Biografia
Lista de Poemas
Pedra filosofal
Permanecer estátua, ausente por fora.
O toque da eternidade sussurra
entre vales de contentamento.
Terra, lama, água, vida.
Sons de outrora acicatam os sentidos.
Olho em volta: nada.
Ausência incompleta – vazio e busca.
Ser marmóreo, coração de carne.
Tuas veias secaram há muito.
Teu querer pulsa.
A lava brota. A crosta revela
Um querer desmedido, inconsolável.
Horizontes que limitam.
Profundidades infinitas que ecoam, refletem.
Desperto: Pedra a filosofal.
Pérola
Cansaço este, que tolhe o meu pensamento —
outrora fonte, hoje solo gretado.
Que monotonia.
Que paleta de dois tons:
falta de contraste
que cega,
entorpece,
sufoca a consciência.
Pudera romper
as amarras titânicas que me comprimem
com o malho do Deus Trovão!
Pudera purgar
a negritude do meu ser
pelas narinas —
qual extrema-unção —,
embalsamado,
enfaixado,
mumificado.
Pudera raspar
a gordura imunda que me cobre
com mãos e unhas,
qual espátula!
Ungido e purificado,
reduzido
a cinza cálida,
então gritar ao Altíssimo!
Gritar
todos os ais do mundo!
Provocar
o ciclone dos Apocalipses,
a colisão de todas as galáxias,
a fusão
dos universos existentes
e vindouros!
Obter
uma única gota,
a única gota
caída desse alambique —
mecanismo panmorfista,
destilando o infinito,
destilando o eterno,
destilando o impossível.
Gota de mel
que se fossilizará
após a morte de tudo,
formando uma pérola —
uma pérola
que acrescentarei ao teu colar,
meu amor,
meu eterno amor.
Amor
Amor
rima com esplendor;
desaparece e reaparece,
traz dor.
Amor
rima com valor;
Não se compra, nem se paga;
vem como vaga,
cheia de fervor.
Amor
rima com flor;
Dá e reparte,
não se parte,
traz calor.
Nada
É noite,
para longe de mim
brisa e asas;
branco sagrado,
orvalho — fresco, transparente;
pluma e pérolas,
leve, solto, livre.
Viajo suspenso, inerte,
longe do nada.
Rumo ao fim
e, depois,
igual ao lugar de onde vim.
Já é madrugada.
Pequenino
chora, pequenino, chora…
brincas com pensamentos?
espreitas para lá
de onde o além mora,
chafurdas em lamentos?
pensas num mote,
um Buda com saber,
entrado no bote,
difíceis tempestades a vencer.
não… meu pequenote, Ulisses não és;
para Deus falta-te tudo:
a alegria, a quietude, uns pés,
sua estátua de veludo.
avisei-te, meu querido:
não queiras reinventar o amor,
já deves ter sabido
qual o teu valor.
para ti, o silêncio do nada,
sussurro das ondas,
luzes da alvorada,
carícias longas e profundas…
Além
Horizonte reto
linha Terra ondulante
plano, e teto
azul distante
Do chão, um pulsar
do quente, alastram mil dorsos
mil cascos a galopar, galopar...
A eles... a eles!
Venham crentes
Venham reles
Vencedores na Terra
Pobre Povo
Nação imóvel e mortal
No fim, silêncio vasto
e pasto.
Botim
Chuva, lama — botim lasso
lages, salpicos — o riacho.
Na outra margem, passo a passo
procuro um abraço.
Perdido, achado,
mordido, empurrado,
lambido, amado —
botim de cano apertado.
No riacho ficou...
Quem o abandonou?
O botim que sobrou,
até hoje chorou.
Português
English
Español