem!
E por Deus, senhor, que vos nom pês en!
E direi-vos quanto per vós perdi:
perdi o mund'e perdi-me com Deus,
e perdi-me com estes olhos meus,
e meus amigos perdem, senhor, mim.
E, mia senhor, mal dia eu naci
por tod'este mal que me por vós vem!
Ca per vós perdi tod'est'e o sem
e quisera morrer e nom morri;
ca me nom quiso Deus leixar morrer
por me fazer maior coita sofrer,
por muito mal que me lh'eu mereci.
Ena mia coita, pero vos pesar
seja, senhor, já quê vos falarei,
ca nom sei se me vos ar veerei:
tanto me vej'em mui gram coit'andar
que morrerei por vós, u nom jaz al.
Catade, senhor, nom vos éste mal,
ca polo meu nom vos venh'eu rogar.
E ar quero-vos ora conselhar,
per bõa fé, o melhor que eu sei
- metede mentes no que vos direi:
quem me vos assi vir desamparar
e morrer por vós, pois eu morto for,
tam bem vos dirá por mi "traedor"
come a mim por vós, se vos matar.
E de tal preço guarde-vos vós Deus,
senhor e lume destes olhos meus,
se vos vós en nom quiserdes guardar!
692
Meus Amigos, Que Sabor Haveria
Meus amigos, que sabor haveria
d'a mui gram coita, 'm que vivo, dizer
em um cantar que querria fazer;
e pero direi-vos como querria,
se Deus quisesse, dizê-lo: assi
que houvessem todos doo de mi
e nom soubessem por quem mi o dizia!
E por esto rogo Santa Maria
que m'ajud'i; e que me dê poder
per que eu torne na terra viver,
u mia senhor vi em tam grave dia
- sem outras coitas que depois sofri.
Ca nom vivera rem do que vivi,
senom cuidando com'i tornaria!
Mas cativ'eu! De melhor que querria,
de poder eu na terra guarecer,
u a cuidass'eu a poder veer
dôs mil dias ũa vez em um dia?
Já eu est'houv'e perdi-o per mim!
Mas tam mal dia ante nom perdi
os olhos e quant'al no mund'havia!
Ca, par Deus, meor míngua me faria!
d'a mui gram coita, 'm que vivo, dizer
em um cantar que querria fazer;
e pero direi-vos como querria,
se Deus quisesse, dizê-lo: assi
que houvessem todos doo de mi
e nom soubessem por quem mi o dizia!
E por esto rogo Santa Maria
que m'ajud'i; e que me dê poder
per que eu torne na terra viver,
u mia senhor vi em tam grave dia
- sem outras coitas que depois sofri.
Ca nom vivera rem do que vivi,
senom cuidando com'i tornaria!
Mas cativ'eu! De melhor que querria,
de poder eu na terra guarecer,
u a cuidass'eu a poder veer
dôs mil dias ũa vez em um dia?
Já eu est'houv'e perdi-o per mim!
Mas tam mal dia ante nom perdi
os olhos e quant'al no mund'havia!
Ca, par Deus, meor míngua me faria!
281
Ora Nom Sei No Mundo Que Fazer
Ora nom sei no mundo que fazer,
nem hei conselho, nem mi o quis Deus dar,
ca nom quis El, u me nom quis guardar,
e nom houv'eu, de me guardar, poder.
Ca díx'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
Ca nom fora tam gram cousa dizer,
se se mi a mim bem houvess'a parar
a mia fazenda; mas quem Deus guardar
nom quer, nom pode guardado seer.
Ca dix'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
E mal dia eu entom nom morri
quand'esto dix'e quando vi os seus
olhos; pero nom dixi mais, par Deus,
e[u] esto dixi, em mal dia por mim.
Ca dix'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
Ca des aquel dia 'm que a eu vi
(que nom visse) daquestes olhos meus,
nom perdi coita, ca nom quiso Deus,
nem perderei, ca eu mi o mereci.
