Lista de Poemas

Como se o coração tivesse azia

Meu sentimento vem me ardendo no peito
como se meu coração tivesse azia.
Mas eu até gosto da sensação
Gosto porque veio de onde veio

Gosto de carregar essa criaturinha no meu nome,
e inventar elos ancestrais infinitos entre nós.
De te aproveitar nas pequenezas, nas incertezas
vacilantes

Gosto como tu me vê daí como eu te veria com seus olhos, mole de admiração
Admiração tamanha que se ajunta com o passar dos sóis e verões.

Ela tem desse negócio extraordinário de girar o pensamento
em lugares muitos e nunca pegar atalhos dentro das ideias.
Ela tem dessas de prolongar despedidas
De não deixar se apanhar pelo vício
De deixar o peso da terra leve
Ela tem coragem do amor, coragem da vida
De cair em si e não levantar, dentre outras

Nessa quimera concluo
assim então
Duas coisas: a primeira que tenho certeza é que esses pensamentos sobre ela
chegam de um súbito em ocasiões impróprias

A segunda é que a primeira é verdadeira
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Enquanto não te perco

Da totalidade dos versos que moram em mim, o que você vê são apenas abreviaturas. Como quem abrevia nome grande e difícil e encurta apertadamente em poucas letrinhas. Habite no verso, dance nas incertezas incoerentes. Mergulhe na correnteza. Se observe, pois daqui te observo. Te elevo. Te acho dispersa e divago. E perdi o verso.
Te observava quando perdi o verso. Capturei o teu estado de graça marginal.
Etéreo e urgente. Uma parte de mim pesa pondera, outra parte delira. Um milhão de Eus colapsando suas divergências na tentativa de dar um jeito nesse desassosego. Não te peço perdão por sutilmente ter cativado as horas que passei à sombra dos teus gestos
bebendo em tua boca o perfume dos risos. Me acho ao rir teu riso. Não te estimo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
estimo-te como certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma. Em um outros carnavais, estaria a vida estourando em todos os salões. Dizem
Já eu, te escrevo a dormir
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A mulher invisível

Aquela que não tem voz
Aquela que não tem vez
Aquela que não pode opinar
que não pode se expressar, se mostrar,
Aquela que não dão valor
que julgam ser atentado ao pudor
a marginalizada
não alfabetizada
mal falada
institucionalizada
sem lar, sem diploma
sem nada
nadinha mesmo
aquela preta pobre da favela
a que não é atriz de novela, ninguém vê ela
escória da sociedade
se apoia nas cotas, bolsa família, no que der pra ter
É aquela lá que o governo não escuta, não liga e não vê
O nosso feminismo tem que levar visibilidade pra mulher invisível
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A minha vontade é de sair gritando.

