Escritas

EXTINGO UMA PÁGINA DA VIDA - I

José João Murtinheira Branco


Na poesia, quis abusar

das palavras agressivas,

aquelas que vão engrossar

o vocabulário dos protestos.

Escrevi de raiva, frases vivas,

ditadas, sopradas por figuras

anónimas, fãs dos manifestos e da confusão.

Li, e reli, rasgando as passagens ofensivas

e com elas fui engolindo agruras,

mastigadas no tempo em depuração…

Entre nós e as palavras, extingo

o meu querer e a agrura

exorcizando um destino

omisso de ventura….

Afastei o nevoeiro que a razão impele

que o meu grito sufoque e saia assim

engolido em seco, sufocado na garganta

por cenas vividas, múltiplos repúdios

acantonados à flor da pele.

Metamorfoses aprisionadas em mim,

decantam em crescente, por a dor ser tanta,

virtuais compassos de espera! Autênticos interlúdios

trabalhados, em árias de gemidos dedilhados,

por mãos brancas de músicos amortalhados.

Entre nós e a solidão, extingo

o meu querer e todo o deboche,

que vai marcando o palco da vida

neste teatro de fantoche.

João Murty

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