Escritas

Bolha de Sabão

yuri petrilli
Descanso na humilde honestidade
Com que me sento à calçada,
Destituído, nesta tarde,
De qualquer outra pretensão
Que não seja a de folhear
As poesias que trago no regaço.
O céu está denso e cinza.
Poucos cães ululam em cio
Do outro lado da rua...
Inda menos crianças correm brincando,
Mais efusivas que os cães...
Não há vento que balance
As folhas das árvores cinzentas...
Nada de música. Nada de místico. Nada de nada.
Há somente a vida que corre
Como que com desdém aos ideais
Que nos fazem cultivar percepções,
Tal como a de que qualquer
Coisa de verde ou azul teria, supostamente,
Um significado transcendente,
E a capacidade de fecundar
Olhos ressequidos de avidez.
Não. Não há nada disso. Não há nada
Senão pouco mais do que é visto.
... E o tudo do pouco que há
É-me o bastante para descansar.
É-me o bastante para notar
A leveza que reside no reconhecimento
Da insignificância de um momento
Tão efêmero como é a vida:
– Folheando, à calçada, poesias
Antigas, que se renovam sobre o mofo
E se desdobram em novos significados à luz
Desta circunstância simplória.
E cada sonho meu, cada ideal, ilusão
Dá a mão a cada singular elemento
De realidade – e fazem ciranda
Diante dos meus olhos
Com a leveza da despretensão
E a pureza da desilusão.
A ciranda da sinceridade sublime
Não demanda mais que uma calçada qualquer.
E eu sorrio à calçada, vencido,
Tal como uma criança sorri
Em face à magia insignificante do estouro
De uma bolha de sabão.
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