Escritas

JORNADA CAPITAL

Samuel da Mata

Não sei como é que cabia

Caminhão pau-de-arara, em cima as três famílias.
Lá de casa seis filhos, de outras: mais oito,
No mais, sacos de mantimentos e latas de biscoitos

Estrada, só buraco e poeira
Fronhas no rosto prá o pó e lona por cabeceira
Era de quinhentos quilômetros a estrada
Mas naquelas condições, uma eterna jornada

Saímos de madrugada, viagem difícil, a noite não tarda
Farois no carro não tinha e a caravana é parada.
Prender não resolvia, melhor cuidar da criançada,
Mingau para os lactentes, pros demais: paçoca e água

Ao clarear saímos de Anápolis, a jornada prosseguia
Mais oito horas de estrada, por fim chegamos à Brasília
Só barro vermelho e mato, no mais tragédia e agonia
O céu por acampamento e um mar de gente sem guia

Assim chegaram os candangos, nos dias de cinquenta e nove
Metade arranja um emprego, quase outra metade morre
Doenças, pestes, acidentes e por seguro um enterro
Pra poucos foi sorte grande, pra muitos só morte cedo

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