O Grande Judas
agranmadre
(por Antonio GranMadre)
Vinde, vinde, toda a gente
velhos e moços
A rampa, altaneiros, subiremos
E juntos, irmanados, construiremos
Para a posteridade o Grande Judas
Nós todos, essa elite, essa gentalha,
brutos e raivosos, somos tantos
O vasto mundo a encher de espanto
Coxinhas, medianos, empresários
Remediados, milicos e a politicalha
De todos os lugares vêm chegando
As gentes, suas mazelas carregando
Com gritos, assovios, charanga e banda militar
Trazendo os culpados para o fogo queimar
Vêm crentes, jornalistas, o juiz, o policial
O advogado, o promotor, o carcereiro,
Com uma batelada de processos
Governadores, prefeitos, assembléias,
Artistas, radialistas, o congresso,
E muita, muita gente de dinheiro
Em gestos coordenados, furiosos
Os gritos se unirão em grande voz
E as chamas, consumindo o nosso algoz
Queimando, desatarão os nossos nós
Eia, vamos pois, lancemos eles todos,
os pobres, os fracos, os ousados,
rebeldes (de joelhos!), moços, velhos,
Os críticos, os birrentos, orgulhosos,
Joguemos os espelhos, tudo que nos mostra
Artigos, reportagens, pesquisas, relatórios,
Análises, diagnósticos, balanços, diretrizes,
Junte a tudo as bruxas, meretrizes,
o sabotador, o militante, o espião,
os piratas, os ateus, os comunistas,
os palhaços, os fanáticos, os inconformados
os loucos, os artistas, transformistas,
(conforme o dispor da ocasião,
a cada um arrasta a multidão)
Os ódios furiosos e pecados
Dentro do grande boneco são então depositados
(um a um até não sobrar espaço)
Mas ao ver o bojo repleto finalmente
A turba com grande desalento
Constata enfim que o Judas é pequeno
Para conter tanta raiva
e sofrimento
E na insuficiência dessa hora
Recorre logo ao santo mandamento
Linchemo-nos uns aos outros, sem demora
E em fúria a enorme multidão
Inicia ao léu a malhação
Com facas e espetos, com granadas,
Com pragas, cuspidas, escarradas,
E balas, e pernadas voadoras,
Canhões, rajadas de metralhadoras
De todos os rincões, os mais distantes
Legiões de linchadores chegarão
Trazendo pragas, bulas e decretos
E hinos celebrando essa união
E mais facas, cassetetes, e chicotes
E socos ingleses aos magotes
Com a ira dos frustrados, meliantes,
E operários de salários aviltantes
E vem bater o alto executivo,
O pregador, o traficante, o ladrão furtivo
(os louros, colherá quem ficar vivo!)
Pois tormentosa a multidão avança
Destruindo tudo, o trigo, o arado e a mó
Em ondas a maré que nunca cansa
A si própria levará à cinza, ao pó
E a paz então cairá sobre os cadáveres restantes
E aqui não tendo mais o que fazer
Irá reinar no céu, com diamantes.
(Já os diamantes do chão, esses com certeza,
Ainda aqui estarão, e outras riquezas...)
Vinde, vinde, toda a gente
velhos e moços
A rampa, altaneiros, subiremos
E juntos, irmanados, construiremos
Para a posteridade o Grande Judas
Nós todos, essa elite, essa gentalha,
brutos e raivosos, somos tantos
O vasto mundo a encher de espanto
Coxinhas, medianos, empresários
Remediados, milicos e a politicalha
De todos os lugares vêm chegando
As gentes, suas mazelas carregando
Com gritos, assovios, charanga e banda militar
Trazendo os culpados para o fogo queimar
Vêm crentes, jornalistas, o juiz, o policial
O advogado, o promotor, o carcereiro,
Com uma batelada de processos
Governadores, prefeitos, assembléias,
Artistas, radialistas, o congresso,
E muita, muita gente de dinheiro
Em gestos coordenados, furiosos
Os gritos se unirão em grande voz
E as chamas, consumindo o nosso algoz
Queimando, desatarão os nossos nós
Eia, vamos pois, lancemos eles todos,
os pobres, os fracos, os ousados,
rebeldes (de joelhos!), moços, velhos,
Os críticos, os birrentos, orgulhosos,
Joguemos os espelhos, tudo que nos mostra
Artigos, reportagens, pesquisas, relatórios,
Análises, diagnósticos, balanços, diretrizes,
Junte a tudo as bruxas, meretrizes,
o sabotador, o militante, o espião,
os piratas, os ateus, os comunistas,
os palhaços, os fanáticos, os inconformados
os loucos, os artistas, transformistas,
(conforme o dispor da ocasião,
a cada um arrasta a multidão)
Os ódios furiosos e pecados
Dentro do grande boneco são então depositados
(um a um até não sobrar espaço)
Mas ao ver o bojo repleto finalmente
A turba com grande desalento
Constata enfim que o Judas é pequeno
Para conter tanta raiva
e sofrimento
E na insuficiência dessa hora
Recorre logo ao santo mandamento
Linchemo-nos uns aos outros, sem demora
E em fúria a enorme multidão
Inicia ao léu a malhação
Com facas e espetos, com granadas,
Com pragas, cuspidas, escarradas,
E balas, e pernadas voadoras,
Canhões, rajadas de metralhadoras
De todos os rincões, os mais distantes
Legiões de linchadores chegarão
Trazendo pragas, bulas e decretos
E hinos celebrando essa união
E mais facas, cassetetes, e chicotes
E socos ingleses aos magotes
Com a ira dos frustrados, meliantes,
E operários de salários aviltantes
E vem bater o alto executivo,
O pregador, o traficante, o ladrão furtivo
(os louros, colherá quem ficar vivo!)
Pois tormentosa a multidão avança
Destruindo tudo, o trigo, o arado e a mó
Em ondas a maré que nunca cansa
A si própria levará à cinza, ao pó
E a paz então cairá sobre os cadáveres restantes
E aqui não tendo mais o que fazer
Irá reinar no céu, com diamantes.
(Já os diamantes do chão, esses com certeza,
Ainda aqui estarão, e outras riquezas...)
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