Lista de Poemas

Janeiro febril

na romaria das ondas,

rogo à Iemanjá, aparição

 

mas não para render fé ao infortúnio

ou oferecer alguma dívida à louvação

 

apenas a súplica de quem afoga:

dai-me o canto das marés e oração


jeronimo
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operários II

envelheço as rugas
porque não tenho pressa

quando morre a labuta
da noite, caem as estrelas em vão?

o que escreve
um operário após um
dia de chão?

e sentado, a beira da minha testa,
canso os braços do pão

recosto sob as horas
à espreita do Cão

releio as sobras
de uma vida em vão

mas envelheço as rugas
porque não tenho pressa

jeronimo
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cravos efêmeros

resta a noite

do rumor da partida

 

a ideia batida

de um corpo de cor

 

e deito-me ao escopo, é ofício

o adeus sem dor


jeronimo
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indefere

habito uma casa que não é minha
do hábito, um corpo que não é meu
do cansaço, a fadiga distancia os braços
de um amor que não foi teu

não há beira de morada
nem um mar que céu apruma
reza, a cor é púrpura
da noite que não adia

me fiz do encalço e
do desprezo
o silêncio não é recluso
porque da morte não há partida

e se nalgum dia retornar
àquela casa
sem mora ou recaída
não diga adeus a despedida

jeronimo
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banco

hoje estou mínimo
tão mínimo de mim

e figuram os laços
de um qualquer retrato

mas estou mínimo
mínimo de mim

esboço algumas linhas
num papel feito de água e nanquim

e cada gota que se esvai
leva pouco, um pouco de mim

mas ouço passos e moças
carros e poças

seguro as mãos,
os talhos, as louças

porque estou mínimo,
tão mínimo de mim

jeronimo
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operária

quem é essa
que me amarga os olhos
que da carne fogem os ossos
dos passos tropeça a hora,
que da boca saliva o encalço
de mãos atadas à história?

quem é essa
que nos dias se perde da sombra
das noites, finda mulher e ronda
e ainda seca da cama, amanhece
por ternura a seu cantar?

quem é essa
por quais gemem os muros
correntes, pedras e murros
desbotando os homens
da cólera do pesar?

quem é essa por qual
chora o verdugo, os clarões
os Papas e os miúdos
das roupas e abusos
e ainda insiste em passar?

quem é essa
que desabotoa da terra
as cercas e as vestes da 'Besta'
que a posse finda
por tanto matar?

quem é essa?

jeronimo
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carta

sob entorno e vidro

desafiei ao mar

um aviso:

 

aqui, houve um homem

partido que navegou

escondido entre

bordas e linhas

de um triste improviso
 

jeronimo
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oração

rezo

um terço de sangue

e nele, não há Marias

não há Senhores

 

não há a graça

ou reino,

nem culpa à piedade

 

não firma

palmas e castas às horas, rima

 

silencia

 

e do ventre

laça o vime,

das ruas, as flores

das lutas, os amores 


jeronimo
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o prego na parede

ao pregar o prego na parede
João plantou corpo, corpo morto no chão

mas quem foi João, pergunta o mestre,
o mestre ao capelão?

e as horas passam como as cinzas voam,
voam as cinzas de João

mas o prego continuou na parede, imóvel
tal qual pergunta, pergunta do mestre ao capelão

um dia, daquele prego, Maria fez moldura,
inquilina na imagem, era formosura em rendas e tenra idade

sob o quadro, louças finas em fina cristaleira
obra feita dos antigos, agora de moça, moça e rendeira

Maria rendou cidades e rendou lençóis e castidade, por homens de cabeceira

mas os anos passam, e gastam como a saudade,
a saudade da cristaleira, da moça fina e louças de solteira

naquele quarto, (da parede e do prego de João)
vieram os filhos, dos filhos, os netos, os netos da mulher de prateleira

e o tempo passa, o tempo passa como no tempo de João

hoje vagam naquela casa, velha casa, em meio aos pregos sem molduras, a mulher velha e um olhar na solidão

pois foi certeza da idade, da lembrança da imagem, formosura em renda de tenra idade, que a mulher velha tornou-se inquilina da saudade e era filha, a menina do João

jeronimo
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onde

para onde vão as cores,
os pássaros e os pincéis?

para onde vão as letras,
dos manuscritos e bacharéis?

para quando - tão distante,
partiu-se o som, à risca por fiéis dos cordéis?

e exilado de mim, está o outro
aquele qual imagem fere

onde ainda posso rendar as flores
os galhos da noite e os amores

jeronimo
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