Lista de Poemas
Homem..!
Psique Divã das Dores
Quatro Estações
Asas de Cera
Psique Divã das Dores
Namoro no Sofá
Lascivo Libido dos Prazeres
A Gente Se Acostuma...
"Amoldar-se ao mundo e as suas regras não quer dizer que as aceitamos e nem que fazemos parte delas..."

A gente se acostuma... a ser isso que somos, a ser o que dia a dia nos torna...A brigar por vagas nos estacionamentos, a brigar por vagas nos empregos, a brigar por vagas no coração de alguém...
A gente se acostuma... a ser promovido sentido-se rebaixado, a ser escolhido sentindo-se relegado, a ser abençoado sentido-se maldito.
A gente se acostuma... a colegas que nos tiram da solidão sem nos proporcionar companhia, a beijar sapos que não viram príncipes, a frequentar lugares que odiamos e a conviver com pessoas que para nós nada acrescentam, nada significam...
A gente se acostuma... a ser gerido pela incompetência, a ser torturado por ela sem clemência, tornando-se mero joguete em mãos inescrupulosas que violam nossa inteligência...
A gente se acostuma... A encarar a vida como um mero exercício de aceitação... A deitar no "Leito de Procusto" das regras sociais... Amputando assim nossas aspirações, nossos anseios, nossas esperanças...
A gente se acostuma... que é dando que se recebe, que é fechando os olhos que se perdoa, que é apanhando que se cria escudos...
A gente se acostuma... à gravata apertada das instituições, à saia justa das negociações e a usar a túnica hedionda da cumplicidade...
A gente se acostuma... a corrupção dos elogios fraudulentos, a adulação hipócrita de nossos subordinados e a torpe indulgência de nossos superiores...
A gente se acostuma... a ser parte de uma acéfala estatística, estatística essa que não gera nada...não cria nada...não prova nada...que nos transforma em nada...
A gente se acostuma... a ganhar batalhas, perdendo-as, a triunfar sentindo a inutilidade da conquista e o amargo sabor da vitória pírrica.
A gente se acostuma... a enterrar nossos sonhos, nossos ideais, a ocultar nossos mais puros sentimentos, a engolir a seco toda mediocridade do mundo, a aplaudir de pé o exibicionismo infame dos hipócritas...
A gente se acostuma... a ser fera para não ser devorado por ela, a participar desse jogo sem questionar suas regras, a aceitar a trapaça no blefe dos farsantes...
A gente se acostuma... a não olhar para frente com medo do tempo que se esgota e que nos esgota...
A gente se acostuma... ao medo do que virá, do que será, do que farei..?
A gente se acostuma... a fazer várias coisas ao mesmo tempo sem se concentrar em uma, a ver a nossa vida rapidamente esvaindo-se na volúpia das horas sem se dar conta disso...
A gente se acostuma... a ver nossos filhos crescerem na mesma proporção de nossos medos, a ver a cada dia nossa imagem no espelho refletida sem nos enxergarmos, a envelhecer sufocando a criança que brincava em nosso peito...
A gente se acostuma... a se despedir chegando, a chegar partindo... a não olhar para trás com medo de ver que nos deixamos no caminho, que alguma parte de nós ficou na estrada, talvez a nossa melhor parte...
A gente se acostuma... a ver entes queridos partindo, nossos amigos sumindo... as mesas ficando vazias...a gente se acostuma a ficar cada vez mais sós...
Sim...! A gente se acostuma... mas não devia...*
Eu me recordo...
De Hyppólito
Poema Gótico
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu vísceras vermelhas pelo chão...
E amou, com um berro bárbaro de gozo,
O monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhidão!
Augusto dos Anjos
Que faço eu, altas horas..., neste cemitério?
O que vim buscar aqui... Deitando-me sobre as tumbas?
É meia-noite... Começam as danças sepulcrais,
Onde corpos combalidos, freneticamente vão dançando
A última valsa dos mortais...
Que busco ver, neste funéreo baile?
Será o prazer de contemplar a humana decomposição...?
Será o enlevo dos abutres vorazes
A se esbaldarem neste tétrico jardim...?
Ou será o repulsivo júbilo dos vermes
A se banquetearem neste fúnebre festim...?
As horas passam... A necrópole horrenda, desperta...
E num lúgubre cortejo de vísceras expostas,
Vão cantando nênias de maldição,
Violando o silêncio das catacumbas,
Num festival de membros em dissolução...
A madrugada avança...ouço gargalhadas...
É a multidão dos corpos dissipados,
Rindo da torpe veracidade dos diagnósticos,
Da fria onisciência dos médicos,
Da tosca inutilidade das orações.
Rindo, talvez... Da parda esterilidade dos remédios...
Da híbrida onipotência dos cirurgiões.
Angustiniano Nefasto dos Anjos
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