Ca dix'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
nem hei conselho, nem mi o quis Deus dar,
ca nom quis El, u me nom quis guardar,
e nom houv'eu, de me guardar, poder.
Ca díx'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
Ca nom fora tam gram cousa dizer,
se se mi a mim bem houvess'a parar
a mia fazenda; mas quem Deus guardar
nom quer, nom pode guardado seer.
Ca dix'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
E mal dia eu entom nom morri
quand'esto dix'e quando vi os seus
olhos; pero nom dixi mais, par Deus,
e[u] esto dixi, em mal dia por mim.
Ca dix'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
Ca des aquel dia 'm que a eu vi
(que nom visse) daquestes olhos meus,
nom perdi coita, ca nom quiso Deus,
nem perderei, ca eu mi o mereci.
Ca dix'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
727
Nom Me Soub'eu Dos Meus Olhos Melhor
Nom me soub'eu dos meus olhos melhor,
per nulha rem, vingar ca me vinguei.
E direi-vos que mal que os matei:
levei-os d'u veíam sa senhor.
E fiz seu mal e do meu coraçom
por me vengar deles e por al nom!
Ca me nom podiam, per nulha rem,
sem veê'lo mui bom parecer seu,
fazer gram mal. Mais que lhes ar fiz eu?
Levei-os d'u a viiam por en!
E fiz seu mal e do meu coraçom
por me vengar deles e por al nom.
E na sazom que lhes eu entendi
que eles haviam de a veer
maior sabor, pero me de fazer
mui grave foi, levei-os [eu] dali.
E fiz seu mal e do meu coraçom
por me vengar deles e por al nom.
E na vengança que deles prendi,
gram mal per fiz a eles e a mi.
per nulha rem, vingar ca me vinguei.
E direi-vos que mal que os matei:
levei-os d'u veíam sa senhor.
E fiz seu mal e do meu coraçom
por me vengar deles e por al nom!
Ca me nom podiam, per nulha rem,
sem veê'lo mui bom parecer seu,
fazer gram mal. Mais que lhes ar fiz eu?
Levei-os d'u a viiam por en!
E fiz seu mal e do meu coraçom
por me vengar deles e por al nom.
E na sazom que lhes eu entendi
que eles haviam de a veer
maior sabor, pero me de fazer
mui grave foi, levei-os [eu] dali.
E fiz seu mal e do meu coraçom
por me vengar deles e por al nom.
E na vengança que deles prendi,
gram mal per fiz a eles e a mi.
622
Nunca Coitas de Tantas Guisas Vi
Nunca coitas de tantas guisas vi
como me fazedes, senhor, sofrer;
e nom vos queredes de mim doer!
E, vel por Deus, doede-vos de mi!
Ca, senhor, moir'e vedes que mi avém:
se vos alguém mal quer, quero-lh'eu mal,
e quero mal quantos vos querem bem.
E os meus olhos, com que vos eu vi,
mal quer', e Deus que me vos fez veer,
e a morte que me leixa viver,
e mal o mundo, porquant'i naci.
Ca, senhor, moir'e vedes que mi avém:
se vos alguem mal quer, quero-lh'eu mal,
e quero mal quantos vos querem bem.
A mia ventura quer'eu mui gram mal
e quero mal ao meu coraçom,
e tod'aquesto, senhor, coitas som;
e quero mal Deus porque me nom val.
Ca, senhor, moir'e vedes que mi avém:
se vos alguém mal quer, quero-lh'eu mal,
e quero mal quantos vos querem bem.
E tenho que faço dereit'e sem
em querer mal quem vos quer mal e bem.
como me fazedes, senhor, sofrer;
e nom vos queredes de mim doer!
E, vel por Deus, doede-vos de mi!
Ca, senhor, moir'e vedes que mi avém:
se vos alguém mal quer, quero-lh'eu mal,
e quero mal quantos vos querem bem.
