Lista de Poemas
INTENÇÃO
E se um dia,
um só dia,
parasse o rio que corre
pelas margens dos desejos
não declarados
e ficasse a encharcar
a raiva, o desespero,
o ódio e a inveja
e a traição e o medo,
fazendo-os inchar,
inchar, inchar,
inchar tanto
que rebentassem
em milhares de fanicos
e fossem levados
pelo vento da tarde
para jamais voltarem?
um só dia,
parasse o rio que corre
pelas margens dos desejos
não declarados
e ficasse a encharcar
a raiva, o desespero,
o ódio e a inveja
e a traição e o medo,
fazendo-os inchar,
inchar, inchar,
inchar tanto
que rebentassem
em milhares de fanicos
e fossem levados
pelo vento da tarde
para jamais voltarem?
👁️ 519
A MALA DE UMA MULHER
A mala de uma mulher
é um abismo sem fundo.
Tem lencinhos de papel,
pó de arroz, chaves, canetas,
porta-moedas, agenda
e talões de multibanco.
Tem amostras de perfumes,
livro de cheques e escova
para ajeitar o cabelo,
tem telemóvel que toca
e que nunca encontra a tempo.
Tem cartão do sindicato,
baton e a chave do carro
e o boletim de vacinas,
isqueiro, cigarros e tudo
com pacotinhos de açúcar,
fotografias dos filhos,
caixa dos óculos de sol,
talão da lavandaria.
E tem receitas de bolos
e a conta da mercearia.
A mala de uma mulher
é um abismo tremendo.
Contado, não se percebe.
Para acreditar, só vendo.
é um abismo sem fundo.
Tem lencinhos de papel,
pó de arroz, chaves, canetas,
porta-moedas, agenda
e talões de multibanco.
Tem amostras de perfumes,
livro de cheques e escova
para ajeitar o cabelo,
tem telemóvel que toca
e que nunca encontra a tempo.
Tem cartão do sindicato,
baton e a chave do carro
e o boletim de vacinas,
isqueiro, cigarros e tudo
com pacotinhos de açúcar,
fotografias dos filhos,
caixa dos óculos de sol,
talão da lavandaria.
E tem receitas de bolos
e a conta da mercearia.
A mala de uma mulher
é um abismo tremendo.
Contado, não se percebe.
Para acreditar, só vendo.
👁️ 540
NADA
Secou no solitário a flor,
sem água que lhe desse
vida.
Secou na escrivaninha a pena,
Sem nada que escrever,
Sozinha.
Secou na face, a meio da queda,
a lágrima que há pouco foi
sentida.
Secou o pensamento
entre a razão e a boca
muda.
Secou depressa a esperança
de voltar a trilhar a estrada
antiga.
Secou em pó de nada
disperso pela
ventania.
sem água que lhe desse
vida.
Secou na escrivaninha a pena,
Sem nada que escrever,
Sozinha.
Secou na face, a meio da queda,
a lágrima que há pouco foi
sentida.
Secou o pensamento
entre a razão e a boca
muda.
Secou depressa a esperança
de voltar a trilhar a estrada
antiga.
Secou em pó de nada
disperso pela
ventania.
👁️ 635
BE A BIRD
Be a bird
be a wave
be the wind over the field.
Be a flower in a hill
be the love
be a kiss
be the sun warming the world.
Be the cloud
be the shadow
be a letter to a friend.
Be a boat over the ocean
in a trip whitout an end.
Be the happy summertime
be a beach of golden sand.
Be the tide upping around
be the fish
be the life
be all what you love to be.
Be my friend and confident
be my lover for a moment
be the light bringing coulors
to the darkness of the souls.
Be yourself
be the others
be the cosmos in a second.
Be the question
be the answer.
Be a star glowing so far
that we can't measure the distance
we need to travel to.
Shine brighter than the sun
look around and understand
that you are the only one
because you are
just you.
be a wave
be the wind over the field.
Be a flower in a hill
be the love
be a kiss
be the sun warming the world.
Be the cloud
be the shadow
be a letter to a friend.
Be a boat over the ocean
in a trip whitout an end.
Be the happy summertime
be a beach of golden sand.
Be the tide upping around
be the fish
be the life
be all what you love to be.
Be my friend and confident
be my lover for a moment
be the light bringing coulors
to the darkness of the souls.
Be yourself
be the others
be the cosmos in a second.
Be the question
be the answer.
Be a star glowing so far
that we can't measure the distance
we need to travel to.
Shine brighter than the sun
look around and understand
that you are the only one
because you are
just you.
👁️ 575
I FEEL QUE ESTOY CONFUSO
Ora, ora, raisin d'or,
dèsire de vin caliente
Y lleno of emotions
that makes me feel no céu.
Dices que la nuit c'est belle,
mas não te lembras de me dar
un beso quando despierto
por la madrugada.
Do you know como me sinto
quand tu dors à mon coté
et je suspiro por mais um dia
at your side, un jour plus
que seja, ni uno más?
C'est la cause de cette
confusão em que me escrevo,
and I can't say why.
