Grito d'alma

Caminho pelas ruas sem ser percebido, sou um imundo descabelado;

Mais um vagabundo perdido, arruinado pelos prazeres da vida que me traiu;

Com os pés ardidos ainda ando por este chão de fogo, onde fui criado;

Agora vago entre os vestígios da comida mal consumida, lata a lata;

Sou apenas os escombros, restos de camundongos inexistentes;

Caído, calado, sou ajudado, mas com palavras açoitado, estrangulado e esmagado;

Peso em meus lamentos, sou escravo de teu tormento, repreendo meus sentimentos;

Liberta-me desta prisão, dê-me comida, água e pão, saborearei os resto de tua mesa;

Não tenho nojo, medo ou vergonha, mais fome de um ensejo de tua bondade;

Não tenha pena de mim, mas não me abandone, não vai embora...

A noite está fria, quero um abraço e uma golada desta garrafa;

A água que joga fora é o whiske de minha boca, agora ferida e ressecada;

Mas não calada, ainda bradarei com minha irá contra esta tirania;

Sempre sou visto revirando o lixo, sou xingado, espancado, assassinado...

Todos se calam diante de meus berros, mas nenhuma voz desafia-me;

Quando a morte vem recolher-me, estou aqui congelado esperando...

E sou esquecido, o mendigo demente, enterrado, apenas mais um indigente.
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