O poeta
Felipe Medeiros Colares
I
Um poeta é como uma gramínea acuada
Que sob o concreto das ruas germina,
É maldição que cai sobre a mãe sagrada
Que em teu ventre carrega triste sina.
Constrição cruel! Mar de fel em terra esta.
A cada passada dada sobre o chão,
Uma semente morre na noite funesta
E às que não morrem não há perdão.
No alongar dos dias, comprimir da terra,
A dor aumenta e a gramínea berra.
Gramínea pobre de voz seleta.
Se o berro ecoa como canto doce
Como se a dor agora afago fosse,
Não é mais gramínea, é poeta.
II
Do concreto então de súbito irrompe
Poeta que canta, poeta que abraça.
Que com canto penetra e corrompe,
É o poeta da dor, o poeta da praça.
O corifeu da cidade, um nobre senhor,
Aproximou-se e disse com voz florida
“Ó, Poeta! Que lindo teu verso libertador,
Mas quão grotescas são tuas feridas!”
Segue, que num ato orquestral,
Abriram o chão e enterraram o tal
Poeta do solo, que chora amor.
Mas cantam o seu canto bonito,
Seu canto do sofrer infinito,
Sofrer que te fez poeta-cantor.
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