Lista de Poemas
operários II
envelheço as rugas
porque não tenho pressa
quando morre a labuta
da noite, caem as estrelas em vão?
o que escreve
um operário após um
dia de chão?
e sentado, a beira da minha testa,
canso os braços do pão
recosto sob as horas
à espreita do Cão
releio as sobras
de uma vida em vão
mas envelheço as rugas
porque não tenho pressa
jeronimo
porque não tenho pressa
quando morre a labuta
da noite, caem as estrelas em vão?
o que escreve
um operário após um
dia de chão?
e sentado, a beira da minha testa,
canso os braços do pão
recosto sob as horas
à espreita do Cão
releio as sobras
de uma vida em vão
mas envelheço as rugas
porque não tenho pressa
jeronimo
👁️ 215
cravos efêmeros
resta a noite
do rumor da partida
a ideia batida
de um corpo de cor
e deito-me ao escopo, é ofício
o adeus sem dor
do rumor da partida
a ideia batida
de um corpo de cor
e deito-me ao escopo, é ofício
o adeus sem dor
jeronimo
👁️ 274
Janeiro febril
na romaria das ondas,
rogo à Iemanjá, aparição
mas não para render fé ao infortúnio
ou oferecer alguma dívida à louvação
apenas a súplica de quem afoga:
dai-me o canto das marés e oração
rogo à Iemanjá, aparição
mas não para render fé ao infortúnio
ou oferecer alguma dívida à louvação
apenas a súplica de quem afoga:
dai-me o canto das marés e oração
jeronimo
👁️ 279
indefere
habito uma casa que não é minha
do hábito, um corpo que não é meu
do cansaço, a fadiga distancia os braços
de um amor que não foi teu
não há beira de morada
nem um mar que céu apruma
reza, a cor é púrpura
da noite que não adia
me fiz do encalço e
do desprezo
o silêncio não é recluso
porque da morte não há partida
e se nalgum dia retornar
àquela casa
sem mora ou recaída
jeronimo
do hábito, um corpo que não é meu
do cansaço, a fadiga distancia os braços
de um amor que não foi teu
não há beira de morada
nem um mar que céu apruma
reza, a cor é púrpura
da noite que não adia
me fiz do encalço e
do desprezo
o silêncio não é recluso
porque da morte não há partida
e se nalgum dia retornar
àquela casa
sem mora ou recaída
não diga adeus a despedida
jeronimo
👁️ 173
banco
hoje estou mínimo
tão mínimo de mim
e figuram os laços
de um qualquer retrato
mas estou mínimo
mínimo de mim
esboço algumas linhas
num papel feito de água e nanquim
e cada gota que se esvai
leva pouco, um pouco de mim
mas ouço passos e moças
carros e poças
seguro as mãos,
os talhos, as louças
porque estou mínimo,
jeronimo
tão mínimo de mim
e figuram os laços
de um qualquer retrato
mas estou mínimo
mínimo de mim
esboço algumas linhas
num papel feito de água e nanquim
e cada gota que se esvai
leva pouco, um pouco de mim
mas ouço passos e moças
carros e poças
seguro as mãos,
os talhos, as louças
porque estou mínimo,
tão mínimo de mim
jeronimo
👁️ 190
operária
quem é essa
que me amarga os olhos
que da carne fogem os ossos
dos passos tropeça a hora,
que da boca saliva o encalço
de mãos atadas à história?
quem é essa
que nos dias se perde da sombra
das noites, finda mulher e ronda
e ainda seca da cama, amanhece
por ternura a seu cantar?
quem é essa
por quais gemem os muros
correntes, pedras e murros
desbotando os homens
da cólera do pesar?
quem é essa por qual
chora o verdugo, os clarões
os Papas e os miúdos
das roupas e abusos
e ainda insiste em passar?
quem é essa
que desabotoa da terra
as cercas e as vestes da 'Besta'
que a posse finda
por tanto matar?
jeronimo
que me amarga os olhos
que da carne fogem os ossos
dos passos tropeça a hora,
que da boca saliva o encalço
de mãos atadas à história?
quem é essa
que nos dias se perde da sombra
das noites, finda mulher e ronda
e ainda seca da cama, amanhece
por ternura a seu cantar?
quem é essa
por quais gemem os muros
correntes, pedras e murros
desbotando os homens
da cólera do pesar?
quem é essa por qual
chora o verdugo, os clarões
os Papas e os miúdos
das roupas e abusos
e ainda insiste em passar?
quem é essa
que desabotoa da terra
as cercas e as vestes da 'Besta'
que a posse finda
por tanto matar?
quem é essa?
jeronimo
👁️ 193
oração
rezo
um terço de sangue
e nele, não há Marias
não há Senhores
não há a graça
ou reino,
nem culpa à piedade
não firma
palmas e castas às horas, rima
silencia
e do ventre
laça o vime,
das ruas, as flores
jeronimo
um terço de sangue
e nele, não há Marias
não há Senhores
não há a graça
ou reino,
nem culpa à piedade
não firma
palmas e castas às horas, rima
silencia
e do ventre
laça o vime,
das ruas, as flores
das lutas, os amores
jeronimo
👁️ 198
carta
sob entorno e vidro
desafiei ao mar
um aviso:
aqui, houve um homem
partido que navegou
escondido entre
bordas e linhas
jeronimo
desafiei ao mar
um aviso:
aqui, houve um homem
partido que navegou
escondido entre
bordas e linhas
de um triste improviso
jeronimo
👁️ 181
onde
para onde vão as cores,
os pássaros e os pincéis?
para onde vão as letras,
dos manuscritos e bacharéis?
para quando - tão distante,
partiu-se o som, à risca por fiéis dos cordéis?
e exilado de mim, está o outro
aquele qual imagem fere
onde ainda posso rendar as flores
jeronimo
os pássaros e os pincéis?
para onde vão as letras,
dos manuscritos e bacharéis?
para quando - tão distante,
partiu-se o som, à risca por fiéis dos cordéis?
e exilado de mim, está o outro
aquele qual imagem fere
onde ainda posso rendar as flores
os galhos da noite e os amores
jeronimo
👁️ 203
da pele
a pele é o jardim das vaidades
de uma alma que seca
do corpo, arranham
espinhos e já não posso tocar a chuva
as horas fadigam o tempo
corroem a memória
mas quero cobrir-me da casca
e contar sobre a melancolia das folhas
e quando deitar na terra úmida,
me dissolver nas sombras
que dos meus restos
alimentem a terra, mas não por algum pesar
porque a pele é jardim das vaidades
jeronimo
de uma alma que seca
do corpo, arranham
espinhos e já não posso tocar a chuva
as horas fadigam o tempo
corroem a memória
mas quero cobrir-me da casca
e contar sobre a melancolia das folhas
e quando deitar na terra úmida,
me dissolver nas sombras
que dos meus restos
alimentem a terra, mas não por algum pesar
porque a pele é jardim das vaidades
de uma alma que seca
jeronimo
👁️ 217
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