Escritas

A minha vontade é de sair gritando.

andreza g. a. alves
A minha vontade é sair gritando
Muito prazer, eu tô aqui. Aqui em baixo. Aqui, aqui em baixo na sua sola.
Eu sou a pedra no seu sapato. Eu sou a ferida em si mesmo que você se recusa
a ver. Eu tô aqui. Não consegue ver? Não quer? Sua lei me tornou ilegal. Suja.
Louca. Sem moral!
Preta suja! Preto sujo! Não te quero dentro da minha família não, não quero, não.
Claro que respeito, não tenho preconceito coisa nenhuma. Tenho até amigos que são.
Só não tem nenhum vivo mais. Claro que não sou homofóbico. A criatura gay é uma das
criaturas mais fascinantes. É só a minha opinião, porra.
Não tem paz, tem não. A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? A paz é uma senhora que nunca olhou na minha cara. A paz é seleta. Tem nome, cor, orientação sexual normativa e endereço. Não visita qualquer um não. Nada. Não sou da paz, não sou boba. Não vou ficar quieta, não vou calar a boca. Não sou louca, maluca, surtada. Não vou perdoar! Não quero! Não vou desfazer minha cara de cu 
não vou mesmo. Não vou rezar. Reza você aí na sua casa. Bate na porta, pede licença, entra e senta no sofá aquela senhora. Conversa, conversa e conversa. Respeito, mas não concordo. Não fala assim comigo, respeita os mais velhos. Sua mãe não te deu educação, sua sapatão macumbeira do caralho? Foda-se sua crença, foda-se sua crença. O senhor é meu pastor e nada me faltará. Amai-vos uns aos outros. Menos os pretos. O senhor é meu pastor e nada me faltará. Amai-vos uns aos outros. Menos os viados. O senhor é meu pastor e nada me faltará. Amai-vos uns aos outros. Menos sapatão. O senhor é meu pastor e nada me faltará. Amai-vos uns aos outros. Vem que ele te salva. Ah, não quer? Então vai queimar no fogo e enxofre no nono círculo do inferno.
Morreu mais um traveco ali ó. Nem foi tão grave, não teve arma, só usaram as mãos. Uau. Pra que serve essa mão tão grande? Pra dar soco na costela de viado. E as duas duas tiram esganam, tiram o fôlego, tiram o ar dos pulmões e inflam o ego. As mãos, os braços, as pernas circundando o corpo como urubus em cima da carniça. E aí num sopro a vida se foi. Que pena! Não vai nem sair no jornal, ninguém liga. Tanta coisa pior pra sair na capa. Hannah arendt já foi clara que notícia ruim vende porque o bem ainda é coisa rara. Ninguém tá nem aí pro dia internacional contra a homofobia. Tenho tanta coisa pra fazer. Arroz e feijão. Arroz e feijão.