TRÊS DE JULHO
Kafka faria hoje anos...
Já não faz. Descansa
Em paz. Jaz...
Como eu
Atrás do mundo europeu
Do qual fugiu
Em que se escondeu
Quando estes dias fizer eu anos também
Vou convidar alguém... como ele
Sem carne, sem pele
Nem sangue
Nem pátria
Ou deus.
Jantaremos os ossos, as escamas
Os espinhos desta cruz
Emborcaremos os dois
Malgas de pus
Nas masmorras de um castelo chamado Modernidade.
Ignaros do crime e do processo,
Expiando uma pena
- mais dolorosa só por isso -
Gravada na carne invisível da alma,
Celebraremos o desaparecimento
Do homem e da certeza
Com opíparas doses de dejectos,
Metamorfoses, insectos por sobremesa...
No final o champanhe da eterna insónia
Far-nos-á arrotar "Para o ano há mais, Franz".
Após o qual entraremos em transe
Até que a madrugada quadriculada da cela
Nos anuncie o sisífico castigo judeu
Que assomará ao postigo
Desdentado
Pútrido, eterno, ateu
E nos rosne baixinho:
O Eu morreu!
3/7/2006
Português
English
Español