Sem querer
MARINA SATIRO
Nos olhos que se esbarram num flerte inofensivo. Na boca que abarca os anseios desiludidos. No corpo efêmero, descolorido! No olhar em que o meu embriaga, do que reluz e traz o sorriso do beijo doce, intenso. Nos cabelos que se prendem nos dedos. Na firmeza do toque que inebria o momento. Nas mãos que aparam na anca do meu precipício. No fogo, calor, queima, incendeia, restos de nós se escaldam, exsudam. Bastam-se! De tudo que acabou, estagnou, lembrança! Do pensamento que mendiga os devaneios! Do céu que não sobrevive na escuridão. A saudade que arrasa o incompreensível. Das noites incansantes, amargura, solitária. Do ar que lamúria o perfume, do corpo que adormece. Insano! No abandono perene da falta. Na lágrima que toca a face como o toque na pele. Do grito silencioso da paixão oculta. Na ausência desnuda, na carência. Os lábios clamam pelo beijo impreciso, inesperado. Que a língua que envolve o obscuro, percorre todo o calor do meu frio. Na melodia suave que sonda o corpo no corpo. A dança que embala o coração ferido. Do desejo ausente que persiste no gozo absorto. À espera da volúpia que carregue as flores do meu outono. Na ânsia de uma primavera florida!
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