Escritas

Escuta, amado

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Escuta, amado, 

azeda-me esta dor silenciosa na alegria da solidão. 

Tudo é vasto e longo. 

Os refúgios perdem-se nos esconsos das ervas.

Invade-me este sol de orquídeas que semeias nas toalhas

que cheiram a alecrim. 

Cansa-me esta invasão das abelhas que me roubam 

devagarinho o mel do rosmaninho. 

Perco-me numa irritabilidade mórbida quando me roubam 

o azul das flores. 

Tivesse uma casa dentro de mim e faria canteiros com 

cada grão de pólen desprendido do jasmim. 

 

A minha casa é de pedra, amado, não de flores. 

Quisera ser abelha, voar sem amarras, 

beijar as estrelas. 

Depois, ir contigo para onde tu fores.


Manuela Barroso, in "Luminescências" , Cap. Da Essência