Escritas

TRÊS DE JULHO

Francisco Quintas

Kafka faria hoje anos...

Já não faz. Descansa

Em paz. Jaz...

Como eu

Atrás do mundo europeu

Do qual fugiu

Em que se escondeu

Quando estes dias fizer eu anos também

Vou convidar alguém... como ele

Sem carne, sem pele

Nem sangue

Nem pátria

Ou deus.

Jantaremos os ossos, as escamas

Os espinhos desta cruz

Emborcaremos os dois

Malgas de pus

Nas masmorras de um castelo chamado Modernidade.

Ignaros do crime e do processo,

Expiando uma pena

- mais dolorosa só por isso -

Gravada na carne invisível da alma,

Celebraremos o desaparecimento

Do homem e da certeza

Com opíparas doses de dejectos,

Metamorfoses, insectos por sobremesa...

No final o champanhe da eterna insónia

Far-nos-á arrotar "Para o ano há mais, Franz".

Após o qual entraremos em transe

Até que a madrugada quadriculada da cela

Nos anuncie o sisífico castigo judeu

Que assomará ao postigo

Desdentado

Pútrido, eterno, ateu

E nos rosne baixinho:

O Eu morreu!

3/7/2006