D’OSGEMEOS [Manoel Serrão]


Ó “Poseidon” -, D’us dos Mares -, Guardiã das Águas profundas e das marés rasas.
Ó tu imortal que ao sal das vagas emerge das entranhas líquidas, que desaba em fúria severa sobre o tombadilho, e quão um punho em brasais, esbatia-se contra o rochedo do "Náutilos": arremessa-o contra o tempo pelo eterno; desafia-o num só gesto à morte; e, atormenta-o nos interiores pelos seus contrários o mundo ao redor.
Ó inda que mal traçada a rota pelo azimute, acaso D’us, viste-os vencidos? Vês são bravos “Vernes” rumo às “Ilhas” desérticas de suas almas etéricas. Vês, lá d’onde o homem-criança [os bons], reinventa o mundo, povoa-o, fecha-o e nele em claustro na caixa Nau se encerra, e a tornar-se retina viajante, é a mesma Nau que, de leve, afagam infinitos e causa amiúde partidas.
Ó Bendicto! Não vês? São heróis mortais sem desonra -, escutai-os e guardai-os só para vós no coração: por que não poupais os bons e os maus mandem-nos a purga de Hades? Ó se até o “Celeste” que outrora fora ao pique em cresta e brasa, nem à cais do porto – o destino -, a Sagração o salvara? Ó se até o “Bateau ivre” de Rimbaud, a exora, nau que se dissera “eu”, e, liberto de seu banker, fizera do Homem-pequeno homúnculo das sombras, passar de sua caverna a uma sublima alma poética?
Ó vês, inda que suprima da matéria o homem e deixeis a nau às sós: nada escapará ao ectoplasma, nem mesmo o mais remoto esférico e liso dos Universos infinitos.
Então, espiais? De Gaia, o Ponto virá a ti...
Ó "Eólio" -, D’us dos Ventos -, ó tu imortal de os teres consigo a soprar-lhe as vê-las do reino humano até voar: o vento suão; o furacão; o temporal; o vento gélido; a tempestade; e, o vento cáustico às vossas erigidas ameias aos céus do Olimpo ruiu - o destino – virara estrelas encarnadas e a imortalidade quebrando as madrugadas o alcançara.
Ó D’us que o indago e proclamo ser teu aliado: e que homem sem sonhos aos céus pode chegar? Por que não haveria de vagar pelos campos à colheita do sonho? Nossos sonhos são como um sopro dos ventos, mais que tudo precisão: a própria vida do Ser que se quer ser existido.
Ó imortal, como me vos desfizestes! Não vedes que nós, mortais são-nos destinos, e nossos dias de imortais são-nos contados.
Então, espias? De Gaia, Urano virá a ti...
Ó d’osgemeos” fúria do vento e do mar, entre - humanos e divinos – os diferentes, urge-te do estro unguento da poesia quão o sábio Gilgamesh o mais antigo que o Dilúvio – o épico do poema. Sim! Aquele que tudo vira que singrou os mares, que soubera de todas as coisas, e fora aos céus pelos ventos.
Então, espiais? De Gilgamesh, a Poesia virá a ti...
Ó dize-o tu, severo Mito? Por que acusas os mortais dos sonhares e do mal que há imortal no homem não vos dás a cura? Acaso vós sabeis dos mares vindos da corrente que os arrastam para longe, para sempre, a rota de voltar à morte para a vida, o caminho?
Acaso vós sabeis? Sabeis? Ó severo Mito, assustado, sabeis dos reveses que vos afliges quão o rito de mantê-lo à tona vivente no presente revivido?
Então, espiais? Do Rito, o Mito virá a ti...
Ó d’osgemeos dos mares e dos ventos, acaso procurareis vento no meio dos ventos? Água no meio dos mares? Ó se ali Deus imortal dela vos serás; morto ali o homem em vão dela não serás.
Ó D’us imortal “Poseidon”, agora que somos vida para amar. Ó D’us imortal “Eólio”, agora que somos sonhos para sonhar.
Ó que sejamos Vida e Sonhos, não vês? A Vida no “Berçário da Evolução” a ti virá dos Homens!
Mas dos Homens que devemos aprender a morrer para o que somos, e renascer pelos sonhos.
Então, espiais? Só assim, de Zeus, o Olimpo virá a ti...
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