Biografia
Potiguar amante de poesia, curioso por explorar mais a poesia norte-riograndense, apaixonado pelo romantismo e pelo simbolismo. Posto poemas regularmente no instagram e twitter, como @spleenataca
Lista de Poemas
Total de poemas: 5
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Solilóquio
Camarada que respira,
(Caso algum aqui ainda exista)
Eu não espero que resista.
Eu também não o resisti.
Joguei-me àquela pira,
Larguei a vida que vivi.
Me vi preso, sufocado
Numa carcaça de aço,
Inconfundível mormaço
Que suportei até o fim.
Magro, de peito calado,
Vi um anjo serafim.
Implorei-lhe um caminho,
Uma saída sem dor,
O que pudesse dispor
Para acabar meu sofrer.
Duma garrafa de vinho,
Vi eu então escorrer
O escuro manjar ébrio,
Sumo do puro torpor.
Dar-me-ia alguma cor,
Uma sonhada alegria,
Aliviar este opróbrio,
Estancar essa sangria.
Ó mas quão néscio fui eu!
No vicejar do Arrebol,
No cantar de um Rouxinol
E nos mais doces licores,
Até nos cantos de Orfeu
Orvalham aos montes dores!
E atrás do falso conforto,
Reinou o tédio massacrante
A guiar-me qual Caronte
Pelo Estige até os mortos.
Para cada caminho torto,
Mais mil caminhos tortos!
E venceu-me todo dia,
Sorvido na imensidão
Vil, de Cerúlea abjeção.
Fez-me louco e langoroso,
Em infinda romaria
Neste rincão horroroso.
Até que o ferro estalou.
De meus grilhões fiz eu a pira,
De meu choro, fiz minha ira.
Para cada crepitar,
Um dia que o tédio calou
E um dia que não vai calar.
Foi no crestar desse corpo
Que vi-me anistiado,
De alma livre, enlevado,
Ao nada, em trilho eterno
Queimando, subindo ao topo,
O topo altivo do inferno.
(Caso algum aqui ainda exista)
Eu não espero que resista.
Eu também não o resisti.
Joguei-me àquela pira,
Larguei a vida que vivi.
Me vi preso, sufocado
Numa carcaça de aço,
Inconfundível mormaço
Que suportei até o fim.
Magro, de peito calado,
Vi um anjo serafim.
Implorei-lhe um caminho,
Uma saída sem dor,
O que pudesse dispor
Para acabar meu sofrer.
Duma garrafa de vinho,
Vi eu então escorrer
O escuro manjar ébrio,
Sumo do puro torpor.
Dar-me-ia alguma cor,
Uma sonhada alegria,
Aliviar este opróbrio,
Estancar essa sangria.
Ó mas quão néscio fui eu!
No vicejar do Arrebol,
No cantar de um Rouxinol
E nos mais doces licores,
Até nos cantos de Orfeu
Orvalham aos montes dores!
E atrás do falso conforto,
Reinou o tédio massacrante
A guiar-me qual Caronte
Pelo Estige até os mortos.
Para cada caminho torto,
Mais mil caminhos tortos!
E venceu-me todo dia,
Sorvido na imensidão
Vil, de Cerúlea abjeção.
Fez-me louco e langoroso,
Em infinda romaria
Neste rincão horroroso.
Até que o ferro estalou.
De meus grilhões fiz eu a pira,
De meu choro, fiz minha ira.
Para cada crepitar,
Um dia que o tédio calou
E um dia que não vai calar.
Foi no crestar desse corpo
Que vi-me anistiado,
De alma livre, enlevado,
Ao nada, em trilho eterno
Queimando, subindo ao topo,
O topo altivo do inferno.
👁️ 121
Magnólia
Deitado no chão frio
Num gélido abraço melancólico.
Um letárgico abraço pesado.
Abraço que chora o amor que carrego,
O amor que pesa o peito e me mantém inclinados ao lado,
Amor que se acumula e não posso te dar.
Amor esse tão jovem,
Mas que a mim já parece antigo.
Tão antigo quanto o desabrochar das primeiras magnólias.
Num gélido abraço melancólico.
Um letárgico abraço pesado.
Abraço que chora o amor que carrego,
O amor que pesa o peito e me mantém inclinados ao lado,
Amor que se acumula e não posso te dar.
Amor esse tão jovem,
Mas que a mim já parece antigo.
Tão antigo quanto o desabrochar das primeiras magnólias.
👁️ 116
Soneto à terra natal
Quando o peito aperta forte
Vivo e conto com a sorte.
Eu também venho do norte,
Mas eu não sou faroleiro.
Sei que carrego sangue
Das dunas e do mangue,
Mas mesmo que me zangue,
Sou toco oco por inteiro
Onde teria raiz do passado,
Não tivesse vivido vendado
Desde jovem verdolengo.
Eis aqui o corolário,
Meu pobre vocabulário,
Meu papel de mamulengo.
Vivo e conto com a sorte.
Eu também venho do norte,
Mas eu não sou faroleiro.
Sei que carrego sangue
Das dunas e do mangue,
Mas mesmo que me zangue,
Sou toco oco por inteiro
Onde teria raiz do passado,
Não tivesse vivido vendado
Desde jovem verdolengo.
Eis aqui o corolário,
Meu pobre vocabulário,
Meu papel de mamulengo.
👁️ 126
O poeta
I
Um poeta é como uma gramínea acuada
Que sob o concreto das ruas germina,
É maldição que cai sobre a mãe sagrada
Que em teu ventre carrega triste sina.
Constrição cruel! Mar de fel em terra esta.
A cada passada dada sobre o chão,
Uma semente morre na noite funesta
E às que não morrem não há perdão.
No alongar dos dias, comprimir da terra,
A dor aumenta e a gramínea berra.
Gramínea pobre de voz seleta.
Se o berro ecoa como canto doce
Como se a dor agora afago fosse,
Não é mais gramínea, é poeta.
II
Do concreto então de súbito irrompe
Poeta que canta, poeta que abraça.
Que com canto penetra e corrompe,
É o poeta da dor, o poeta da praça.
O corifeu da cidade, um nobre senhor,
Aproximou-se e disse com voz florida
“Ó, Poeta! Que lindo teu verso libertador,
Mas quão grotescas são tuas feridas!”
Segue, que num ato orquestral,
Abriram o chão e enterraram o tal
Poeta do solo, que chora amor.
Mas cantam o seu canto bonito,
Seu canto do sofrer infinito,
Sofrer que te fez poeta-cantor.
👁️ 117
Náusea
Ó náusea tenaz que me contorce o ser,
Que me esfola a carne e me joga ao sal,
Para que me expões a sofrimento tal,
Com distante final que não posso ver?
Me acabe logo e encerre o clamor
E a tremedeira que toma minhas mãos.
Leve junto com meus pensamentos sãos
Os resquícios de fome, os resquícios de dor.
Que o sabor do veneno amargo seja,
Tanto que limpe minh’alma suja
E a estenda onde ninguém veja,
Para que livre e entorpecido eu fuja.
Que me esfola a carne e me joga ao sal,
Para que me expões a sofrimento tal,
Com distante final que não posso ver?
Me acabe logo e encerre o clamor
E a tremedeira que toma minhas mãos.
Leve junto com meus pensamentos sãos
Os resquícios de fome, os resquícios de dor.
Que o sabor do veneno amargo seja,
Tanto que limpe minh’alma suja
E a estenda onde ninguém veja,
Para que livre e entorpecido eu fuja.
👁️ 112
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