Escritas

Biografia

Poeta brasileiro morador da cidade do Rio de Janeiro.

Lista de Poemas

Total de poemas: 10 Página 1 de 1

Meio

A escada rolante
é poesia.


É degrau que surge plano
vira degrau
e morre plano.


A escada rolante é poesia
sem que fosse poesia
quando criada.


O rio
é poesia.


É além de coisa
fluxo
que não morre.


O rio foi criado
antes de poesia.


A poesia
é poesia.


Ela começa poesia
passa por verso
e depois vira poesia.


A poesia foi criada
junto a poesia


e so existe antes
e depois da poesia.
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Há metáfora em tudo

Há metáfora em tudo
e em tudo que se quiser.


Desse-me maçã
e desse-me realidade,
a realidade é uma maçã.


Desse-me maçã
e  desse-me a ilusão,
a ilusão é uma maçã.


a maçã é uma maçã
e não se come com os olhos.


a metáfora é todo o resto
que a alma não entende
daquilo que é


não é  realidade
e nem sequer é ilusão.


 a metáfora é uma maçã.
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primeiro achei o retrato lindo,

primeiro achei o retrato lindo,
depois perdi poesia
e achei o retrato retrato.


o retrato me olhava
com pena de mim.
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Andava feito um bêbado

Andava feito um bêbado
e me escrevia como um homem
sóbrio
até que minhas palavras se embriagaram
e me escrevia como um bebado
e agora já andava como um homem
a quem faltam palavras.
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No fim da ladeira

No fim da ladeira
No fim distante, inda ladeira
Ladeira sem asfalto, margeada
De grandes casas
No fim dessa ladeira
Lá no final onde eu nunca fui,
Eu ficava na casa,
Lá no fim há
Uma praça.


Coisa normal que se haja em
fim de ladeira,
Uma praça, meninos mais
vadios que eu,
A coisa da graça.


Tivesse eu um
Dia provado da praça,
Nunca provei.
Soube que lá no fim havia 
uma praça,
E depois árvore, pântano
Talvez mais nada,
Nunca provei, nunca andei,
Quando botava os pés pra fora
de casa,
Só descia inerte a ladeira,
As ordens nas costas, a
obediência primeira
Tivesse eu subido,
Saberia mais que os
murmúrios do muro
Que tanto tanto me falavam,
Tivesse eu provado não sei.
Sei que não provei


E até hoje por isso
No fim da ladeira
Inda há uma praça
Lá no fim da ladeira
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Passei pelo boteco

Passei pelo boteco
Onde eu poderia sentar
Mas não sentei

Sentei na cadeira
Donde eu podia tomar
Uma cerveja, não tomei

Caminhei

Traguei um cigarro
Que nao fumei

Passei
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o roxo do céu

o roxo do céu
e a falta que sente do mar atrás de mim,
a natureza nas luzes acesas de led
falariam dum tempo que chegaria.

a voz das coisas é, agora,
entretanto, e entre pouco,
calada:

outro tempo já chegou 
e aguarda.
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Processo de Mudança

Eu olhei para o espelho e,
em vez do espelho, 
havia uma parede branca


com restos de armário
e sem medo ou
esperança.


Eu olhei para o espelho e percebi
Que sempre houve uma parede branca
Por trás do espelho.


E dar-me conta de um fato
É meu processo de mudança.
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o bule de chá aqui de casa faz barulho sozinho

o bule de chá aqui de casa faz barulho
sozinho e se chama aladdin apertei o botão
com uma mão e agora ele parou
de fazer barulho sozinho só se chama aladdin


Eu amo e, enquanto amo,
me desfaço e despedaço
e me esfarelo
a fim da
menor porção de mim.


Não há abstração maior
que a infância que não fomos
Aladdins.


o passarinho aqui de casa faz barulho sozinho mas isso não
me importa porque ele não se chama aladdin
passarinho já nasceu fazendo barulho sozinho
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deu-me uma dor de cabeça,

deu-me uma dor de cabeça,
algo que doía entre o olho e o nariz,
quando vi meu avô pegar as flores
que perfumam a sala com cheiro de flor
e jogar-lhes fora.


estavam velhas
e o som do chafariz de mesa
comprado no interior de Minas Gerais,
que funciona ligado à tomada,
maestrava o silêncio de alguns barulhos
que ficavam.


a dor, na condução calma da batuta cega,
assim se ia, e se acostumava com a falta
como fosse a falta a normalidade
da vida.
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