A minha vontade é sair gritando
Muito prazer, eu tô aqui. Aqui em baixo. Aqui, aqui em baixo na sua sola.
Eu sou a pedra no seu sapato. Eu sou a ferida em si mesmo que você se recusa
a ver. Eu tô aqui. Não consegue ver? Não quer? Sua lei me tornou ilegal. Suja.
Louca. Sem moral!
Preta suja! Preto sujo! Não te quero dentro da minha família não, não quero, não.
Claro que respeito, não tenho preconceito coisa nenhuma. Tenho até amigos que são.
Só não tem nenhum vivo mais. Claro que não sou homofóbico. A criatura gay é uma das
criaturas mais fascinantes. É só a minha opinião, porra.
Não tem paz, tem não. A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? A paz é uma senhora que nunca olhou na minha cara. A paz é seleta. Tem nome, cor, orientação sexual normativa e endereço. Não visita qualquer um não. Nada. Não sou da paz, não sou boba. Não vou ficar quieta, não vou calar a boca. Não sou louca, maluca, surtada. Não vou perdoar! Não quero! Não vou desfazer minha cara de cu 
não vou mesmo. Não vou rezar. Reza você aí na sua casa. Bate na porta, pede licença, entra e senta no sofá aquela senhora. Conversa, conversa e conversa. Respeito, mas não concordo. Não fala assim comigo, respeita os mais velhos. Sua mãe não te deu educação, sua sapatão macumbeira do caralho? Foda-se sua crença, foda-se sua crença. O senhor é meu pastor e nada me faltará. Amai-vos uns aos outros. Menos os pretos. O senhor é meu pastor e nada me faltará. Amai-vos uns aos outros. Menos os viados. O senhor é meu pastor e nada me faltará. Amai-vos uns aos outros. Menos sapatão. O senhor é meu pastor e nada me faltará. Amai-vos uns aos outros. Vem que ele te salva. Ah, não quer? Então vai queimar no fogo e enxofre no nono círculo do inferno.
Morreu mais um traveco ali ó. Nem foi tão grave, não teve arma, só usaram as mãos. Uau. Pra que serve essa mão tão grande? Pra dar soco na costela de viado. E as duas duas tiram esganam, tiram o fôlego, tiram o ar dos pulmões e inflam o ego. As mãos, os braços, as pernas circundando o corpo como urubus em cima da carniça. E aí num sopro a vida se foi. Que pena! Não vai nem sair no jornal, ninguém liga. Tanta coisa pior pra sair na capa. Hannah arendt já foi clara que notícia ruim vende porque o bem ainda é coisa rara. Ninguém tá nem aí pro dia internacional contra a homofobia. Tenho tanta coisa pra fazer. Arroz e feijão. Arroz e feijão.
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Se tem texto, tem história

Há tempos que não me calo por qualquer coisa
Que me atrevo a ser intrépida e intrometida
Que me meto onde não sou chamada
Que saio da cozinha e vou direto ao campo de uma batalha sangrenta
Há tempos que não me entrego sem questionar todas as pontas soltas
Pontas que outrora me feriam a pele e me infectavam, me deixavam doente
cega
desprezível, descartável
sem identidade.
Há tempos que não abaixo mais a cabeça
Que não passo mais pano pra truculências masculinas
Que não rio, constrangida, de uma piada bem vestida de assédio
De tempos em tempos eu me multiplico,
eu aqueço minhas cordas vocais pra gritar, até quase perder o ar, que machismo não tem vez
nem que entre na fila várias vezes
Multiplicando-me, viro dezenas, centenas
milhares e milhares de legitimadas senhoras,
damas
meninas
esposas
vagabundas
putas
fêmeas

Mulheres
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Sou muitas

Uma parte de mim
é de tudo um pouco
é de todo canto
é olho no olho
é olhar de canto
é o canto com voz grave
com voz fina,
com voz rouca e às vezes sem

Outra parte de mim tudo sabe
em tudo entra
e em tudo cabe
cai pela borda
Transborda
é fria, gelada, quente
depois morna

Uma parte de mim acredita em nada
duvida de gente, mas também mente
mente pra ateu, mente pra crente
mente pra si
aí nem sente

Outra parte de mim exagera demais
se derrama pelas bordas em tudo que faz
e faz bem
essa parte espera demais
acredita demais
confia demais

E todas elas passam bem.
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texto adaptado da @olhardepaulina_

tirar a roupa é fácil.
o tecido é leve,
desliza pelo corpo e pronto,
está tudo no chão.

não é sobre isso que somos tão ensinadas a acreditar.
nós somos ensinadas que devemos parecer fortes,
o tempo todo.
e que se parecermos fracas,
vulneráveis,
alguém nos engole.

sentir demonstra fraqueza,
ser demonstra fraqueza,
o corpo virou nossa maior brecha para alguém nos atingir em cheio.
por nós mesmas.

a gente se recolhe,
viver dói.
e só pedimos para que a vida passe por cima de nós com calma, devagarinho.

quando tiro a roupa,
lembro de mim,
de quem eu sou,
pura,
crua,
simples.
meu corpo é a minha existência.

não sou minhas roupas,
ou sapatos,
ou acessórios,
ou produtos,
sou carne,
pele,
corpo.

e quando olho para minha nudez,
olho enfim para quem realmente sou,
sem precisar me esconder atrás de algo.

meu corpo me olha no espelho,
e eu o olho de volta.
estar nua não dói
reconhecer suas imperfeições te faz transcender
suas marcas
suas lutas
seus gritos.
se encontre e se reconheça como seu próprio lar, porque você é a única casa da qual nunca poderão te expulsar
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O primeiro salto

De súbito, eu me aproximando e entrando num avião enorme, barulhento, assustador.