E os meus olhos, com que vos eu vi,
mal quer', e Deus que me vos fez veer,
e a morte que me leixa viver,
e mal o mundo, porquant'i naci.
Ca, senhor, moir'e vedes que mi avém:
se vos alguem mal quer, quero-lh'eu mal,
e quero mal quantos vos querem bem.
A mia ventura quer'eu mui gram mal
e quero mal ao meu coraçom,
e tod'aquesto, senhor, coitas som;
e quero mal Deus porque me nom val.
Ca, senhor, moir'e vedes que mi avém:
se vos alguém mal quer, quero-lh'eu mal,
e quero mal quantos vos querem bem.
E tenho que faço dereit'e sem
em querer mal quem vos quer mal e bem.
471
Pelos Meus Olhos Houv'eu Muito Mal
Pelos meus olhos houv'eu muito mal
e pesar tant'e tam pouco prazer,
que me valvera mais non'os haver,
nem veer nunca mia senhor, nem al.
E nom mi há prol de queixar-m'end'assi;
mais mal dia eu dos meus olhos vi!
Ca por eles houv'eu mui pouco bem;
e o pesar que me fazem sofrer
e a gram coita nom é de dizer.
E queixar-m'-ia, mais nom hei a quem.
E nom mi há prol de queixar m'end'assi,.
mais mal dia eu dos meus olhos vi!
E a senhor que me forom mostrar,
de quantas donas Deus quiso fazer
de falar bem e de bem parecer,
e por que moiro, nom lh'ouso falar.
E nom mi há prol de queixar m'end'assi;
mais mal dia eu dos meus olhos vi!
e pesar tant'e tam pouco prazer,
que me valvera mais non'os haver,
nem veer nunca mia senhor, nem al.
E nom mi há prol de queixar-m'end'assi;
mais mal dia eu dos meus olhos vi!
Ca por eles houv'eu mui pouco bem;
e o pesar que me fazem sofrer
e a gram coita nom é de dizer.
E queixar-m'-ia, mais nom hei a quem.
E nom mi há prol de queixar m'end'assi,.
mais mal dia eu dos meus olhos vi!
E a senhor que me forom mostrar,
de quantas donas Deus quiso fazer
de falar bem e de bem parecer,
e por que moiro, nom lh'ouso falar.
E nom mi há prol de queixar m'end'assi;
mais mal dia eu dos meus olhos vi!
271
Eu Me Coidei, U Me Deus Fez Veer
Eu me coidei, u me Deus fez veer
esta senhor, contra que me nom val,
que nunca me dela verria mal:
tanto a vi fremoso parecer,
e falar mans', e fremos'e tam bem
e tam de bom prez e tam de bom sem
que nunca dela mal cuidei prender.
Esto tiv'eu que m'havi'a valer
contra ela, e todo mi ora fal,
e de mais Deus; e viv'em coita tal
qual poderedes mui ced'entender
per mia morte, ca moir'e praze-m'en.
E d'al me praz: que nom sabem por quem,
nen'o podem jamais per mi saber!
Pero vos eu seu bem queira dizer
todo, nom sei, pero convosc'em al
nunca fale. Mais fezo-a Deus qual
El melhor soube no mundo fazer.
Ainda vos al direi que lh'avém:
todas as outras donas nom som rem
contra ela, nem ham já de seer.
E esta dona, poilo nom souber,
nom lhe podem, se torto nom houver,
Deus nem ar as gentes culpa põer.
Maila mia ventur'e aquestes meus
olhos ham i grande culpa e [ar] Deus
que me fezerom tal dona veer.
esta senhor, contra que me nom val,
que nunca me dela verria mal:
tanto a vi fremoso parecer,
e falar mans', e fremos'e tam bem
e tam de bom prez e tam de bom sem
que nunca dela mal cuidei prender.
Esto tiv'eu que m'havi'a valer
contra ela, e todo mi ora fal,
e de mais Deus; e viv'em coita tal
qual poderedes mui ced'entender
per mia morte, ca moir'e praze-m'en.
