Escritas

Acalanto para abstinências e vazios

Celso Mendes

é a falta e a lacuna quem cria

                                              (Paul Valéry)


é para agasalhar ausências que teço este poema

fantasmas não dormem

anseios me esperam


o que urge além do lábio e da palavra

é o mesmo que me trinca o esmalte dos dentes

vindo da lacuna que ocorre no rastro do voo

de cada pássaro que ousei ser

neste não sentir talhado nos ossos

feito rios secos a riscar-me a pele

álveos calcinados 

onde escorrem congelados

a doçura e a tortura

de vozes e olhares idos ou perseguidos

dentro de um pretérito que me bate à cara

ou em um porvir que se me escancara


é para agasalhar ausências que teço este poema

de vazios e de abstinências

e me permito à lagrima

tanto quanto ao riso


(Celso Mendes)