Escritas

Liquor

Ama Spisso
Espectral
Recuso ser matéria.
Uso rachaduras como vias.
Invado espaços: entro por frestas.
Me desejo invisível.
Sou toca de texugo.

Espírito
Recuso ser corpo.
Tropeço esquinas.
Encaixo em dobras, desníveis.
Circulo em curvas de sombras.
Me desejo oculta.
Sou labirinto de castelo.

Rarefeita
Recuso ser existência.
Marco passos no escuro.
Só saio noturna: soturna.
Me desejo breu.
Sou baú do porão.

Microfísica
Recuso ser imagem.
Rastejo por ralos, canos, conduítes.
Habito ecos-ocos espaços.
Me desejo micro-micróbio.
Sou naftalina no guarda-roupa.

Dissolvida
Recuso ser estrutura.
Sub-vivo no detrás, no dentro, no profundo.
Estou no contra-reflexo.
Me desejo vulto.
Sou segundo do susto.

Estátua
Recuso ser ação.
Imóvel em imóvel abandonado.
Cheiro poeira.
Sempre em (en) canto desabitado.
Me desejo sombra e perfil.
Sou bicho traça preso ao teto.

Aquosa
Recuso ser telúrica.
Me visto caramujo.
Pesa meu dorso-abrigo.
Me desejo concha.
Sou minúsculo molusco.

Planctônica
Recuso ser espécie.
Partícula refletora.
Fragmento na imensidão do sagrado salgado.
Me desejo plâncton.
Sou maré-movimento.

Flutuo-inércia.
Levo-me.
Lavo-me.

Engole-me uma gigantesca Jamanta.

No corpo do imenso...
Eu findo infinita.
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Comentários (4)

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Ama_Spisso
2012-05-31

obrigada João...

Ama_Spisso
2012-05-31

obrigada João...

Ama_Spisso
2012-05-31

obrigada João...

joao_euzebio
2012-05-31

Que belo poema que inspiração divina até parece um quadro que a saudade pintou deixando o desejo de voltar, pois você sabe que não da para parar. Eu vou reler. Parabéns