E d'al me praz: que nom sabem por quem,
nen'o podem jamais per mi saber!
Pero vos eu seu bem queira dizer
todo, nom sei, pero convosc'em al
nunca fale. Mais fezo-a Deus qual
El melhor soube no mundo fazer.
Ainda vos al direi que lh'avém:
todas as outras donas nom som rem
contra ela, nem ham já de seer.
E esta dona, poilo nom souber,
nom lhe podem, se torto nom houver,
Deus nem ar as gentes culpa põer.
Maila mia ventur'e aquestes meus
olhos ham i grande culpa e [ar] Deus
que me fezerom tal dona veer.
559
Pero M'eu Hei Amigos, Nom Hei Ni Um Amigo
Pero m'eu hei amigos, nom hei ni um amigo
com que falar ousasse a coita que comigo
hei, nem ar hei a quem ous'en mais dizer; e digo:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir.
Vi eu viver coitados, mas nunca tam coitado
viveu com'hoj'eu vivo, nen'o viu home nado,
des quando fui u fui. E aque vo-lo recado:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir!
A coita que eu prendo nom sei quem atal prenda,
que me faz fazer sempre dano de mia fazenda;
tod'aquest'entend'eu, e quem mais quiser entenda:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir!
De cousas me nam guardo, mais pero guardar-m'-ia
de sofrer a gram coita que sofri, dê'lo dia
des que vi o que vi, e mais nom vos en diria:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir!
com que falar ousasse a coita que comigo
hei, nem ar hei a quem ous'en mais dizer; e digo:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir.
Vi eu viver coitados, mas nunca tam coitado
viveu com'hoj'eu vivo, nen'o viu home nado,
des quando fui u fui. E aque vo-lo recado:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir!
A coita que eu prendo nom sei quem atal prenda,
que me faz fazer sempre dano de mia fazenda;
tod'aquest'entend'eu, e quem mais quiser entenda:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir!
De cousas me nam guardo, mais pero guardar-m'-ia
de sofrer a gram coita que sofri, dê'lo dia
des que vi o que vi, e mais nom vos en diria:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir!
548
Senhor E Lume Destes Olhos Meus
Senhor e lume destes olhos meus,
per bõa [fé], direi-vos ũa rem;
e se vos mentir, nom me venha bem
nunca de vós, nem d'outrem, nem de Deus:
dê'lo dia 'm que vos nom vi,
mia senhor, nunca despois vi
prazer nem bem; nen'o ar veerei,
se nom vir vós, enquant'eu vivo for,
ou mia morte, fremosa mia senhor;
ca estou de vós como vos en direi:
dê'lo dia 'm que vos nom vi,
mia senhor, nunca despois vi
per bõa fé, se mui gram pesar nom;
ca todo quanto vi me foi pesar
e nom me soube conselho filhar.
E direi-vos, senhor, des qual sazom:
dê'lo dia 'm que vos nom vi,
mia senhor, nunca despois vi,
nem veerei, senhor, mentr'eu viver,
- se nom vir vós ou mia morte - prazer!
per bõa [fé], direi-vos ũa rem;
e se vos mentir, nom me venha bem
nunca de vós, nem d'outrem, nem de Deus:
dê'lo dia 'm que vos nom vi,
mia senhor, nunca despois vi
prazer nem bem; nen'o ar veerei,
se nom vir vós, enquant'eu vivo for,
ou mia morte, fremosa mia senhor;
ca estou de vós como vos en direi:
dê'lo dia 'm que vos nom vi,
mia senhor, nunca despois vi
per bõa fé, se mui gram pesar nom;
ca todo quanto vi me foi pesar
e nom me soube conselho filhar.
E direi-vos, senhor, des qual sazom:
dê'lo dia 'm que vos nom vi,
mia senhor, nunca despois vi,
nem veerei, senhor, mentr'eu viver,
- se nom vir vós ou mia morte - prazer!
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