Eu livro

Logo que eu aprendi as primeiras letras consegui sozinho formar as primeiras palavras, as primeiras frases, e saber-me um devorador de livros, depois, só bem depois, quando eu já sabia escrever, que me senti escritor. Foi a primeira sensação de ser algo. 
Vocês já repararam como eu falo do tempo? 
O tempo dentro das lembranças, poucos sabem das horas, pouco sabem das noites e dos dias
Não se pode manipular as lembranças, seria deformar o que somos, instalar um depósito de bugigangas dentro do ser. O que seria dos nossos mitos, dos nossos heróis, de nossos espelhos? 
O meu pai era um homem cronológico, estabelecia horários para tudo, para eu ler também, determinava à minha mãe o que eu deveria fazer diariamente, depois sumia e só aparecia quando eu já dormia. 
A minha mãe obedecia, e eu – Bem, eu lia, lia no banheiro, no almoço, na cozinha, lia acordado, dormindo, fazendo xixi, tomando banho e lia tudo, caixinha de fósforos, propaganda de chicletes, anúncios fúnebres e anúncio de bondes. 
Vejo- me sempre pendurado a um livro, ele preenchendo meus vazios, dialogando com minha solidão de menino e forjando meu caráter.
A cronologia das lembranças nem sempre está na ordem certa, acho que antes de ser um leitor, eu fui um livro.

Charles Burck
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