Entra pela janela




Se eu não te abrir a porta,
entra pela janela.
Mas vem cantando, ou derramando a tua voz pelos alicerces da minha casa,
para que eu te oiça ao longe e comece um ritual de encantamento.
Eu não sou Circe,
nem me cercam os falcões mortais,
mas sou feiticeira escondida no feitiço da vida.
Diz o meu nome bem alto mesmo que se assustem as estrelas,
para que o meu coração adormecido se desperte,
se revele e se contente com a tua presença.

Procura-me.
Eu estou escondida lá onde os sonhos vão morrer
e a Lua nada tem de poético.
É só um penedo redondo, pendurado no céu,
que nem luz própria tem e serve para incendiar poetas.
Escondi-me no riso breve das borboletas,
no voo da andorinha que caiu morta nas nuvens.
Escondi-me por debaixo dos teus olhos de bruxo para que me não vejas,
esquecida de quem sou.
Escondi-me para lá do canto dos namorados
e do cio dos amantes clandestinos.
Adormeci debaixo do próprio mundo
onde o inferno não é mais do que um coração deserto.

Se eu não te abrir a porta,
entra pela janela,
e vem pela casa adentro, aos tropeções, a bater os pés,
gritando o meu nome de mulher.
Porque virá o dia em que não haverá mais lugar p'ra me esconder.
E na tua voz viverei,
na tua luz me hei-de deitar
e acordar enroscada na palma da tua mão,
no canto alegre dos teus dias.

In hincillalacrimae.blogspot.com de Bela
Foto de autor desconhecido
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Comentários (1)

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joao_euzebio
2012-02-23

Bela que belo poema ele nos leva as loucuras do amor aos sonhos escondidos aos desejos e nos traz de volta a realidade sabendo que fomos amados. Parabéns e bem vinda