Lista de Poemas

[lição de loucura]


Ensina-me.
Quero aprender-te.
Dissecar-te os traços.
Lamber-te o suor
que escorre salgado.
Engolir-te num trago.
Devorar-te!

Ensina-me
o silêncio saturado
das entranhas.
E guia os tentáculos
da minha voz
pelo teu corpo.

Ensina-me.
Quero saber-te.
Quero sorver-te.
Do sabor, ao torpor.
Beijar-te os orgãos.
Morder-te os ossos.

Anda, ensina-me.
Quero enlouquecer
-te.

~ Andreia Marques
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[nada]



Sou feita de nadas.
Todos misturados numa complexa teia de vazios.
Um amontoado de incertezas ligadas por convicções firmes.
Sou luar crescente,
em quartos de desejo contido.

Sou tanto, de nada, que transbordo de tudo.
Maré cheia de ondas vagas que me largam nua,
nesta praia deserta a que chamamos vida.

~ Andreia Marques
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[penso]


Quero
parar
de pensar.


Por um bocadinho.
Ficar só, no quentinho.


Apreciar a água quente,
pela água quente.
Viver no momento,
pelo momento.

Sentir o toque,
pelo toque.
Na pele do corpo.
Longe do pensamento.


Quero
parar
de pensar.


Há qualquer coisa que me escalda o peito.
E a pele, vermelha, arde.
Arde por dentro, profundo.
E a mente premente,
que arrebate, rasga,
escarna, sangra.
Não pára!


E eu penso, penso, penso.
Penso, insisto, inquieto, fecho, aperto, esqueço, penso.

Ah…

A liquidez do momento presente.
Queria banhar-me de mim.
Degolar o que resta disto.
Calar as vozes da mente.

Sair, ficar só.
Fruir, virar pó.


Mas penso, penso, penso.
Penso, sinto, sangro, aperto, esqueço,
penso.

Penso para tapar feridas
que não sei cicatrizar.

E sabes, só queria saber de um lugar
onde pudesse parar de pensar.

~ Andreia Marques
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[renascer]


Grita menina, grita.
Grita até não poderes mais.
Grita o peito desfeito. 
Grita a carne e o sangue.
Grita os pulmões! 

Grita tudo. 
Grita-te para fora de ti.

Deixa sair as vísceras,
com as mágoas e as frustrações.
Arranca de ti as tristezas, 
as ansiedades e todas as emoções.

Mas grita agora menina,
que o silêncio esgota-te.
E grita bem alto,
que a tua voz está pronta,
e tu precisas de renascer.

~ Andreia Marques
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[subtrais]


Repetes as mesmas palavras
até não se lhes entender significado.
São letras,

umasaseguiràsoutras.

São sons,
cassimisturados
soam a pequenos nadas.
Mesclados e estranhos.

Debitas
e sub-
trais
-
me
delas.

Das palavras
e dos significados.

~ Andreia Marques
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[ficava]


Ela tinha asas em vez de braços. 
Pequenas garras no lugar de unhas. 
E o seu corpo inteiro era revestido por escamas.

Era uma criatura estranha,
errónea e paradoxal. 

Voava como quem nada,
nadava como quem anda.
E nunca saía do mesmo lugar. 

Era o reflexo do que queria ser.
A imagem que nunca fora.

Era sede na margem da água.
A miragem de coragem,
o destino sem a viagem.

Ela tinha paredes em vez de céu.
E quando chegava à janela
não sabia se nadava,
voava ou andava
para sair deste apogeu.

E então, ficava.

~ Andreia Marques
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