Escritas

Biografia

Daniel Smuler foi/é um poeta de Porto Alegre, Brasil, onde sempre morou. É autor de dois livros ("Asilo e Anonimato", de 2020, e "De agora em diante musgo", 2025), ambos editados de forma independente. Também é autor de outro livro, ainda não concluído; e até é possível, por que não?, que se torne autor de outros mais.

Lista de Poemas

Total de poemas: 6 Página 1 de 1

Os mortos comem demais


Não há comida suficiente
porque os mortos comem demais.

Não há manhã suficiente 
porque os pássaros acordam demais.

Não há luz bastante, nem água
nem horizonte bastantes,
porque as crianças sangram demais.

E nós que queríamos as plantas de cal,
a encruzilhada dos ventos,
a romaria do impossível!
Sim, nós que queríamos...

Mas não há vida suficiente
porque os mortos vivem demais. 
 

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Roubos

Quando somos crianças

os adultos nos roubam o nariz.


Quando somos adultos

as crianças nos roubam os ouvidos.

 

Quando somos muito velhos,

uns e outros nos roubam a boca.

 

E quando enfim somos mortos,

todos eles nos roubam o corpo todo.

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Poema 166 – Asilo e Anonimato

O que se aprende com os defuntos
não é estar mudo nem imóvel –
é estar íntegro, acabado, dócil
mas de uma doçura de rocha.

O que se aprende com os defuntos
é estar presente, corpo inteiro,
isolado e ineficazmente colossal,
submerso em um frio tectônico.

Não, o que se aprende com eles
não é a arte da inércia, o nada –
é outro grito do ser, a fissura
que se abre em cada talvez.

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A eles, os animais (poema 661 de Asilo e Anonimato)

É um cachalote dormindo
verticalmente. É um ínfimo besouro
carregando as fezes que o alimentam.
É um fantasmal cardume de peixes
fazendo seu gesto hipnótico.
É um urso gigantesco
que se roça na árvore centenária
como se dançasse no infinito.
É o cachorro que pergunta,
é a formiga que trabalha,
é a lesma que, embora não pareça,
vive tão veloz. É o uivo
do lobo ecoando no ermo.
É o ronco do búfalo na confusão
da savana. É o vagaroso esgar
da preguiça entre a beleza do verde.
É a família de elefantes
destruindo e criando. É o sangue
na bocarra da leoa. É o coito
barulhento dos gatos.
É um pinguim que caminha
como que bêbado. Ou uma morsa
que acorda com mais bondades
que qualquer religião.
Ou a dor de dente do gorila,
ou o parto da canguru,
ou a girafa bebendo água
na sua arte ininteligível.
É a ópera dos mosquitos,
é a sábia cegueira das toupeiras,
é o instante preciso em que a onça
se decide a atacar. É a presa
morrendo: suas tripas dançando no chão.
É o pássaro, talvez um sabiá,
cantando sem medo na cidade.
É a águia altaneira, implacável,
caçando seu alimento ambulante.
É um cachalote de trinta
ou quarenta toneladas
dormindo verticalmente,
no oceano absurdo,
como se o Universo não existisse.

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sem título

Era como se me cagassem em cima.
Era como se um tubarão agonizasse
por cima de mim e eu,
por correspondência solidária,
agonizasse sob seu volume oceânico.
Era como se me retirassem o chão,
como se me roubassem o próprio
pisar o solo, a inteira gravidade.

Era como se um deus me cagasse em cima,
ou como se me cagassem em cima um deus.

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Maciço facial ósseo

Alucino. Me transito.

Me transmigro, impossível:

às cegas sorrateiro,

sombriamente ao sol,

tangendo o violão do inútil.

 

O crânio assomando e sumindo,

e de novo assomando (lúdico?)

nas janelas da razão, 

sem qualquer serventia nem dó. 

Alucino, sim. Me transmito

a intratáveis jogos e mitos.

Tosco e perdido, eu grito –

e sou faísca e goma e pó. 

 

Assim só, de litro em litro,

com um pé na masmorra

e o outro no delito. 

Me transfiguro, improvável:

ao céu sem deus,

relampejante sob tetos,

caçando o coelho da contradição.

 

Alucino. Me desfaço 

em hino, em faca,

quietude barata ou estrondo. 

Traço o quadrado redondo. 

O crânio, ainda, piscando

no breu mais longo,

e eu andando e andando.

 

Acordo. Me transmito,

a mim mesmo ou a outro bicho,

não sei, mas impossível: 

batendo nas teclas dum piano invisível.

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