Esta noite

Todas as noites escrevo para busca-la, mas está noite viestes tão perto, 
Tuas mãos forçando as minhas a escrever sobre aquilo que ainda sonho

Escrevo tão indefeso, tão conscientemente de ti, a silhueta de cada ilha na penumbra, um corpo que brilha feito estrela 
Os barcos voltando das loucuras marítimas, as dores do corpo que nunca aceitam os vazios 
Os abismos desconexos, o olhar que passeia no quarto tentando distinguir cada coisa, as tristezas oferecidas que não cabem mais
Cada aldeia nas suas rotinas de ferir a terra, o cheio do solo, o sangue correndo nas veias das plantas, 
O copo de água macia que alivia a garganta das sedes eternas, os suores noturnos escrevem também
Os olhos estáticos das estrelas agora cintilam mais, como bons presságios a afastar o negrume dos corvos 
As tuas mãos são as escritas das minhas e sinto que há mais do que desejo das palavras ditas, 
Há as buscas dos longos estios das peles esquecidas nas ausências, 
O toque a perceberem mais do que as lembranças que ondulavam sem definições precisas
Há os consolos de quem acredita no ressurgimento das coisas perdidas, da carícia da terra a acolher a semente que brota, 
Por cada gota ensopada de orvalho, num diminuto sermão da vida, 
A folha branca da aurora estendida ao longo da estrada a nos chamar a escrever outra história, 
E se o silêncio pudesse ouvir as palavras ditas por nossos olhares, diria que, o amor nunca se cansa de tentar

 

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