O causo dos jumentinhos

O causo dos jumentinhos

 Afê égua, bicho atentado, peste de sete pragas, praga de sete peles, bicho danado, bicho matreiro, por que a flor da vizinha ao lado sempre tem o melhor cheiro?

A égua teve um jumentinho de dois pais diferentes, é jumento demais para tão pouca inteligência, mas o menino ganhou diplomação, saiu doutor e montou no primeiro burro que passou.

Eu não confesso as minhas mazelas a padre nenhum, ponho-nas de molho e as deixo fermentar e virar cerveja. Bebo-as devagar, sem pressa nenhuma, há quem ache que os pecados matam, mas é preciso acreditar antes, que pecado existe, depois se deixar matar por eles, eu os curto como formas saudáveis de aprender com eles, só não aceito que eles preguem peças nos outros.

Chorei, chorei, depois parei, mas antes chorei de novo, os acréscimos de águas são bons para o sertão, ajuízo esses aguaceiros a tornar tudo verde, estou parecendo pé de pitomba, cheinho de flores brancas, as alegrias veem depois de cada chuvarada, já atinei isso pela criançada que brinca nas poças d’água, solta. 

De cabeça para baixo viu o mundo rasteiro, mais rasteiro do que é, um pé que vai primeiro não avisa ao outro do caminho, o buraco é mais fundo para quem olha apenas o firmamento, mas pé torto e anjo morto também entram no céu.

Domingas da ferida aberta casou-se com Monsolo, tiveram três filhos homens, dois morreram solteiros, e um casou-se depois de morto, ele trocou o sagrado pelo profano e brindou o fim do mundo em janeiro, mas o mundo tinha acabado em dezembro e o padre não professou o casamento.

Beijo de mulher brava não traz prazer algum, ficamos com medo de perder os beiços, ou que ela nos coma a língua toda, mas nem todos os sapos têm boca grande, mas há as pererecas que nem querem saber, só querem saber dos beijos.

Porém escrevo temente às coisas que digo, se alguma alma malévola descobre-me por dentro, e pode percebe que eu não tenho suficiente inteligência para zombar do coitado do jumento, melhor que eu me cale então e passe a cuidar da burrice que me cabe.

 
Do mue livro Causos Complicados
 

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