Escritas

A eles, os animais (poema 661 de Asilo e Anonimato)

Daniel Smuler

É um cachalote dormindo
verticalmente. É um ínfimo besouro
carregando as fezes que o alimentam.
É um fantasmal cardume de peixes
fazendo seu gesto hipnótico.
É um urso gigantesco
que se roça na árvore centenária
como se dançasse no infinito.
É o cachorro que pergunta,
é a formiga que trabalha,
é a lesma que, embora não pareça,
vive tão veloz. É o uivo
do lobo ecoando no ermo.
É o ronco do búfalo na confusão
da savana. É o vagaroso esgar
da preguiça entre a beleza do verde.
É a família de elefantes
destruindo e criando. É o sangue
na bocarra da leoa. É o coito
barulhento dos gatos.
É um pinguim que caminha
como que bêbado. Ou uma morsa
que acorda com mais bondades
que qualquer religião.
Ou a dor de dente do gorila,
ou o parto da canguru,
ou a girafa bebendo água
na sua arte ininteligível.
É a ópera dos mosquitos,
é a sábia cegueira das toupeiras,
é o instante preciso em que a onça
se decide a atacar. É a presa
morrendo: suas tripas dançando no chão.
É o pássaro, talvez um sabiá,
cantando sem medo na cidade.
É a águia altaneira, implacável,
caçando seu alimento ambulante.
É um cachalote de trinta
ou quarenta toneladas
dormindo verticalmente,
no oceano absurdo,
como se o Universo não existisse.