ATO SUJO, ALMA LIMPA
ATO SUJO, ALMA LIMPA
Da janela do seu escritório, no vigésimo quinto andar de um luxuoso edifício, Dr. Edson Fattori, empresário do ramo petrolífero, vê a chuva bastante intensa cair sobre uma cidade que ele considera ter em suas mãos, enquanto aguarda os participantes de uma reunião que está prestes a começar.
Lá embaixo, dos buracos de sua lona, dona Francisca das Chagas Medeiros, moradora de rua, vê os carros passarem, carregando seus donos e suas histórias, enquanto aguarda o fim da chuva para voltar a pedir.
Carros luxuosos entram na garagem do edifício e, deles, saem pessoas bem vestidas e com maletas intrigantes, os quais sobem, para o alívio da espera do Dr. Fattori. Como se ele precisasse, seus colegas de reunião lhe trazem presentes tal como dotes de um casamento muçulmano: vinhos caros, um relógio suíço, uma gravata italiana e até uma joia para sua esposa. Depois de tanta pompa, eles vão logo ao que interessa: as malas são abertas e o jogo é apresentado. Membros do governo trouxeram as malas vazias para que voltassem com elas carregadas de dinheiro que alimentaria um grande esquema de corrupção. A empresa do Dr. Fattori ganharia algumas concessões milionárias e, em contrapartida, cederia um pequeno percentual para a campanha eleitoral de alguns candidatos na eleição daquele ano.
Dona Francisca recebe a graça da companhia de outro andarilho que lhe pede abrigo em troca de alguns dos pães que carregava. É motivo de festa, pois ela e seu netinho de seis anos já não sabiam se iriam comer novamente caso a chuva não passasse.
Para comemorarem, Dr. Fattori e seus comparsas abrem alguns champanhes e se servem a sorrisos largos como se o mundo todo estivesse feliz naquele momento.
Ao final, aqueles homens, que parecem boa gente, voltam para os seus carros e, na volta, passam pela pista cuja barraca de dona Francisca margeia. Dona Francisca insiste em olhar pelos buracos, ao que um dos carros não desvia da poça de lama e “fuzila” seus olhos com água suja. Mas aquilo se torna motivo de risadas por parte dela e do seu novo amigo com o qual saboreia uma bela janta repleta de quase nada. A felicidade do seu netinho, com um pão inteiro só pra si, o qual se torna enorme naquelas mãozinhas tão pequenas, faz dona Francisca ficar grata por tanta sorte que tivera naquela noite.
A chuva passa e o dia chega. Dr. Fattori teve uma noite de sono muito agradável, e, numa espécie de agradecimento a sabe-se lá quem, passa em uma padaria, depois pede ao motorista que pare o carro em frente à barraca de dona Francisca. Desce do carro e vai ao encontro dela carregando algo em sua mão esquerda. Olha para ela e diz:
- Toma! É para senhora e para o garoto.
Sai de lá aliviado e achando que se todos fossem bonzinhos como ele o mundo seria bem melhor.
Dona Francisca abre o embrulho e, com uma cara de quem deixou de ser invisível, fala para o seu netinho:
- Come o pão e deixa a mortadela pra mim.
Lá embaixo, dos buracos de sua lona, dona Francisca das Chagas Medeiros, moradora de rua, vê os carros passarem, carregando seus donos e suas histórias, enquanto aguarda o fim da chuva para voltar a pedir.
Carros luxuosos entram na garagem do edifício e, deles, saem pessoas bem vestidas e com maletas intrigantes, os quais sobem, para o alívio da espera do Dr. Fattori. Como se ele precisasse, seus colegas de reunião lhe trazem presentes tal como dotes de um casamento muçulmano: vinhos caros, um relógio suíço, uma gravata italiana e até uma joia para sua esposa. Depois de tanta pompa, eles vão logo ao que interessa: as malas são abertas e o jogo é apresentado. Membros do governo trouxeram as malas vazias para que voltassem com elas carregadas de dinheiro que alimentaria um grande esquema de corrupção. A empresa do Dr. Fattori ganharia algumas concessões milionárias e, em contrapartida, cederia um pequeno percentual para a campanha eleitoral de alguns candidatos na eleição daquele ano.
Dona Francisca recebe a graça da companhia de outro andarilho que lhe pede abrigo em troca de alguns dos pães que carregava. É motivo de festa, pois ela e seu netinho de seis anos já não sabiam se iriam comer novamente caso a chuva não passasse.
Para comemorarem, Dr. Fattori e seus comparsas abrem alguns champanhes e se servem a sorrisos largos como se o mundo todo estivesse feliz naquele momento.
Ao final, aqueles homens, que parecem boa gente, voltam para os seus carros e, na volta, passam pela pista cuja barraca de dona Francisca margeia. Dona Francisca insiste em olhar pelos buracos, ao que um dos carros não desvia da poça de lama e “fuzila” seus olhos com água suja. Mas aquilo se torna motivo de risadas por parte dela e do seu novo amigo com o qual saboreia uma bela janta repleta de quase nada. A felicidade do seu netinho, com um pão inteiro só pra si, o qual se torna enorme naquelas mãozinhas tão pequenas, faz dona Francisca ficar grata por tanta sorte que tivera naquela noite.
A chuva passa e o dia chega. Dr. Fattori teve uma noite de sono muito agradável, e, numa espécie de agradecimento a sabe-se lá quem, passa em uma padaria, depois pede ao motorista que pare o carro em frente à barraca de dona Francisca. Desce do carro e vai ao encontro dela carregando algo em sua mão esquerda. Olha para ela e diz:
- Toma! É para senhora e para o garoto.
Sai de lá aliviado e achando que se todos fossem bonzinhos como ele o mundo seria bem melhor.
Dona Francisca abre o embrulho e, com uma cara de quem deixou de ser invisível, fala para o seu netinho:
- Come o pão e deixa a mortadela pra mim.
Aleomar Tolentino