Com uma trouxa nas costas,

um monte de soldados apavorados se entreolhando com o objetivo de fugir do inevitável, que era olhar para aquela imensidão azul abaixo e acima de nós todos.

Os sargentos gritando. De imediato eu pensei: tô morto! Não vai dar certo! Até que recebi os comandos esbravejantes, pois a imensidão era ensurdecedora àquela altitude.

Preparar! Levantar! Enganchar! A porta! Ah meus santos, que pavor, que pavor.

Com certeza vou morrer.

Saltei. Deu tudo certo. Abriu. Me apaixonei. Paixão a primeira queda.

 Sessenta anos saltando de paraquedas e não quero parar mais nunca. Se paro, morro. De certo morro. De vontade de engolir de uma  só vez aquele ar todo. Aquela dança aquática nadando no céu azul. Feito bailarinas numa dança sincronizada. Pernas pra lá e pra cá, braços, giros, saltos. Soltos! Mais livres do que nunca. Tão vivos como sempre. Matando o tempo. Vai, voa longe! Tão lá no alto, que me faz sombra feito nuvem, corta os céus e mergulha.

Venha o vento que houver. Vou nadar lá no alto, vai ser eu, o velho, e o mar.
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Ventus Est

Me interessa esse lado teu

Fiz desse meu lugar favorito

 do lado de cá

Onde viver é estar

Estar sonhando e contando

quantos sonhos cabem numa vida

 

Me interessa alcançar o que ainda inexiste

Intrigar multidões por que passo

Meu lugar favorito é nas incertezas dos dias correntes

Feito enxurrada de verão

No espaço entre um verso e outro

Na curva de um ombro amigo de amor moldado

 

Moro no cheiro de quem a gente quer bem

No olhar desbravador recostado na janela do carro

No ato de enxergar o outro como um ato político

Moro na vontade de manter vivo

o sentido escasso das coisas

Moro por curta estadia nos olhares silenciosos

nos olhos que se devoram

nos beijos que conversam

No amor

Eventualmente

Meu lugar favorito é definitivamente no amor

Sentimento ignorante que extravia os juízos

Essa inclinação humana de arrastar erros por décadas

 

Nesse amor

o amor ronca na horta

entre pés de laranjeira

entre uvas meio verdes

e desejos já maduros de carlito

é nele que habito.
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Laços que nos fez nós


Sonhei com o cheiro da tua pele
Teu corpo
de essência deliciosa e salivante
o atrito corpo-teu-corpo-meu nos acendeu

Na penumbra soltamos centelhas que incendiaram o quarto, fogos de artifício e nas labaredas te acendi um cigarro

Na fumaça e luz rúbea vacilante
me dei por vencida
Enfeitiçada
Adiei o amanhã
Afim de te ter no espaço espremido que se faz o hoje
Vai, mas volta
Fica
Te guardo dentro de mim
Me rasgo por fora, me abro só pra te manter aqui
Me eterniza no teu olhar

Me chama, me acende
Me tira pra dançar Gilsons
num ritmo descompassado errante
Pisoteado descalçado
Eu e tu ao centro da circunferência circular
Infinita do ciclo que se cria num elo entre nós



Hoje me prendo nos laços
que nos fez nós.
Me demoro no pesar de
esperar por teu convite pra uma ocasião
Uma ocasião especial como a vida
Uma última dança contigo na festa
que foi ter te encontrado.
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