Lista de Poemas
FUMAÇA
arrasto comigo uma sede
de cenas que não vivi
de barcos que já partiram
de peles que não senti
arrasto uma linha pendendo
pras bandas do fim do mundo
que escorre a cada segundo
nas brechas por onde adentro
e levo dois milhões de olhares
mil bocas que não beijei
imagens que guardo lá dentro
e um rastro que não deixei
(Celso Mendes)
Entropia
e dialoga com estrelas
meu dizer não é meu, é do universo
pois não sou de mim ou de ninguém
fui gerado para romper fronteiras
e só agora me descobri
busco a magia escondida em cumes
e a essência do átomo
semeio e me desfaço lentamente
o risco na pele é um sinal
eu sinto
mudo a cada segundo
(Celso Mendes)
Incompletudes
o rangido franco,
frio
e solitário
das horas
indivisíveis.
não mais
me demoro os dedos
sobre o fio da faca
na tangência
de um tempo
que não tenho,
pois que me adormece a luz
nas mãos espalmadas,
privadas de palavras
em um silêncio imortal
que se imprime absoluto.
abasteço,
recorrentemente,
a incompletude desta loucura
com teus olhos fugidios,
insistentemente sádicos
: olhos de amassar maçãs
e envenenar riachos lacrimosos.
e é quando as auroras
se transfiguram
em dias cinzentos
que me doo à chuva.
neste então me voltas,
sob a rama deste ipê,
tal um espectro
entre pétalas violáceas
a me contar
que inda existo.
(Celso Mendes)
Poema Abissal
este grito
aprisionado
lançado
entre o azul-perdido
que persigo
e o negro-nada
que me cala
enquanto a palavra
imersa
fria
aguarda o voo
mas se faz mergulho
(Celso Mendes)
Acalanto para abstinências e vazios
é a falta e a lacuna quem cria
(Paul Valéry)
é para agasalhar ausências que teço este poema
fantasmas não dormem
anseios me esperam
o que urge além do lábio e da palavra
é o mesmo que me trinca o esmalte dos dentes
vindo da lacuna que ocorre no rastro do voo
de cada pássaro que ousei ser
neste não sentir talhado nos ossos
feito rios secos a riscar-me a pele
álveos calcinados
onde escorrem congelados
a doçura e a tortura
de vozes e olhares idos ou perseguidos
dentro de um pretérito que me bate à cara
ou em um porvir que se me escancara
é para agasalhar ausências que teço este poema
de vazios e de abstinências
e me permito à lagrima
tanto quanto ao riso
(Celso Mendes)
Comentários (0)
NoComments
Português
English
Español