Escritas

Ainda hei-de partir por esse mundo afora

Jorge Santos (namastibet)


Tenho a alma tosca d'um estivador,
Que tanto me dói de tão dura,
Não fosse furada por uma grossa goteira,
Não teria maneira d'achar outra dor,

E eu estimo o que por ela andei,
P'las milhas em meu redor,
Amachucando no íntimo a lei,
Que dizem que existe no país do rancor.

Lastimo estas dores ilegais,
P'lo que delas na alma ainda perdura,
Mas da pele tesa dest'estivador do cais,
Gretou apenas a branca rija salmoura,

Por dentro, ond'era mais precisa,
Permanece fluida e convive,
Comigo de forma branda, religiosa
E leve...

Tenho alma d'estivador sem terra e sem destino,
Olhos prenhos do que no mar em redor
Encerra, embarquei na noite, clandestino,
Numa caravela e posso finalmente rir sem pudor...

Por esse outro mundo afora...

Joel-matos (01/2013)
http://namastibetpoems.blogspot.com
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Comentários (1)

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sergioricardo
sergioricardo
2017-11-28

Claro está, prezado amigo, que tu ainda possas, ou mesmo ainda devas, partir mundo afora. Eu cá, ando a correr um risco bastante perturbador; pelo fato de ser mais concreto que gostaria: partir-me eu próprio pura e simplesmente, à revelia, daqui a pouco e sem dar um passo para frente (o sentido já está escapando do candidamente metafórico).