Para Ivone
Cobro-me um poema para ti
Diferente de todos que escrevi ou li
Eu, que já não acreditava
Eu, que vivia angustiado, um desgraçado
Agora estou aqui a tecer palavras
Um crochê de um novelo enosado
Uma pintura de uma tinta seca
Um desenho a partir de um rabiscado
Não tenho nem papel
Mereces mais que teclas
Teu poema é primitivo
Deveria ser pintado nas pedras
Uma pintura inapagável
Que mostraria ao último ser inteligente da Terra que...
Aqui houve um dia Amor
Não é algo moderno
Não se confunde com jóias
maquiagens, plásticas, aparências
Mas está na menor da centelha
Que carrego em mim e carregas em ti
É o que criou o universo
E o que não se pode ver e é cada vez mais difícil sentir, na sua pureza
A mais primitiva natureza
A alma, a pele
Não se polui como automóvel ou imóvel
Está no brilho dos olhos, no abrir dos lábios, quando sorri sincero
Quero que me ames duas, três, quatro vezes na noite ou de dia
Seria tudo melhor
Não quero me esquecer de você revirando os olhos, prendendo o grito falso, arrepiando o peito num calafrio que faz correr o suor até o umbigo
Quero que fiques comigo
Desde a origem até o Apocalipse
E eu prometerei tentar
Regar meu coração
Para que consiga sempre escrever
Palavras de algodão
Para você que me fez renascer