Sinal
Caminho sem rumo
Arrastando os meus pés,
Tropeçando na calçada
As lágrimas turvam-me a visão
Falta-me o ar
Grito o teu nome
Mas não o ouço,
Não me ouves
De joelhos olho para o céu
Iluminado pelas estrelas
E ao perguntar-me onde estarás
Confronto a minha solidão,
O meu desespero
Ao levantar-me
Sinto o sangue escorrer pelas minhas pernas
E ao secar as lágrimas
Sinto o teu toque.
Ouviste-me.
Marido
Sou mulher para lavar
Lavar A tua roupa
Lavar o teu corpo
Mas não sou mulher para falar
Sou mulher para consolar
Consolar-te na tristeza
Consolar-te no desespero
Mas não sou mulher para ajudares
Sou mulher para amar
Amar as tuas virtudes
Amar os teus defeitos
Mas não sou mulher para acarinhares
Sou mulher para acompanhar Acompanhar-te na velhice
Acompanhar-te na doença
Mas não sou mulher para agradeceres
Sou mulher para educar
Educar os nossos filhos Educar os nossos netos
Mas não sou mulher para votar
Diz-me, marido,
Porque casaste comigo
Já que eu não sou mulher,
Sou escrava do teu violento coração.
Depois de ti
Já viste como é triste?
Um mundo sem ti,
No silêncio da noite
No frio da madrugada
Faltas tu
Já viste como é triste
Um mundo sem ti,
Estou tão perdida
Podia gritar
Faltas tu
Já viste como é triste?
Um mundo sem ti,
O Sol foi para trás das nuvens
Para esconder a cara e chorar,
Faltas tu.
Palavras
De lágrimas nos olhos
Escrevo estas palavras,
Estúpidas palavras
Cuspidas para este papel molhado
Eras muito mais do que palavras
E por isso pergunto-me porque as escrevo
Mas não sei que faça mais
Oh, meu amor
Meu bem
Como vivo eu sem ti?
És tu?
És tu, meu amor,
A minha razão de viver
Ou a que me faz querer morrer?
És tu, meu amor,
A origem da minha felicidade
Ou a causa da minha insanidade?
És tu, meu amor,
A força que me faz respirar
Ou a que me mata ao sufocar?
És tu, meu amor,
Quem move esta caneta
Ou quem me a tira das mãos?
Saudade
Como sinto falta da tua cabeça
Cheia de sonhos, deitada no meu colo
Mas que foi perdendo a lucidez
E se partiu com a queda
Como sinto falta dos teus cabelos
De neles passar a minha mão
Mas que foram perdendo a cor
E se despentearam com a queda
Como sinto falta dos teus olhos
Brilhantes e redondos, como os meus
Mas que se foram enchendo de lágrimas,
Espelhando a tua alma triste
E se fecharam com a queda
Como sinto falta dos teus lábios
Que me beijavam a face
Mas que se tornaram secos
E se rasgaram com a queda
Como sinto falta do teu sorriso
Doce e contagiante
Mas que se tornou falso,
Um esconderijo para a tua tristeza
E se partiu com a queda
Como sinto falta dos teus braços
Que me acolhiam e sufocavam de amor
Dos teus abraços que me encurralavam
Mas que foram perdendo a força
E me soltaram com a queda
Como sinto falta da tua voz
Que gritava de amor
Mas que se tornou rouca
E se calou para sempre com a queda
Fantasma
Sozinha no meu quarto,
Na minha solidão
Aguardo a tua vinda
Vens de mansinho
Entras pela fechadura da porta
E a janela entreaberta
Estás aí?
Pergunto-me se és mesmo tu
Ou só mais um fruto da minha louca mente
Tomas o meu corpo,
Beijas as minhas lágrimas,
A tua mão entrelaça-se com a minha
Queria que o tempo parasse,
Mas partes subitamente
E eu volto à minha triste existência
Mors Liberatrix
Estou deitada,
Imóvel sobre a cama,
O meu corpo frágil
Pesa sobre o colchão,
Os lençóis velhos
Irritam a minha pele,
Sinto tudo à minha volta
O frio do inverno
Inunda o quarto,
Sinto-o a arrefecer-me os pés
A percorrer as minhas pernas
A arrepiar-me a espinha
Até chegar à minha cabeça,
Congelando os meus pensamentos
A luz amarela do candeeiro
Cega os meus olhos,
Sinto-os pesados
As minhas pálpebras fecham-se lentamente
Entrelaçando as minhas pestanas
Que trancam o meu olhar para sempre
O meu coração
Bate cada vez mais lento,
Sinto-o no meu peito
Como um sino de igreja
Que desvanece depois de doze badaladas,
Silenciando a noite
Estou presa,
Presa nesta cama
Presa pela velhice
Que me paralisa o corpo
Mas sinto-me livre
Sinto-me a levitar
Deixo para trás o meu corpo
A prisão do meu espírito
E encontro a paz
Desbloqueada pela morte
Com o meu último suspiro