Lista de Poemas

o prego na parede

ao pregar o prego na parede
João plantou corpo, corpo morto no chão

mas quem foi João, pergunta o mestre,
o mestre ao capelão?

e as horas passam como as cinzas voam,
voam as cinzas de João

mas o prego continuou na parede, imóvel
tal qual pergunta, pergunta do mestre ao capelão

um dia, daquele prego, Maria fez moldura,
inquilina na imagem, era formosura em rendas e tenra idade

sob o quadro, louças finas em fina cristaleira
obra feita dos antigos, agora de moça, moça e rendeira

Maria rendou cidades e rendou lençóis e castidade, por homens de cabeceira

mas os anos passam, e gastam como a saudade,
a saudade da cristaleira, da moça fina e louças de solteira

naquele quarto, (da parede e do prego de João)
vieram os filhos, dos filhos, os netos, os netos da mulher de prateleira

e o tempo passa, o tempo passa como no tempo de João

hoje vagam naquela casa, velha casa, em meio aos pregos sem molduras, a mulher velha e um olhar na solidão

pois foi certeza da idade, da lembrança da imagem, formosura em renda de tenra idade, que a mulher velha tornou-se inquilina da saudade e era filha, a menina do João

jeronimo
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Lavadeiras

cá, a palavra não fala

mas canta a um rio

a rodar teias no cio

 

Caminho dos Escravos

morreu Ouro, Córrego da Prata

da Boca do Inferno, ainda sonha

o Rio Jequitinhonha

 

Bica das Monteiras

bate em pedra,

Santa Clara, lavadeira

 

suor é mina d’água

a quarar o tempo

em ordem e entendimento

 

não esqueçam nossa lida

d'água branca

pois diamante foi voz

de um canto já distante
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reza flor

flores na janela

cultivam longa espera

devotando à rua, capela

 

reza flor II

 

rezam flores em capela

cultivam dores e espera

os que fazem das ruas, janelas

 

reza flor III

 

rezam dores, sem espera,

os que não cultivam flores

nem das ruas - janelas

 

reza flor IV

 

rezam ruas, dores e janelas

cultivam flores, capela

de tão longa, resta espera
 

jeronimo
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Menininha da lua

e sorri, meia e tangente,

bailando em noites cadentes

 

é prata de um quarto crescente

que perde, no ensaio, um dente
 

jeronimo
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da pele

a pele é o jardim das vaidades
de uma alma que seca

do corpo, arranham
espinhos e já não posso tocar a chuva

as horas fadigam o tempo
corroem a memória

mas quero cobrir-me da casca
e contar sobre a melancolia das folhas

e quando deitar na terra úmida,
me dissolver nas sombras

que dos meus restos
alimentem a terra, mas não por algum pesar

porque a pele é jardim das vaidades
de uma alma que seca

jeronimo
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Devota

quando menina

ocupei assento

em paróquia e exclamação

 

do Paramento, pouca memória

as sobras de um rosário entre

palmas quais mitigavam a fome,

o comungar-me entre dois corpos

 

dessa oração

não vi o fim, nem porta

e como sacramento

me fiz devota

 

e hoje, hoje meus cabelos

exponho ao hábito,

se não da carne, a renunciar o regalo

e do pesar-te em meu ventre

apenas o fardo:

 

deus, dai-me um pouco de perdão


jeronimo
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