A cidade sangra

A cidade à mercê dos elementos
E eu às voltas com pobres redondilhas,
Desgastam-se telhados pelos ventos
E as calçadas por muitas sapatilhas.

... e eu... pelo cimento

A pedra arremessada, vidro e aço,
Tudo fica mais pobre de frescura.
Espraia-se o tempo pelo espelho baço,
Ganha pó, ganha grão, ganha textura.

... e eu... deslizo lento.

As arestas suavizam-se modernas,
A vida já mágoa sem mais ajudas.
Nestes asfaltos vis cansam-se as pernas,
Nas faixas do bus caem histórias mudas.

... e eu... sou desatento.

E proliferam certas carripanas,
Carregam o turista a ver a vista.
Nem toda a gente gosta de bifanas,
Pregos, sopas ou teatro de revista.

... e eu... cá me contento.

Mas a cidade é feita cada dia
Pelo envelhecimento das pessoas.
Já a morte representa uma avaria
E os nascimentos são notícias boas.

... e eu... sem ligamento.

Edifícios e vias, animais, flora,
Verdades, suor, mentiras e mentiras,
O sangue da cidade é o Hoje - Agora -,
O tempo que envelhece. Cenas giras!

... e eu... sempre tormento.

Mas a cidade sangra a vida triste!
Vive no coração, quem é feliz,
São poucos, sua coragem lá resiste
Ao tempo, ao pó, à má e dura cerviz.

... e eu... sem batimento.

E a fibra de carbono, ferro e plástico
Circula como células vermelhas,
No pulsar de um pulmão doente e elástico,
No respirar asmático das telhas.

... e eu... descobrimento.

Quando chove, só chovem automóveis,
Assadrinham-se em latas nos vagões,
Pobres diabos só vêem seus telemóveis,
Marrecas as futuras gerações.

... e eu... já sonolento.

Dorme como um sonâmbulo a cidade
Comatosa de espasmos luminosos
E ninguém a conhece de verdade,
Nem os guias ou taxistas mais manhosos.

... e eu... sou talvez vento....
79 Visualizações

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.