Hospício

Oito anos.
Dois mil, novecentos e vinte dias.
Diz a ficha clínica.
Acrescenta aí dois dias para os bissextos, vá despacha-te.

A maluca vive nas bordas, mas sabe fazer contas.
Demasiadas contas encavalitadas naquele caderno que a papelaria lhe agrafa à memória.

A maluca vive nas bordas porque o centro está vazio.
No vazio não há lugar para os malucos.
No vazio só há pão para malucos.
Por isso, por morar nas bordas, a maluca passa fome.
"Não se importa." - Foste tu que disseste?
Mentira!
Não há quem não se importe por passar fome e viver esfomeado não é uma escolha.

A maluca trabalha, ganha dinheiro, gasta algum e põe o resto no banco.
Tal e qual como quem vive no centro.
Ui, disseste centro nevrálgico...
Deve ser por isso que a maluca não sofre de nevralgias.
Nas bordas, as algias são lajes de mármore arrepiadas com o calor da pele sovada.

A maluca veste-se à centro mas não joga no comercial.
Nem sequer ouve a comercial. Só ouviu uma vez os trabalhadores do comércio.
Nas margens não se discute o preço.
Tem-se ou não se tem pela possibilidade do exclusivo.

A maluca vai a cenas do centro e das bordas mas curte todas as cenas à margem.
Os loucos amam a diferença sem o saberem.
Alguém disse que faz falta saber que se ama?
Sentir já é bom, não?!

A maluca sente coisas no corpo.
"Tem o diabo no corpo!" - Pára com esse disparate, já te avisei.
Até foi por isso que a louca recusou comer o pão que o diabo amassou.
Com medo que ele se instale, ela vai para a beirinha e amassa o pão.
Nas bordas, as coisas do corpo não se encobrem.
Mexem-se com as palavras e com as mãos.
Sem desinfectante.


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