Quedate comigo un poco más,
et je te jure que mesmo que te vás
y jamás te vea en la life,
I love you, raisin, razão
do meu viver.
Look throught the window,
please, une fois plus:
Já está a amanhecer.
Goodbye, adiós.
Até mais ver.
dèsire de vin caliente
Y lleno of emotions
that makes me feel no céu.
Dices que la nuit c'est belle,
mas não te lembras de me dar
un beso quando despierto
por la madrugada.
Do you know como me sinto
quand tu dors à mon coté
et je suspiro por mais um dia
at your side, un jour plus
que seja, ni uno más?
C'est la cause de cette
confusão em que me escrevo,
and I can't say why.
Quedate comigo un poco más,
et je te jure que mesmo que te vás
y jamás te vea en la life,
I love you, raisin, razão
do meu viver.
Look throught the window,
please, une fois plus:
Já está a amanhecer.
Goodbye, adiós.
Até mais ver.
👁️ 619
REGRA SIMPLES
A regra é simples.
Composta ou descomposta.
Equação com uma
ou meia incógnita.
Nada mais certo
que um mais um ser três.
E a gravidade
que é força de expressão
daquilo que se diz?
E o electrão,
senhor do seu nariz,
que rapa pé a um protão
enquanto o neutrão
anda por aí, feliz?
Buracos negros,
matéria, antimatéria,
pedras de mó
a fazer farinha
com o tempo abstracção
que muda conforme se caminha?
E tranças loiras
e olhos violeta
e bocas de romã
e sei lá mais o quê
que oiço dizer
enquanto o universo
se expande e se contrai.
Vai ou não vai?
A regra é simples.
Pensar não custa nada
e pode ser que sirva
para a um quadrado
dar um formato
de certo modo
arredondado.
Composta ou descomposta.
Equação com uma
ou meia incógnita.
Nada mais certo
que um mais um ser três.
E a gravidade
que é força de expressão
daquilo que se diz?
E o electrão,
senhor do seu nariz,
que rapa pé a um protão
enquanto o neutrão
anda por aí, feliz?
Buracos negros,
matéria, antimatéria,
pedras de mó
a fazer farinha
com o tempo abstracção
que muda conforme se caminha?
E tranças loiras
e olhos violeta
e bocas de romã
e sei lá mais o quê
que oiço dizer
enquanto o universo
se expande e se contrai.
Vai ou não vai?
A regra é simples.
Pensar não custa nada
e pode ser que sirva
para a um quadrado
dar um formato
de certo modo
arredondado.
👁️ 623
COM A CORRENTE
Rio abaixo o céu e o sol
marés que o dia aquece
a cal e as pedras e a luz
que nos envolve muda
em tons de cinzento azul
na calma a cigarra garra
continuamente aguda
e a maré arrasta canas
ilhas que se movem Guadiana
entre esta margem
e a de Espanha.
Aqui ficamos a olhar esquecidos
nada nos assombra o cais
onde por vezes velas se acolhem
pausando a lenta vinda
que no mar começa
e acaba onde a maré se esbate
a norte de Alcoutim
e Mértola é o fim
que não vai vê-las.
Entre o céu e a água
espraiamos vistas
e deixamo-nos ir
com a corrente
depressa ou lentamente
nas margens de aloendros e
de canas.
Na paz do rio Guerreiros
nas ruas veias que andamos
circulação de gente sangue
entre a secura dos montes
e o frescor das águas
ficamos à espera
que o sol se ponha
e as sombras nos envolvam
em silhuetas mágicas.
marés que o dia aquece
a cal e as pedras e a luz
que nos envolve muda
em tons de cinzento azul
na calma a cigarra garra
continuamente aguda
e a maré arrasta canas
ilhas que se movem Guadiana
entre esta margem
e a de Espanha.
Aqui ficamos a olhar esquecidos
nada nos assombra o cais
onde por vezes velas se acolhem
pausando a lenta vinda
que no mar começa
e acaba onde a maré se esbate
a norte de Alcoutim
e Mértola é o fim
que não vai vê-las.
Entre o céu e a água
espraiamos vistas
e deixamo-nos ir
com a corrente
depressa ou lentamente
nas margens de aloendros e
de canas.
Na paz do rio Guerreiros
nas ruas veias que andamos
circulação de gente sangue
entre a secura dos montes
e o frescor das águas
ficamos à espera
que o sol se ponha
e as sombras nos envolvam
em silhuetas mágicas.
👁️ 628
IDADE
Havia pés de galinha
Naquelas faces estucadas
De cremes e pós de arroz
E de magenta coradas.
Permanentes semanais,
Meias de vidro com risca
Na costura em perna magra
Assente num salto alto
Que já cambava de gasto.
Casacos de peles vetustos,
Glórias de tempos passados
Que iam sendo preservados
Em bolas de naftalina.
Óculos finos graduados
Na carteira de outros tempos
Não ajudavam a ver
Os olhos cerrados, tensos,
Como a vislumbrar certezas
De fulgores de juventude
De que só restam memórias.
