Lista de Poemas
Soneto
Inverno árvores já tão despidas
também tempo longo de escuridão
como as folhas assim também a vida
tem fases tão longas de solidão
Mas na flor rosada da tua boca
nos ardentes olhos do teu jardim
passeei na rua das tuas mãos
caíram frescas pétalas em mim
E o intenso perfume voltou
em tal êxtase de cor , alegria
que não via teus olhos mas flores
E na corda suave do teus dedos
fui de uma harpa a harmonia
dedilhada na voz de nossos segredos.
Manuela Barroso
Encontro-te
Encontro-te e não te vejo.
A bruma aperta a tua voz na garganta da serrania
numa corrente de paz descendo ligeira na nascente
cristalina e fria.
Sou ave na liberdade solta da prisão que me deste,
os voos são fugas que se despegam do chão
numa ascensão e numa ânsia de encontrar a tua porta.
Não feches, amado, a única morada
onde me encontro a sós contigo.
Prepara a minha túnica de linho
dá-me o mel da montanha
e das bodas o teu vinho.
O perfume da tua casa
é o incenso das manhãs
que atravessa as minhas mãos.
Quero abri-las e libertar-me deste visgo
que aperta a minha pele contra o suor do meu peito.
O sol vai-se abrindo
a bruma ainda dorme.
A luz é o lençol onde espero ouvir
chamar pelo meu nome.
manuela barroso, in "Luminescências", Cap. Da Essência
Escuta, amado
Escuta, amado,
azeda-me esta dor silenciosa na alegria da solidão.
Tudo é vasto e longo.
Os refúgios perdem-se nos esconsos das ervas.
Invade-me este sol de orquídeas que semeias nas toalhas
que cheiram a alecrim.
Cansa-me esta invasão das abelhas que me roubam
devagarinho o mel do rosmaninho.
Perco-me numa irritabilidade mórbida quando me roubam
o azul das flores.
Tivesse uma casa dentro de mim e faria canteiros com
cada grão de pólen desprendido do jasmim.
A minha casa é de pedra, amado, não de flores.
Quisera ser abelha, voar sem amarras,
beijar as estrelas.
Depois, ir contigo para onde tu fores.
Manuela Barroso, in "Luminescências" , Cap. Da Essência
Português
English
Español