Escritas

De mim

Emílio




Tive uma avó como toda a gente,

uma bisavó como ninguém

tinha saias até ao chão,

cheirava rapé,

nasceu no século desanove

e não tinha vintém.

Ensinou-me a acreditar

que deus não existe,

os santos também não,

que o diabo atenta,

e que fátima só

acredita o cristão.

Pediu-me pra
não roubar,

pra não matar,

pra não maldizer,

e nunca humanos, animais e plantas

desconsiderar.

Abriu-me portas de catedrais

palácios de conviver,

deu-me asas de longo alcance,

visão de pássaros urbanos,

iluminou-me os vales do saber,

contando-me histórias

de quem não sabia ler.

Amou-me como minha mãe,

despediu-se como se voltasse,

encontro-a vezes e vezes

nas retas da decisão,

Maria foi seu nome,

vai e vem nas vagas do tempo

nas curvas do coração.

Emílio Casanova, in "ninguém compra".