E vão-se contando histórias
De quando eram meninas
E iam para o jardim.
Pode ser triste de ver
Como a saudade é teimosa.
Mas chega a enternecer
Ver a força de querer,
Mesmo seca, a fenecer,
Ser uma rosa viçosa.
Naquelas faces estucadas
De cremes e pós de arroz
E de magenta coradas.
Permanentes semanais,
Meias de vidro com risca
Na costura em perna magra
Assente num salto alto
Que já cambava de gasto.
Casacos de peles vetustos,
Glórias de tempos passados
Que iam sendo preservados
Em bolas de naftalina.
Óculos finos graduados
Na carteira de outros tempos
Não ajudavam a ver
Os olhos cerrados, tensos,
Como a vislumbrar certezas
De fulgores de juventude
De que só restam memórias.
E vão-se contando histórias
De quando eram meninas
E iam para o jardim.
Pode ser triste de ver
Como a saudade é teimosa.
Mas chega a enternecer
Ver a força de querer,
Mesmo seca, a fenecer,
Ser uma rosa viçosa.
👁️ 593
O PATO
Mesmo à beira do charco
onde não estava
nenhum pato
estava um pato
e o pato era marreco
e grasnava coisas
que ninguém entendia.
Meteu uma pata na água
mas a pata não queria
e saltou da água
e assentou as duas patas
na pata esquerda
do pato marreco
que estava à beira
do charco.
O pato grasnou
e a pata, assustada,
levantou a pata
e o pato, dando um impulso
com as duas patas,
saltou e arrastou a pata
para a água
onde passaram a estar
quatro patas, um pato
e uma pata.
onde não estava
nenhum pato
estava um pato
e o pato era marreco
e grasnava coisas
que ninguém entendia.
Meteu uma pata na água
mas a pata não queria
e saltou da água
e assentou as duas patas
na pata esquerda
do pato marreco
que estava à beira
do charco.
O pato grasnou
e a pata, assustada,
levantou a pata
e o pato, dando um impulso
com as duas patas,
saltou e arrastou a pata
para a água
onde passaram a estar
quatro patas, um pato
e uma pata.
👁️ 625
NATAL
Está frio, aqui!
Olha a água que entra pela frincha do telhado...
Tira daí a cama, senão daqui a pouco
está tudo encharcado.
Está mesmo frio, aqui!
Dá cá o candeeiro e baixa-lhe a torcida
para poupar petróleo.
Põe-o para cá, juntinho a nós.
Não, rapaz, não comes mais filhós;
os teus irmãos só comeram uma
e sobram estas duas párós avós.
Gostaste do brinquedo, António?
Estava ali na rua, junto ao contentor.
Acho que quem lá o pôs foi um senhor
de sobretudo e luvas de pelica
que mora naquela casa grande e rica
ao pé da fonte velha.
Essa camisola serve bem...
Parece que foi feita por medida.
É muito bondosa a tal senhora
que às vezes nos dá alguma coisa
quando percebe que estou mais aflita.
Não, já não há mais sopa.
Cheguem-se mais p'ró pé do candeeiro.
Se Deus quiser, no próximo Natal
talvez haja bolo-rei.
Olha a água que entra pela frincha do telhado...
Tira daí a cama, senão daqui a pouco
está tudo encharcado.
Está mesmo frio, aqui!
Dá cá o candeeiro e baixa-lhe a torcida
para poupar petróleo.
Põe-o para cá, juntinho a nós.
Não, rapaz, não comes mais filhós;
os teus irmãos só comeram uma
e sobram estas duas párós avós.
Gostaste do brinquedo, António?
Estava ali na rua, junto ao contentor.
Acho que quem lá o pôs foi um senhor
de sobretudo e luvas de pelica
que mora naquela casa grande e rica
ao pé da fonte velha.
Essa camisola serve bem...
Parece que foi feita por medida.
É muito bondosa a tal senhora
que às vezes nos dá alguma coisa
quando percebe que estou mais aflita.
Não, já não há mais sopa.
Cheguem-se mais p'ró pé do candeeiro.
Se Deus quiser, no próximo Natal
talvez haja bolo-rei.
👁️ 587
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Nasceu em Lisboa, onde viveu a maior parte da sua vida. Estudou em liceus e no Colégio Militar. Desde cedo que se interessou pela poesia, tendo feito as primeiras rimas com cerca de doze anos. Ao longo do tempo tem cultivado os seus conhecimentos em vária áreas relacionadas com artes. É arquitecto e presentemente insere-se num Grupo de Teatro Experimental a funcionar em Alcoutim. É casado há quase quarenta anos, tem dois filhos e três netos, brevemente quatro. É feliz e espera fazer ainda mais coisas. Gosta de História, utilizando-a para tentar compreender as pessoas e o mundo. É monárquico. Gosta de uma boa polémica e de discussões inteligentes. Gosta de criticar e de ser criticado por quem sabe mais do que ele, pois entende que isso faz crescer, partir a redoma em que, por vezes, se tende a ficar encerrado.