A VIAGEM 2


O CEGO QUE RECUSOU A VISÃO
Ainda envergonhado, tentei lembrar-me daquelas pessoas com as quais me encontrei na última viagem e passei a observar a estrada que me conduz a tudo o que faço no meu dia-a-dia.
Acordei logo cedo, arrumei-me, beijei as crianças que ainda dormiam e fui para o trabalho.
Ao chegar, não notei grandes diferenças. Nem em mim, nem ao redor. Como sempre, na entrada principal do hospital, o vigilante abriu a portinha pra mim. Entrei e fui direto pra minha sala. Lá, pensei: hoje será diferente. Vou olhar tudo o que me rodeia e não deixar que escape uma só oportunidade para agir diferente. Coitado... até ali, já escapara ao menos uma.
À medida em que as pessoas me procuravam, eu já ia logo abrindo um sorriso e me dispondo a ajudá-las. Confesso que até gostei do jeito que elas me agradeciam depois. Já estava me sentindo melhor.
De vez em quando, uma agonia me tirava o sossego, então saía pra pitar meu cigarro de palha, o qual carregava em uma caixinha que tinha na estampa o desenho de um senhor usando aquele chapéu gasto e com um bigode modesto: um perfeito caipira mineiro. Aliviado, então, voltava à minha sala passando sempre pela mesma portinha da entrada principal.
O dia parecia circundar pelas mesmas coisas, até que chegou ao fim. Cheguei em casa mais animado, afinal consegui trabalhar a paciência, a tolerância e a simpatia. Mas, aí, estalou em minha mente aquilo que deixei escapar: notei que meus olhos, naquele dia, só conseguiram enxergar as pessoas que a mim buscavam. Vi que passei por diversas vezes por aquela portinha da qual já falei, que sempre alguém a abria mesmo sendo tão simples puxar o ferrolho pra entrar e devolvê-lo pro seu lugar ao sair. Não notava nem mesmo se era mulher ou homem que ali estava, só sabia que a porta era aberta toda vez que precisava, como se houvesse uma espécie de sensor que detectava minha presença e vontade de passar. Então, uma forte emoção, como aquela de quem encontra a resposta que buscara há tanto tempo para um problema que o afligia, tomou conta de mim. Eu sempre ouvi as pessoas me dizerem que devo ver Deus em tudo, até mesmo nas folhas que se despregam de suas árvores, porém nunca consegui, embora quisesse tanto. Mas dessa vez, pude ver onde Ele estava.
Achando que eu era a pessoa que faria o mundo ficar diferente para os outros com as novas atitudes adotadas, não percebi aquelas pessoas que faziam por mim as coisas mais simples, porém as que me davam acesso a tudo que era importante: os vigilantes que abriam a portinha.
Vi que Deus estava na figura daquele que abria a porta pra mim, mesmo sabendo que eu poderia usar minhas próprias mãos. Vi que o ar passava por minhas vias aéreas sem necessitar de que aparelhos o fizessem por mim. Notei que eu caminhava sozinho, sem perceber que não precisava utilizar de nenhum artefato pra isso. Era tudo tão automático que eu não conseguia enxergar o processo envolvido em cada movimento involuntário que meu corpo fazia. Pra eu respirar, Deus abria a portinha pra mim. Pra eu andar, Deus de novo abria a portinha pra mim. Até mesmo pra ir ao banheiro, Deus abria aquela portinha pra mim. Porém, assim como com o vigilante do hospital, eu nunca o notava nem lhe agradecia e, muitas/quase todas as vezes, não o cumprimentava. Mesmo assim, ele sempre abria a portinha pra mim. Fui tão arrogante com Ele que, se fosse de sua vontade, deixava que eu respirasse através de aparelho; que eu me locomovesse utilizando de muletas, bengala ou cadeira de rodas; que se eu quisesse falar, utilizasse as mãos pra dizer palavras mudas de som. Ainda assim, Ele sempre abriu a portinha pra mim. Obrigado, meu eterno Vigilante!
Aleomar Tolentino
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