Escritas

Lista de Poemas

Total de poemas: 7 Página 1 de 1

um dia inteiro

um dia sério de trabalho
sem escolha 
sem bolha
sem variação

eu hoje fiz a lista
da conquista

um dia inteiro
sem distração 
revista facebook baralho
só trabalho só trabalho
tecido o dia
por inteiro 
sem retalho
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é multidão

porque deus é um só
e o diabo é multidão
mente é multidão
semente é multidão
multidão demente, delirante
a alma aflita
é evidente
é multidão
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Tivessem Adão e Eva sido mais pacientes

Tivessem Adão e Eva sido mais pacientes
Tivessem sossegado e feito mais amor
Comer daquele fruto não seria urgente

Ficassem distraídos no dolce fare niente
Passassem todo o dia rolando em seu ninho
E um após o outro nasceriam os bacurinhos
Simplesmente

E esses
Rodeariam a Deus, e lhe fariam cócegas
Lhe chamariam avô, puxando a imensa barba
E o velhinho ranzinza sairia do sério
Esqueceria a gota, o espirro, o reumatismo
Quem sabe até iria tentar um sorriso

O Éden assim repleto de crianças arteiras
e tantas que um dia Deus, já conformado,
Até desistiria de vigiar as macieiras.
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Smart

sabe da minha rua
mas não do meu sapato
sabe meu sapato
mas não de como eu piso

sabe como eu piso
sabendo como eu piso
minha dor no joelho

sabe o meu joelho
meu post meu diário
minha dor meu prontuário
mas não da roupa no armário

já sabe do armário
sabe as etiquetas
meu número meu Visa
por fim já mapeou
meia cachecol blusa e camisa

por que não tenho um time
ele só desconfia
mesmo assim faz o teste
vem a oferta de um bilhete
um belo dia

não quis ver bilhete
não quis nem saber
não quis comprar
e naveguei pra outro lugar

mas é tarde
já viu quem seria
só por isso
por terror lucro ou vício
me vigia

não importa não quero
não quero mais ser visto
no atacado no varejo
na esquina no quarto
no beco na pista
nem a prazo nem à vista

nem venha
não insista
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Cacos

Respire fundo

junte os cacos

ache solução

remarque o compromisso

tente de novo

e não ligue para isso.
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O Grande Judas

(por Antonio GranMadre)


Vinde, vinde, toda a gente

velhos e moços

A rampa, altaneiros, subiremos

E juntos, irmanados, construiremos

Para a posteridade o Grande Judas



Nós todos, essa elite, essa gentalha,

brutos e raivosos, somos tantos

O vasto mundo a encher de espanto

Coxinhas, medianos, empresários

Remediados, milicos e a politicalha



De todos os lugares vêm chegando

As gentes, suas mazelas carregando

Com gritos, assovios, charanga e banda militar

Trazendo os culpados para o fogo queimar




Vêm crentes, jornalistas, o juiz, o policial

O advogado, o promotor, o carcereiro,

Com uma batelada de processos

Governadores, prefeitos, assembléias,

Artistas, radialistas, o congresso,

E muita, muita gente de dinheiro




Em gestos coordenados, furiosos

Os gritos se unirão em grande voz

E as chamas, consumindo o nosso algoz

Queimando, desatarão os nossos nós




Eia, vamos pois, lancemos eles todos,

os pobres, os fracos, os ousados,

rebeldes (de joelhos!), moços, velhos,

Os críticos, os birrentos, orgulhosos,




Joguemos os espelhos, tudo que nos mostra

Artigos, reportagens, pesquisas, relatórios,

Análises, diagnósticos, balanços, diretrizes,

Junte a tudo as bruxas, meretrizes,

o sabotador, o militante, o espião,

os piratas, os ateus, os comunistas,

os palhaços, os fanáticos, os inconformados

os loucos, os artistas, transformistas,



(conforme o dispor da ocasião,

a cada um arrasta a multidão)




Os ódios furiosos e pecados

Dentro do grande boneco são então depositados

(um a um até não sobrar espaço)




Mas ao ver o bojo repleto finalmente

A turba com grande desalento

Constata enfim que o Judas é pequeno

Para conter tanta raiva

e sofrimento

E na insuficiência dessa hora

Recorre logo ao santo mandamento

Linchemo-nos uns aos outros, sem demora




E em fúria a enorme multidão

Inicia ao léu a malhação

Com facas e espetos, com granadas,

Com pragas, cuspidas, escarradas,

E balas, e pernadas voadoras,

Canhões, rajadas de metralhadoras




De todos os rincões, os mais distantes

Legiões de linchadores chegarão

Trazendo pragas, bulas e decretos

E hinos celebrando essa união

E mais facas, cassetetes, e chicotes

E socos ingleses aos magotes

Com a ira dos frustrados, meliantes,

E operários de salários aviltantes

E vem bater o alto executivo,

O pregador, o traficante, o ladrão furtivo

(os louros, colherá quem ficar vivo!)



Pois tormentosa a multidão avança

Destruindo tudo, o trigo, o arado e a mó

Em ondas a maré que nunca cansa

A si própria levará à cinza, ao pó



E a paz então cairá sobre os cadáveres restantes

E aqui não tendo mais o que fazer

Irá reinar no céu, com diamantes.


(Já os diamantes do chão, esses com certeza,

Ainda aqui estarão, e outras riquezas...)
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Navegar é preciso

Navegar

é preciso

viver

carece de precisão
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